O simulacro da alegria na folia
Articulista: Silvio da Costa Bringel Batista*
O Simulacro da Alegria na Folia: O Custo Invisível e a Vacuidade Moral do Carnaval diante de uma abordagem Teológica.
Uma análise sobre o conflito entre o 'Pão e Circo', o Mínimo Existencial para Desvendar as externalidades negativas da folia subsidiada.
I. PROLEGÔMENOS
Anualmente, o Brasil submete-se a um fenômeno que transcende a mera festividade rito-calendáriapara assumir contornos de um simulacro civilizatório. O Carnaval, sob a roupagem de manifestação cultural inquestionável, tornou-se o epicentro de uma profunda contradição: a exaltação da liberdade através da libertinagem e a celebração da alegria custeada pela precariedade dos serviços públicos essenciais. Este artigo propõe uma análise crítica e multidimensional sobre o que denominamos "Simulacro da Alegria na Folia”, investigando as camadas invisíveis de custos e a vacuidade moral que sustentam a avenida.
O leitor encontrará, nas letras seguintes, uma articulação que une o Direito, a Economia e a Teologia. Primeiramente, questionamos a legitimidade do uso do rótulo "cultural" para blindar comportamentos de anomia social. Em seguida, adentramos a esfera da gestão pública, confrontando o Princípio da Reserva do Possível com o Mínimo Existencial, denunciando a reedição da política do "Pão e Circo" em um cenário onde hospitais e escolas agonizam enquanto o erário subsidia o efêmero. Avançamos também para o exame das externalidades negativas - o ônus coletivo que recai sobre o SUS e a segurança pública -, demonstrando que a conta da folia é socializada de forma compulsória, atingindo até mesmo aqueles que dela não participam. Por fim, o cerne deste trabalho reside na Abordagem Teológica. Confrontamos a atmosfera carnavalesca com as balizas da fé cristã, expondo a incompatibilidade entre o chamado à santidade e a apologia ao excesso.
O objetivo não é apenas o exercício da crítica, mas o chamado à construção de uma nova ordem de prioridades, onde a justiça e o direito prevaleçam sobre o hedonismo financiado, e onde a dignidade humana seja preservada para além da Quarta-feira de Cinzas.
Para que essa análise se aprofunde, é necessário, antes de tudo, desconstruir a barreira semântica que protege o evento de qualquer escrutínio racional. A aceitação passiva do Carnaval como um dogma cultural intocável impede que a sociedade enxergue as engrenagens de decadência que giram por trás dos desfiles.
Assim, iniciamos nossa investigação desmistificando o álibi da tradição, para compreender como uma manifestação outrora popular foi transmutada em um mecanismo de erosão social sob o pretexto de uma legitimidade cultural que, na prática, serve apenas para camuflar o caos e a vacuidade moral.
II. O PRETEXTO DE UMA MANIFESTAÇÃO CULTURAL
A contemporaneidade conferiu à "manifestação cultural" um status de “sacralidade” secular. Ao rotular o Carnaval como patrimônio imaterial ou expressão antropológica, cria-se uma interdição ao debate ético: qualquer crítica à sua execução passa a ser lida como "intolerância" ou "elitismo". No entanto, o Carnaval moderno transmutou-se; ele não é mais a catarse coletiva e orgânica das festas de entrudo, mas um fenômeno de massas desenraizado de valores transcendentes, revelando-se como um sintoma de profunda erosão social.Vejamos:
1. A Cultura como Álibi para a Anomia
Sob o manto da legitimidade cultural, assistimos a uma suspensão temporária das normas morais que regem a civilidade. O que seria inaceitável em qualquer outra data do calendário - a exposição obscena, o consumo desenfreado de entorpecentes e a degradação do espaço público - torna-se "folclore" por cinco dias. Essa liberdade sem balizas não é uma conquista da autonomia humana, mas uma regressão ao estado de natureza, onde o impulso substitui a razão e a licenciosidade substitui a liberdade, tornando em libertinagem.
2. O Simulacro da Identidade Nacional
Para além das lantejoulas e dos ritmos contagiantes, o Carnaval opera como um simulacro de unidade. Vende-se a ideia de uma "democracia racial e social" na avenida, enquanto, na prática, a festa aprofunda abismos, tais como:
• A Indústria do Entretenimento: A manifestação que deveria ser "do povo" foi sequestrada por uma lógica de mercado que precifica o acesso à alegria (abadás, camarotes, áreas VIP e etc...).
• A Mercantilização do Sagrado: Elementos religiosos são frequentemente cooptados e esvaziados de seu sentido original para servirem de adereços estéticos, muitas vezes em tons de escárnio ou sincretismo confuso.
3. O Preço da Ilusão
Urge questionar o preço que a sociedade paga para manter viva essa ficção de felicidade efêmera. No âmbito moral, paga-se com a naturalização do vício; no religioso, com a profanação do corpo - que a teologia cristã define como templo (1 Coríntios 6:19); e no econômico, com o desvio de prioridades que sacrifica o futuro em nome de um presente anestesiado. O Carnaval moderno não celebra a vida; ele oferece uma fuga desesperada da realidade, uma tentativa vã de preencher com ruído o silêncio de uma alma desorientada.
4. Da Política Pública
Se a “liberdade sem balizas” do Carnaval moderno já representa, por si só, um sintoma de fragilidade ética na esfera privada, o cenário torna-se ainda mais alarmante quando essa vacuidade é chancelada e subsidiada pelo Estado.
A transição do campo dos valores para o campo das políticas públicas revela que o simulacro da folia não é apenas um fenômeno comportamental, mas uma escolha política deliberada. Sob a égide de um falso fomento à cultura, opera-se uma inversão de valores onde o supérfluo é blindado e o essencial é negligenciado, forçando-nos a confrontar o abismo jurídico e moral que separa a festa subvencionada da sobrevivência digna do cidadão.
Essa conivência estatal, que transmuta a cultura em conveniência política, encontra seu ponto mais crítico na gestão dos recursos que pertencem a toda a coletividade. Quando o Estado decide onde alocar o fruto do trabalho do cidadão, ele não realiza apenas um cálculo contábil, mas uma declaração de valores.
É nesse cenário de escolhas deliberadas que a retórica festiva colide frontalmente com a realidade das carências estruturais, transformando o orçamento público em um campo de batalha ético.
Portanto, torna-se imperativo descer às minúcias dessa inversão de prioridades, examinando como o fomento à folia atropela garantias fundamentais e ignora a escassez que assola os serviços básicos.
III. O DILEMA DAS PRIORIDADES E A INVERSÃO DO GASTO PÚBLICO
A análise do financiamento público do Carnaval exige um confronto direto entre a discricionariedade do gestor e os limites impostos pela dignidade da pessoa humana. A tese central reside na colisão entre o Princípio da Reserva do Possível e a garantia do Mínimo Existencial. Não se trata de uma mera escolha estética ou cultural, mas de uma decisão alocativa que, muitas vezes, beira a improbidade moral.
1. A Reserva do Possível vs. O Mínimo Existencial
O Estado frequentemente alega a "Reserva do Possível" - a limitação de recursos financeiros - para justificar a precariedade de serviços públicosessenciais. Contudo, essa tese esvazia-se de legitimidade quando o mesmo ente público destina volumes vultosos de recursos para subvenções carnavalescas e outras manifestações culturais do Estado, tendo por exemplo as “Festas dos Bois”. É juridicamente e moralmente indefensável que se alegue escassez para medicamentos, saneamento ou segurança, enquanto se viabilizam repasses milionários para agremiações e estruturas de eventos efêmeros. O Mínimo Existencial deve ser a prioridade absoluta; o entretenimento, por natureza, é secundário e como tal deve ser visto pelo Estado.
2. A Reedição do Panem et Circenses
O financiamento público da folia configura-se como uma reedição anacrônica da política romana do "Pão e Circo". Cada centavo destinado ao entretenimento de massa é, na prática, um centavo subtraído de áreas onde o Estado possui um dever constitucional intransigível. Enquanto o cidadão é anestesiado pelo som dos tambores, os problemas estruturais - a escola sem teto, o hospital sem leitos e a rua sem iluminação - permanecem intocados. Trata-se de uma estratégia de gestão que prefere o entorpecimento coletivo temporário à solução definitiva de mazelas sociais históricas.
3. A Privatização do Lucro e a Socialização do Prejuízo
Um dos aspectos mais perversos dessa inversão de gastos é a assimetria econômica do evento. O modelo de negócio do Carnaval moderno permite que o lucro gerado pela festa seja amplamente privatizado por grandes grupos econômicos, cervejarias e organizadores de camarotes e etc.... Em contrapartida, o prejuízo operacional e o custo social são integralmente socializados com o contribuinte. É o Estado financiando a infraestrutura para que entes privados colham dividendos, enquanto a conta dos serviços públicos sobrecarregados (saúde, segurança e educação) recai sobre o erário.
4. O Conflito com a Eficiência Administrativa
À luz da Constituição Federal, o Princípio da Eficiência exige que o gasto público produza o maior retorno social possível. Destinar recursos para uma festa de cinco dias, cujos efeitos desaparecem na "quarta-feira de cinzas", em detrimento de investimentos em infraestrutura que durariam décadas, é uma violação direta da lógica de boa administração. A "alegria" subsidiada pelo Estado torna-se, assim, uma máscara que oculta a negligência administrativa.
Entretanto, a fatura dessa inversão de prioridades não se limita ao desvio inicial de recursos do erário. O custo real da folia transborda as planilhas orçamentárias e se manifesta de forma visceral no cotidiano das cidades, gerando um passivo que o Estado, paradoxalmente, terá de custear uma segunda vez. Além de subtrair investimentos da estrutura básica, a manutenção do simulacro carnavalesco desencadeia uma reação em cadeia de desordem pública e degradação social.
É nesse “efeito cascata” que o cidadão comum, já privado de serviços eficientes, vê-se duplamente penalizado: primeiro pelo abandono administrativo e, agora, pelo ônus coletivo de uma festa que cobra seu preço em segurança, saúde e civilidade.
IV. A DESORDEM SOCIAL E O ÔNUS COLETIVO
O custo do Carnaval para o erário e para a sociedade é frequentemente subestimado por análises superficiais que contabilizam apenas o repasse direto a agremiações. Existe um "efeito cascata" financeiro e social devastador, onde a festa de poucos se transforma em um fardo pesado para todos, inclusive para aqueles que optam por não participar da folia.
1. A Sobrecarga do Sistema Único de Saúde (SUS)
A desordem social típica do período carnavalesco reflete-se imediatamente nas estatísticas de saúde pública. Há um aumento exponencial nos atendimentos de emergência motivados por:
• Traumas e Violência: Brigas, acidentes de trânsito potencializados pelo álcool e ferimentos por armas brancas ou de fogo.
• Intoxicações Exógenas: O abuso de substâncias psicoativas e álcool que leva a comas etílicos e overdoses, drenando recursos, leitos de UTI e equipes que deveriam estar focadas em cirurgias eletivas ou tratamentos crônicos.
• Patologias Decorrentes da Libertinagem: A atmosfera de "vale-tudo" e a fragilização dos laços de responsabilidade individual resultam em uma alta na prática de condutas de risco, gerando:
a) Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs):O aumento crítico na transmissão de patologias (HIV/Aids, Sífilis, Hepatites Virais) após o período festivo. O Estado é compelido a realizar campanhas massivas de distribuição de insumos e profilaxia pós-exposição (PEP), evidenciando que a "liberdade" celebrada tem um custo preventivo e curativo altíssimo, que na maioria da vezes não surte qualquer efeito prático.
b) Surtos de Doenças Infectocontagiosas: A aglomeração humana em condições de higiene precária e o compartilhamento de utensílios facilitam a propagação de doenças de transmissão respiratória e viral (como mononucleose, a "doença do beijo", e viroses gastrointestinais).
c) Impacto na Saúde Mental: O período pós-folia frequentemente registra um aumento em crises de ansiedade e episódios depressivos (o chamado "down" químico e emocional), sobrecarregando os centros de atenção psicossocial com indivíduos que buscam preencher o vazio deixado pelo fim da euforia artificial.
2. A Insegurança Pública e o Desvio de Contingente
A necessidade de contingentes extraordinários de segurança pública para monitorar os polos de folia gera um vácuo perigoso. Para garantir a "alegria" na avenida, retira-se o policiamento ostensivo das áreas residenciais e periféricas. O resultado é a socialização do medo: o cidadão comum, que permanece em sua casa, fica mais vulnerável a furtos e roubos enquanto o Estado prioriza a vigilância de eventos festivos privados ou subvencionados.
3. A Depredação do Patrimônio e o Custo da Manutenção
O espaço público, após a passagem dos blocos e desfiles, é frequentemente entregue ao descaso. A depredação do patrimônio - pichações, destruição de mobiliário urbano, danos a monumentos e jardins -exige reparos custosos que serão pagos com o dinheiro dos impostos ao longo de todo o ano. Além disso, a logística de limpeza urbana pós-evento consome recursos hídricos e financeiros vultosos, voltados apenas para mitigar a sujeira gerada por uma atividade de entretenimento efêmera.
4. A Erosão da Civilidade
Para além do aspecto financeiro, há um custo invisível na moralidade pública. O Carnaval moderno promove uma suspensão das regras de convivência básica, onde o assédio, o barulho excessivo (poluição sonora) e o desrespeito ao direito de ir e vir tornam-se a regra. Esse "vale-tudo" social deseduca as novas gerações e consolida a ideia de que o prazer individual está acima do bem-estar coletivo e da ordem pública.
Contudo, a análise técnica das falhas administrativas e do colapso dos serviços públicos é insuficiente para explicar a totalidade do fenômeno carnavalesco. A desordem que transborda nas ruas e sobrecarrega os hospitais é, em última análise, a materialização de uma desorientação espiritual prévia. Se o custo financeiro é alto, o preço pago pela alma humana na busca por essa alegria artificial é imensurável.
Torna-se imperativo, portanto, remover a máscara da festividade para examinar o que ocorre no cerne do indivíduo. É sob essa lente que transitamos da pragmática social para a profundidade teológica, confrontando o simulacro da liberdade celebrada na avenida com o abismo da libertinagem que aprisiona o homem e afronta os princípios da soberania divina.
V. UMA ABORDAGEM TEOLÓGICA: O SIMULACRO DA LIBERDADE E O ABISMO DA LIBERTINAGEM
A celebração que se vê na avenida é o apogeu de um simulacro: vende-se a ideia de uma "libertação" temporária das amarras sociais, mas o que se entrega é uma libertinagem que escraviza o indivíduo aos seus impulsos mais básicos. Sob a ótica teológica, o Carnaval não é uma celebração da vida, mas uma exaltação da efemeridade que resulta em violência, assédio e a sistemática desestruturação familiar. Vejamos:
1. A Incompatibilidade Inegociável com a Fé Cristã
Para o verdadeiro cristão, o distanciamento do Carnaval não é um ato de isolacionismo, mas um imperativo de fidelidade ontológica. A Escritura estabelece balizas que não apenas sugerem, mas exigem uma postura de separação:
• O Chamado à Santidade (1 Pedro 1:15-16): A santidade (hagios) implica ser "separado para um propósito". O Carnaval moderno, ao celebrar o profano, opera em uma frequência espiritual oposta ao Reino de Deus. Não se pode oferecer o "corpo como sacrifício vivo, santo e agradável"(Romanos 12:1) em um ambiente cuja liturgia central é a exaltação da carne e a profanação do sagrado.
• A Anatomia das Obras da Carne (Gálatas 5:19-21): O apóstolo Paulo utiliza o termo komos (festas desregradas) para descrever condutas que impedem a herança do Reino. O Carnaval é a institucionalização do komos. Quem experimentou a metanoia (mudança de mente) não encontra mais eco em uma celebração que fere o coração de Deus e ridiculariza a modéstia e o pudor.
• O Dever da Sobriedade (1 Pedro 5:8): A Bíblia ordena o autodomínio (enkrateia). O Carnaval, por outro lado, depende do transe coletivo. A música em decibéis ensurdecedores, aliada ao consumo de substâncias, visa aniquilar a consciência crítica. O cristão, chamado a ser vigilante, não pode se submeter a um ambiente projetado para suspender a sua capacidade de discernimento moral.
• O Testemunho e a Edificação (1 Coríntios 10:23-31): Ainda que o mundo clame por "liberdade artística", o cristão questiona: "isso edifica?". O testemunho público é manchado quando o povo de Deus financia ou aplaude manifestações que utilizam símbolos cristãos de forma escatológica ou blasfema.
2. A Inversão do "Templo" e a Coisificação do Próximo
A teologia ensina que o nosso corpo (do Cristão) é o Templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19). No simulacro da folia, o “templo corporal humano” é transformado em mercadoria. A libertinagem celebrada na avenida resulta em:
• Objetificação Humana: O próximo deixa de ser uma Imago Dei (Imagem de Deus) para se tornar um objeto de consumo momentâneo. Isso explica a explosão de casos de assédio e violência: quando o outro perde sua dignidade divina aos nossos olhos, ele passa a ser um obstáculo ou um alvo de prazer.
• Desestruturação da Aliança Familiar: A "festa" promove a suspensão dos votos de fidelidade, tratando a traição como "liberdade". Teologicamente, isso é um ataque à aliança matrimonial, que é o reflexo da união entre Cristo e a Igreja.
3. A Idolatria do Eu e o Vazio da "Quarta-Feira"
O Carnaval é, em última análise, um festival de autolatria. O homem coloca-se no centro, buscando uma alegria que não depende de Deus, mas de estímulos sensoriais. Contudo, essa alegria é um simulacro: ela é barulhenta, mas oca. A "Quarta-Feira de Cinzas" não é apenas uma data no calendário, mas a representação do inevitável retorno ao vazio de quem tentou preencher a eternidade com o efêmero. O custo invisível aqui é o desespero espiritual camuflado de confete.
Enquanto o Carnaval oferece uma euforia que precisa de subsídios públicos e entorpecimento para existir, o Evangelho oferece uma paz que subsiste na escassez e na ordem.
4. O Pragmatismo Religioso Moderno e o Perigo do Permissivo Antibíblico: A Salvação sem Regeneração
Dentro do cenário religioso contemporâneo, observa-se com preocupação o avanço de um permissivo antibíblico em certas comunidades ditas evangélicas. Sob o pretexto de uma "inclusão" mal interpretada, essas vertentes minimizam os princípios elementares da fé cristã, promovendo um plano de salvação que ignora o critério indissolúvel da metanoia (transformação da mente e do caráter), apresentando:
• A Graça Barata: Dietrich Bonhoeffer já alertava sobre a "graça sem discipulado, graça sem cruz, graça sem Jesus Cristo vivo e encarnado". Algumas denominações, ao tentarem "acolher" o folião sem confrontar o pecado, acabam por validar a libertinagem. Tratam a salvação como um salvo-conduto para a permanência no erro, ignorando que o verdadeiro encontro com Cristo resulta, invariavelmente, em uma nova criatura: "Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo" (2 Coríntios 5:17).
• A Inclusão sem Transformação: É biblicamente correto afirmar que Jesus Cristo veio para todos, mas é teologicamente falso sugerir que Ele nos deixa como estamos. A inclusão no Reino de Deus exige o novo nascimento. O permissivo que minimiza a santidade para tornar o Evangelho "palatável" ao mundo nada mais é do que uma traição ao sacrifício do Calvário.
• O Sacerdócio da Conveniência: Quando igrejas se omitem ou silenciam sobre a atmosfera do Carnaval para não "afastar pessoas", elas deixam de ser "sal da terra" - (“No mundo antigo, o sal era o principal agente para evitar a putrefação dos alimentos. O cristão, como sal, deve atuar impedindo a decomposição moral da sociedade”); (“O cristão traz o "sabor" do Reino de Deus para um mundo marcado pelo desespero e pela vacuidade”) - e tornam-se parte do simulacro. A verdadeira inclusão é aquela que resgata a pessoa do abismo da libertinagem para a luz da santidade, e não a que desce ao abismo para com ele confraternizar.
5. O Dever de Iluminar: A Responsabilidade do Cristão como "Luz do Mundo"
Para além da função de preservação (Sal), o verdadeiro cristão é investido de uma missão de exposição e clareza: ser "Luz do Mundo" (Mateus 5:14-16). A luz, por sua natureza, não tolera a simbiose com as trevas; sua função primordial é dissipar a obscuridade e revelar a realidade tal como ela é. Vejamos:
• Expondo o Simulacro: Escrever sobre o custo invisível e a vacuidade moral do Carnaval não é um exercício de julgamento, mas um ato de responsabilidade cristã. Se a "folia" atua como uma cortina de fumaça que esconde o descaso com a saúde e a erosão dos valores familiares, o cristão tem o dever de projetar sobre ela a luz da Verdade. Como diz a Escritura Sagrada: "E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as" (Efésios 5:11).
• O Risco da Omissão: Uma luz que se esconde sob o "alqueire" da conveniência política ou do silêncio eclesiástico perde sua razão de ser. O verdadeiro cristão, ciente de que o Evangelho é o padrão absoluto de justiça e retidão de Deus, não pode ser cúmplice do caos através da omissão.
• O Testemunho que Edifica: Ao expor as "externalidades negativas" e o "permissivo antibíblico", este articulista cristão cumpre seu papel de sentinela. A luz incomoda os que preferem o transe da avenida, mas é o único guia seguro para aqueles que desejam - assim como eu - construir uma sociedade fundamentada em valores e ética cristã, que não se dissipam na quarta-feira de cinzas.
O cerne deste contexto reside no antagonismo irreconciliável entre o hedonismo filosófico e a temperança teológica (enkrateia). Enquanto o Carnaval é a institucionalização do hedonismo -doutrina que eleva o prazer sensorial ao status de bem supremo e motor da existência -, a fé cristãpropõe o autodomínio como evidência de uma vida regenerada. O hedonismo financiado pelo Estadoé, em última análise, a subvenção da impulsividade sobre a razão; é o estímulo a uma alegria que se consome no próprio excesso. Em contrapartida, a temperança teológica bíblica não é a negação da felicidade, mas a sua proteção. Como fruto do Espírito (Gálatas 5:22-23), o autodomínio preserva a dignidade humana, enquanto o hedonismo a desintegra, revelando que a folia subsidiada nada mais é do que a tentativa pública de preencher com o efêmero o que só o eterno pode satisfazer.
Portanto, a resistência cristã ao Carnaval não deve ser confundida com um ascetismo sombrio ou uma aversão à celebração; ao contrário, ela nasce da proteção de uma alegria superior. Enquanto o simulacro da folia oferece uma euforia de “curto prazo”, que depende de vultosos subsídios públicos para sua montagem e de entorpecimento sensorial para sua manutenção, o Verdadeiro Evangelhoapresenta a Verdadeira Alegria (João 15:11) - uma realidade ontológica que não se desfaz com o fim do orçamento ou o silenciar dos tambores. Essa alegria cristã é autossustentável e resiliente, pois subsiste na escassez, floresce na ordem e se fortalece na sobriedade.
Enquanto o mundo se exaure na tentativa de fabricar um contentamento efêmero que termina em cinzas, o cristão repousa em uma paz que, por não ser deste mundo, não é por ele afetada, revelando que a verdadeira festa não é aquela que consome o erário e a moral, mas a que restaura a alma e glorifica ao Criador.
Diante do contraste irrefutável entre a paz perene do Evangelho e a euforia subsidiada que se esvai com o tempo, a omissão deixa de ser uma opção. Se a teologia nos revela a raiz do desvio moral, a realidade dos fatos nos impõe o dever de exigir uma mudança na condução da pólis. Não é mais possível ignorar que a manutenção deste simulacro tem sido feita às custas da dignidade do cidadão e da retidão espiritual da nação.
Assim, cruzamos o limiar do debate teórico para confrontar a prática administrativa, convocando uma nova consciência que rejeite a cumplicidade com o caos e restabeleça uma hierarquia de valores onde a vida e a justiça não sejam sacrificadas no altar da folia.
VI. CONCLUSÃO: POR UMA NOVA ORDEM DE PRIORIDADES
A análise aqui empreendida neste artigo revela que o Carnaval (A Festa da Carne) opera como um parasita das prioridades públicas e um corrosivo dos valores fundamentais. A discricionariedade do gestor público, embora prevista no ordenamento jurídico, não pode ser utilizada como um salvo-conduto para a irresponsabilidade orçamentária ou para a negligência moral. O Estado, ao financiar o simulacro da folia, abdica de seu papel de tutor do bem comum para tornar-se promotor de uma alegria artificial e excludente. Vejamos:
1. O Fim da Cumplicidade Estatal
Não se trata de um apelo à censura ou à proibição da manifestação individual - o que feriria o livre-arbítrio e o Estado Democrático de Direito. Trata-se, contudo, de exigir o fim da cumplicidade estatal com um modelo de entretenimento que afronta a ética cristã e drena os cofres que deveriam guarnecer a saúde, a segurança e a educação como prioridadesuniversais. O financiamento público de eventos que promovem a libertinagem e a desordem social é uma contradição administrativa: o Estado paga para criar o problema que, logo em seguida, terá de gastar ainda mais para remediar.
2. A Sacralidade do Erário e o Suor do Contribuinte
É imperativo exigir que o erário seja tratado com a sacralidade que o esforço do contribuinte merece. Cada verba desviada da UTI para o camarote, ou da escola para o trio elétrico, é uma violação do contrato social. À luz de uma cosmovisão fundamentada na justiça e no direito, a gestão pública deve ser um exercício de mordomia e retidão. Como bem expressa a convicção de que o compromisso deve ser sempre com a justiça e o que é correto, não há espaço para que o hedonismofinanciado prevaleça sobre as necessidades urgentes do povo.
3. Para Além das Cinzas
Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela que se entrega a impulsos desenfreados por cinco dias, mas aquela que constrói sua liberdade sobre o fundamento da consciência e da sobriedade. Os valores que defendemos - a integridade da família, a preservação da vida e o respeito ao sagrado - não podem ser dissipados na Quarta-feira de Cinzas como se fossem confetes descartáveis.
Que possamos transitar do "pão e circo" para a política do cuidado e da responsabilidade. Que a busca pela verdadeira alegria, que não demanda substâncias nem subvenções imorais, seja o norteador de uma nova ordem social - onde o Estado cumpra o seu dever e o cristão exerça o seu papel de luz e sal, apontando para uma esperança que subsiste para além do silenciar dos tambores.
4. O Direito Constitucional
Esta manifestação, portanto, encontra-se solidamente amparada pelo Direito à Liberdade de Pensamento e à Liberdade Religiosa (Art. 5º, IV e VI da CF/88). Em uma democracia plural, o exercício da consciência cristã e a livre expressão de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras são garantias inalienáveis. Criticar a vacuidade moral de uma festividade e questionar o uso do erário é um direito civil e um imperativo bíblico para quem é chamado a ser “sal da terra” e “luz do mundo”. O Estado paga para criar o problema que, logo em seguida, terá de gastar ainda mais para remediar; por isso, denunciar essa contradição também é um exercício de cidadania plena.
NOTAS E REFERÊNCIAS CITADAS
[1] BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa: Relógio D'Água, 1991. (Referência teórica fundamental para a análise do "simulacro" como uma realidade fabricada que substitui a ausência de sentido).
[2] BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF. Artigos 5º (Dignidade da Pessoa Humana), 37 (Princípio da Eficiência Administrativa) e 196 (Direito à Saúde).Liberdade de Pensamento e Expressão (Art. 5º, IV e IX): Garante a livre manifestação do pensamento e a atividade intelectual e de comunicação, independentemente de censura ou licença, permitindo o escrutínio crítico das instituições e eventos públicos. Liberdade Religiosa e de Consciência (Art. 5º, VI): Estabelece como inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando ao cidadão o direito de pautar sua conduta e sua fala de acordo com suas convicções transcendentais e valores cristãos.
[3] SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamentais: Uma Teoria Geral dos Direitos Fundamentais no Direito Constitucional. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2012. (Fundamentação sobre a colisão entre a Reserva do Possível e o Mínimo Existencial).
[4] STOTT, John. O Cristão em uma Sociedade Não Cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 2019. (Base para a argumentação sobre o papel de "Luz e Sal" do cristão diante de manifestações de anomia social).
[5] DANTAS, San Tiago. Programa de Direito Civil. Rio de Janeiro: Forense, 2001. (Referência sobre a função social do direito e a moralidade nas relações jurídicas).
[6] CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM).Relatórios sobre sobrecarga do SUS em períodos sazonais e feriados. Brasília, 2024-2025. (Base para a análise das externalidades negativas na saúde pública).
[7] BÍBLIA SAGRADA. Versão Almeida Revista e Atualizada (ARA). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. (Citações específicas: 1 Pedro 1:15-16; 1 Pedro 5:8; Gálatas 5:19-21; 1 Coríntios 6:19; Romanos 12:1 e João 15:11). “Sal da Terra: Marcos 9:50, Lucas 14:34-35 e Mateus 5:13 - "Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens." O texto alerta para o perigo da perda da identidade (insipidez). Se a igreja se torna igual ao mundo (ou adota o "permissivo antibíblico"), ela perde sua utilidade e autoridade. Aplicação Correlata na Conduta do Cristão em Colossenses 4:6.
[8] HEDONISMO: O “hedonismo” é uma doutrina filosófica que coloca o prazer (em grego, hedoné) como o bem supremo da vida humana, sendo o principal motivador das nossas ações e o fundamento da felicidade. O hedonismo não é um conceito único; ele evoluiu significativamente na Grécia Antiga. A Escola Cirenaica (Aristipo de Cirene) defendia o hedonismo em sua forma mais direta. O prazer é a gratificação imediata dos sentidos. Para eles, o prazer presente é sempre superior ao prazer futuro, e a dor deve ser evitada a todo custo. O Epicurismo (Epicuro) propôs um hedonismo muito mais moderado e intelectual. Para Epicuro, a verdadeira felicidade não estava no excesso, mas na ataraxia (ausência de perturbação na alma) e na aponia (ausência de dor no corpo). Ele defendia que prazeres intensos muitas vezes trazem dores futuras, por isso o sábio deveria buscar prazeres simples e duradouros, como a amizade e o conhecimento. Hedonismo na Modernidade: Na filosofia moderna e contemporânea, o conceito se expandiu para outras áreas: Hedonismo Psicológico: É a teoria de que todos os seres humanos, por natureza, são motivados apenas pela busca do prazer e pela fuga da dor, mesmo quando realizam atos aparentemente altruístas. Hedonismo Ético: Afirma que não apenas buscamos o prazer, mas que devemos buscá-lo, pois ele é a única coisa que tem valor intrínseco. Hedonismo Utilitarista (Jeremy Bentham e John Stuart Mill): Leva o conceito para a política e a ética social. Defende que a melhor ação é aquela que gera "o maior prazer para o maior número de pessoas". Neste artigo sobre o Carnaval, o conceito de hedonismoutilizado é o Hedonismo Contemporâneo/Consumista, que se caracteriza por Instantaneidade: A busca pelo agora, ignorando as consequências futuras (sociais ou espirituais).Materialismo: O prazer derivado do consumo e da exibição. Vacuidade Moral: Quando a busca pelo prazer individual atropela o respeito ao sagrado ou as necessidades básicas da coletividade (o erário).O hedonismo financiado pelo Estado, como discutido em sua tese, representa a institucionalização da busca pelo prazer efêmero em detrimento da justiça social e do dever administrativo. Registre-se que, enquanto o Hedonismo é a capitulação aos impulsos, a Bíblia apresenta a Enkrateia (termo grego para autodomínio ou temperança). No Hedonismo o"Eu" é o senhor; os sentidos ditam a regra. O prazer é o combustível. No Enkrateia o Espírito de Deus é o guia; a razão e a fé governam os sentidos. O fruto do Espírito (Gálatas 5:22-23) é o combustível. Na cosmovisão bíblica, o hedonismo é visto como uma forma de idolatria, onde o ventre (ou os desejos) se torna um deus (Filipenses 3:19). Já o autodomínio é a marca da liberdade cristã: "Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas" (1 Coríntios 6:12)(Almeida Revista e Atualizada - ARA) (O Apóstolo Paulo aborda a imoralidade sexual em Corinto, argumentando que a liberdade cristã não é licença para pecar ou agir de forma prejudicial, especialmente contra o próprio corpo, que é templo do Espírito Santo).
(*) Cristão Evangélico; Doutorando em Teologia pelo Instituto Logos; Consagrado ao Ofício Diaconal pela Igreja Batista em Dom Pedro; Formado em Direito pela UFAM; Pós-Graduado em Direito Civil e Processo Civil; Ex-Presidente da Comissão da Advocacia Pública e Ex-Membro da Comissão de Apoio Institucional à Gestão Pública da OAB/AM; Ex-Juiz Classista da Justiça do Trabalho; Ex-Secretário Parlamentar do Gabinete da Presidência da CMM; Ex-Assistente Técnico da Diretoria das Comissões Parlamentares da CMM; Ex-Procurador-Geral da CMM; Ex-Diretor-Geral da CMM; Ex-Chefe da Consultoria Técnico-Legislativa e Ex-Subsecretário-Chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Amazonas. Agraciado com as Medalhas Cândido Mariano, Tiradentes (Polícia Militar), Altair Ferreira Thury (Câmara Municipal de Manaus) e Ruy Araújo (Assembleia Legislativa do Amazonas). CACe Antigomobilista. Atualmente é Procurador de Carreira de 1ª Classe da Câmara Municipal de Manaus, Advogado militante, Corretor, Apresentador do Podcast “Lei é Lei” e Articulista do Portal do Holanda.
ASSUNTOS: Silvio da Costa Bringel Batista