O milagre do Rio Marmelo
Por Silvio da Costa Bringel Batista*
O Milagre do Rio Marmelo: 8 Dias de Fé e Sobrevivência na Selva
Whisky na caldeirada de peixe, sentinelas armadas e um tesouro do Banco do Brasil: Conheça a saga de Aurélio Bringel e os 34 sobreviventes do Douglas C-47 que “sumiu” no “Inferno Verde” em 1964.
1. PROLEGÔMENOS
Era 15 de fevereiro de 1964, o Douglas C-47 prefixo “PP-BTU” da Paraense Transportes Aéreos -apelidada de “Pobre Também Avoa”, pois tinha uma propaganda que dizia “Uma Feliz Viagem Pela Metade do Preço” - decolou de Manaus para Porto Velho para uma viagem de rotina que se tornaria um “inferno verde”.
Aurélio Bringel e seu colega de Banco do Brasildeveriam retornar para Porto Velho no avião da empresa aérea Paner, mas na última hora houve um problema técnico e eles conseguiram as últimas duas vagas na PTA. O “destino” reservava um dos episódios mais dramáticos e heróicos da aviação amazônica. Entre os 34 ocupantes, Aurélio, cujas memórias ajudam a reconstruir o cenário de tensão e resiliência que se seguiu ao desaparecimento daquela aeronave.
Após o impacto do pouso de barriga em uma clareira de areia branca perto do Rio Marmelo, o pânico inicial deu lugar à organização. A perícia do Comandante Luís Guimarães de Oliveira salvou a todos, mas a selva impunha um novo desafio que precisaria ser vencido: a sobrevivência em território desconhecido.
Mas o que aconteceu naqueles oito dias de isolamento absoluto desafia a lógica e o tempo. Como 34 pessoas, entre civis e tripulantes, conseguiram manter a sanidade sob o ataque implacável da selva, enquanto segredos eram mantidos sob os canos de revólveres e o destino de uma fortuna bancária repousava sobre o chão de areia.
Este artigo revela segredos para entender o “Milagre do Rio Marmelo”, mergulhando nos detalhes de uma sobrevivência que misturou whisky com peixe, fé e uma sentinela silenciosa que protegia a todos sem que ninguém soubesse.
2. O VOO ÀS CEGAS E A PERÍCIA DO COMANDANTE LUÍS GUIMARÃES
O Arquiteto Humano: Se o desfecho desta história foi um milagre, o arquiteto humano foi o Comandante Luís Guimarães de Oliveira. Voar na Amazônia da década de 60 era um desafio de confiança e navegação visual, sem radares e instrumentos de navegação confiáveis, onde os pilotos se guiavam pelo desenho dos rios. Quando a tempestade severa fechou o tempo e "apagou" o Rio Madeira da vista da tripulação, o “PP-BTU” tornou-se um gigante cego sobre um “oceano verde”.
Mudança de Rota: Aurélio Bringel relata que quando o avião se perdeu, o Comandante estava descansando e o Copiloto conduzia o pássaro de metal quando uma tempestade intensa se formou obrigando a mudança da rota a esquerda, para desviar do mau tempo, procedimento padrão para a época. Contundo, o Copiloto totalmentedesorientado, ao tentar retornar à rota para a “linha de vida do rio”, fez uma nova conversão para a esquerda, quando deveria fazer para a direita,distanciando a aeronave totalmente da rota estabelecida no Plano de Voo (Aerovia Verde 7),levando-os para a imensidão desconhecida.
Versão Oficial: Entretanto, esta não foi a versão oficial apresentada pelos pilotos, mas pelo que Aurélio relata, o comentário pós queda da tripulação foi que “quando o Comandante assumiu o controle do voo, eles já estavam perdidos”.
Fato Curioso: Um fato curioso aconteceu entre o desespero de todos quando foi perguntado se alguém dentre os passageiros conhecia o local que aparecia nas janelas do C-47. Foi quando um passageiro que tinha o apelido de “Cai-Cai” - pois havia sobrevivido a sete acidentes aéreos com aviões pequenos - disse que estava reconhecendo o rio, mas não sabia onde estavam localizados. Logo a pergunta silenciosa e unânime surgiu na cabeça de todos: Seria aquele o acidente fatal do Cai-Cai?
Sem Combustível: Diante das circunstâncias e com os ponteiros de combustível perigosamente próximos ao zero, o Comandante Oliveira tomou a decisão que salvaria as 34 vidas. Em vez de tentar um pouso forçado sobre a copa das árvores - o que fatalmente despedaçaria a aeronave - ele manteve a calma necessária para buscar uma clareira e ao avistar o banco de areia branca próximo ao Rio Marmelo, executou uma manobra de altíssima precisão: um pouso de barriga.
Apurada Técnica: Ao optar por não baixar o trem de pouso, o Comandante Oliveira evitou que as rodas travassem na areia fofa, o que faria o avião "capotar" e esmagar a fuselagem. O C-47 deslizou pela clareira como se estivesse em uma pista asfaltada, parando com a estrutura praticamente intacta.
O Silêncio de Alívio e as Primeiras Providências:O silêncio que se seguiu à parada dos motores não era o silêncio da morte, mas o do alívio: graças à "mão firme" do Comandante Oliveira, todos estavam vivos e sem ferimentos graves. Após o impacto do pouso de barriga em uma clareira de areia branca perto do Rio Marmelo, o pânico inicial deu lugar à organização, pois eles tinham dominado a máquina e a força da gravidade, agora teriam que dominar a selva e seus perigos. A fuselagem do avião, que fervia sob o sol amazônico durante o dia, tornava-se o abrigo contra as feras e o frio úmido da noite.
3. A MISSÃO DE AURÉLIO BRINGEL
Malotes Com Dinheiro: Aurélio Bringel, tio da minha esposa e meu tio por afinidade, não levava apenas seus pertences naquele voo; ele e seu colega tinham a responsabilidade de transportar malotes vultosos com dinheiro sob a custódia do Banco do Brasil. Essa missão ocorria anualmente para escoar o excesso de recursos da agência de Manaus e suprir Porto Velho com dinheiro trocado. Eram missões de extrema confiança, com funcionários escolhidos “a dedo” pela Diretoria do BB: Aurélio sempre acompanhava o tesoureiro, Sr. Conegundes.
Senso de Dever Inabalável: Mesmo diante da incerteza da morte, o senso de dever de Aurélio e seu colega permaneceu. O dinheiro foi protegido como um patrimônio sagrado ao mesmo tempo que o grupo se dividia para garantir a subsistência básica em um ambiente hostil, pois estavam vivos, mas isolados e ninguém sabia onde.
4. ENTRE O CÉU E O ARCO: AS BUSCAS NO TERRITÓRIO DOS CINTA-LARGA E ARARAS
As buscas: As equipes de busca concentravam as atividades na rota oficial do voo, tornado o trabalho totalmente inútil. Mas um dos pilotos dabusca experiente lembrou-se de ter sobrevoado anteriormente uma região com clareira igual a descrita pelos perdidos através da mensagem por Código Morse e resolveu arriscar e mudar de rota, encontrando o local exato do pouso forçado e lançou paraquedas com lanches, medicamentos, redes-barracas, armas e um bilhete informando que eles estavam sob perigo de ataques dos CINTA-LARGA E ARARAS.
A tensão dos sobreviventes: A tensão no local do pouso forçado aumentou quando a FAB, informou que o grupo estava em território dos povos Cinta-larga e Araras, conhecidos pela bravura na defesa de suas terras. O pavor de um ataque não seria fruto da imaginação dos sobreviventes do C-47, mas uma possibilidade real. Eles estavam em um reduto dos povos Cinta-Larga e Araras (Karo), etnias que, na década de 1960, estavam no ápice de um violento processo de resistência à invasão de suas terras por seringueiros, garimpeiros e projetos governamentais.
Os Sentinelas Secretos: Um dos segredos desse milagre, revelado por Aurélio anos depois, era a “segurança invisível”. Sem que os outros passageiros soubessem, Aurélio e Conegundes, portavam, cada um, um revólver calibre 38. Nas noites de breu absoluto, Aurélio fazia a segurança silenciosa de seus parceiros de acidenteposicionando-se estrategicamente na fuselagem do C-47, com o dedo próximo ao gatilho, guardando o sono dos colegas e a integridade do patrimônio público, isto antes mesmo de que qualquer auxíliobélico externo chegasse e que tivessemconhecimento que estavam em território indígena hostil. Enquanto os outros dormiam o sono da exaustão, Aurélio era os olhos e os ouvidos do grupo no breu da mata. Por puro instinto - mesmo inicialmente desconhecendo o fato de que estavam sendo “observados” - Aurélio era o último anteparo entre a paz precária do acampamento e a violênciaindígena histórica que fervilhava sob a copa das árvores.
Cercados Por Indígenas: Aurélio recorda que, assim que o manto da escuridão caía sobre o Rio Marmelo, a floresta ganhava vozes inquietantes. Ao redor da fuselagem do C-47, era possível ouvir estalos de galhos e uma profusão de grunhidos de animais e cantos de pássaros que pareciam não respeitar o ciclo biológico da natureza. Eram os indígenas que utilizando-se de um mimetismo perfeito, cercavam o acampamento imitando o som de macacos, aves noturnas e até predadores. Para os ouvidos destreinados, era apenas a selva viva; mas para quem estava em alerta, ficava claro que se tratava de uma comunicação indígena coordenada. O bancário Aurélio, que outrora fora militar de pontado Exército, um exímio atirador de elite, aqueles sons eram mensagens, marcações de território e, possivelmente, o prelúdio de um ataque que parecia iminente. Essa sinfonia de ameaças invisíveis mantinha o “bancário atirador” em um permanenteestado de vigília. A estratégia indígena de cercar o "intruso" com sons que vinham de todas as direções servia para minar a resistência mental do grupo. Era nesse cenário de suspense digno de um filme de terror que a mão de Aurélio permanecia firme no cabo do seu 38, sabendo que, naquelas sombras, olhos atentos acompanhavam cada movimento dos náufragos do ar.
Histórico da Região – “Massacre do Paralelo 11”:Pouco antes do acidente, em 1963, ocorreu o infame "Massacre do Paralelo 11", onde expedições de extermínio financiadas por empresários atacaram aldeias Cinta-Larga. Esse clima de guerra fazia com que qualquer estranho que caísse do céu fosse visto como uma ameaça imediata. Os Cinta-Larga eram conhecidos pela tática de guerra de emboscada, movendo-se silenciosamente pela mata, o que justificava o pavor dos sobreviventes ao ouvirem estalos na floresta durante a noite.
A Pacificação: O contato oficial e a chamada "pacificação" pela Funai (na época ainda sob o comando do SPI - Serviço de Proteção aos Índios) só ocorreria anos depois do desastre do C-47. Os Araras tiveram seu contato definitivo estabelecido por volta de 1970, enquanto os Cinta-larga foram contatados em missões lideradas pelo sertanista Apoena Meireles a partir de 1969. Foi um processo doloroso que dizimou parte da população indígena por doenças e conflitos.
Conflitos Indígenas: A região de Humaitá e do Rio Marmelo ainda guardava as cicatrizes de confrontos sangrentos. Pouco tempo antes do acidente, a população de Humaitá viveu momentos de verdadeiro cerco em conflitos com os indígenas da região. Esse histórico de "guerra declarada" entre os moradores locais e as etnias locais gerou um clima de animosidade mútua que durou décadas. Em episódios anteriores, expedições partiram de Humaitá para revidar ataques às margens do Rio Madeira, criando um ciclo de violência que tornava a selva um território hostil para qualquer civil. Por isso, quando a FAB lançou armas para os 34 sobreviventes, ela não estava apenas entregando ferramentas de caça, mas reconhecendo que aqueles homens e mulheres estavam, literalmente, em uma zona de guerra.
Como Vivem Hoje os Indígenas na Região:Atualmente, esses povos lutam pela preservação de suas terras demarcadas, como a Terra Indígena Roosevelt (Cinta-larga) e a Terra Indígena Rio Marmelo (Araras). Apesar de viverem em aldeias com acesso a tecnologias e educação bilíngue, ainda enfrentam a pressão constante do garimpo ilegal e do desmatamento.
5. DO "BANQUETE" IMPROVISADO ÀSOBREVIVÊNCIA NA SELVA
Whisky e Peixe: Um dos detalhes mais marcantes das recordações de Aurélio era a dieta do grupo. Um passageiro transportava um peixe grande, que se tornou a principal fonte de proteína. Sem fogão ou utensílios adequados, o grupo utilizou o que tinha à mão: o peixe foi cozido em uma mistura de água e whisky - a bebida servia tanto para esterilizar quanto para dar algum sabor e calorias extras aos sobreviventes. Aurélio relata ainda que tomavam café feito com água da chuva adoçado com bombons derretidos. Será que foi nessa época que a culinária descobriu que o whisky adicionado ao final do cozimento confere profundidade e sabor defumado à comida, harmonizando especialmente a carne de peixe e frutos do mar?
Pequenas Expedições - Coco e Larvas de Babaçu: O famoso Coco de Babaçu foi um alimento encontrado nas pequenas expedições comandadas por Aurélio. Ele sabia que a fruta é uma fonte promissora de nutrientes, com subprodutos apresentando teores variáveis de proteína, ideais para nutrição animal e potencial consumo humano.Aurélio levava o fruto para seus companheiros de acidente, enquanto se alimentava das Larvas de Babaçu, que representa a superação, a resistência e a capacidade de adaptação do guerreiro de selva ao ambiente amazônico. São necessárias apenas 30 gramas de tapurus para suprir mais de 30% das necessidades diárias de minerais.
Destaque Militar: Não foi sem motivo que o soldado Bringel se destacou na temida “Operação Boina Verde”, um exercício de campanha final da Instrução Individual Básica (IIB) do Exército Brasileiro. Durante uma semana, soldados realizam treinamentos intensos de combate, orientação, e técnicas militares, culminando na formatura de entrega da Boina Verde-Oliva. Naquela época, esse treinamento era de fato de sobrevivência na selva,onde militares se alimentavam de larvas de besouros. Infelizmente, informes dão conta que atualmente os militares levam em suas mochilas barras de proteína, jujubas, café com leite solúvel,biscoitos duros ou salgados, pão, geléias e, por vezes, vegetais enlatados, chocolate e sobremesas (como pudim de ameixa), purificadores de água, açúcar e até guardanapos.
6. O MARTÍRIO: MOSQUITOS E IMINENTE ATAQUE INDÍGENA
Os Ataques: Aurélio descrevia os ataques dos insetos como uma das partes mais cruéis da sobrevivência, onde até a sola dos pés era alvo das picadas. Pium e Carapanãs cobriam a pele dos passageiros, deixando marcas que durariam semanas. Diferente do mosquito comum, a picada do Pium é um corte minúsculo que deixa um ponto de sangue e evolui para uma coceira insuportável, causando edemas e inflamações severas. Como os sobreviventes não tinham repelentes ou roupas adequadas para selva, a pele de todos -especialmente nos braços, pernas e rosto - ficou coberta por centenas de crostas hemorrágicas. A exposição prolongada a essas picadas pode levar a reações alérgicas sistêmicas e febre, o que aumentava o risco de debilitação do grupo. O martírio era ininterrupto: o Pium castigava durante o dia, e o carapanã assumia o turno da noite.
Da Ausência de Repelentes Naturais: A força do militar que ressurgiu em Aurélio busca incessantemente uma solução para os ataques dos mosquitos, mas seus olhos atentos não encontrou os chamados “Repelentes Naturais” (Folhas de Citronela e Lavanda), muito utilizadas pelos guerreiros amazônidas.
Terror Psicológico: Pior do que a dor física era o terror psicológico da malária. Sem medicamentos adequados e cercados por mosquitos transmissores, o medo da doença pairava sobre o acampamento como uma sombra. Aurélio relatava que esse pânico constante agia como um veneno silencioso: o estresse extremo e o medo de contrair a forma letal da doença "baixavam a imunidade" do grupo, drenando lentamente as energias que restavam.
Estado de Alerta: Muitas vezes o estado de alerta permanente e a privação de sono chegavam a confundir o raciocínio, gerando episódios de desorientação e desesperança. Era preciso um esforço hercúleo de liderança e fé para manter a mente sã enquanto o corpo era castigado. Somado a isso, a tensão aumentou quando a FAB lançou armas por paraquedas e souberam que estavam em território dos povos Cinta-larga e Araras, pois o pavor de um ataque indígena era real.
Confronto que Parecia Inevitável: O que Aurélio Bringel e os demais sobreviventes vivenciavam nas margens do Rio Marmelo era uma contagem regressiva para um confronto que parecia inevitável. A presença indígena não era passiva; era um cerco estratégico. Durante as madrugadas, o silêncio da floresta era substituído por uma guerra psicológicarefinada: sons de grunhidos e pios de pássaros ecoavam de pontos diferentes ao redor da fuselagem, em uma comunicação coordenada que deixava claro que o grupo estava sendo "marcado" para um ataque. O pavor de um massacre iminente era alimentado pelo conhecimento de que os Cinta-larga e Araras eram guerreiros formidáveis, que utilizavam o elemento surpresa com perfeição. O bilhete e as armas lançados pela FAB foi o sinal definitivo de que o Estado Brasileiro não garantia a vida daquelas 34 pessoas por meios diplomáticos.
Orientações de Sobrevivência: O ataque era considerado tão iminente que Aurélio instruiu aos parceiros de sobrevivência a não se afastarem da clareira sob hipótese alguma. Aurélio, mantendo aexemplar disciplina, sabia que qualquer movimento em falso ou qualquer demonstração de fraqueza poderia desencadear uma chuva de flechas sobre o C-47. A "paz" no acampamento era, na verdade, um equilíbrio tenso e frágil, sustentado apenas pela presença ostensiva de armas e pela vigilância silenciosa de quem, como Aurélio, se recusava a fechar os olhos diante do perigo que espreitava nas sombras da mata.
7. O RESGATE E O RETORNO À CIVILIZAÇÃO
A Logística do Milagre: No 8º dia, a 23 de fevereiro, o som de motores de baixa cilindrada rompeu o silêncio da selva. Eram pequenas aeronaves de resgate da FAB e de voluntários, as únicas capazes de pousar e decolar na estreita e improvisada pista de areia branca. Devido à limitação de carga, a extração teve que ser feita em grupos reduzidos. As mulheres, crianças e feridos tiveram prioridade, enquanto os homens permaneciam no solo, mantendo o perímetro de segurança contra a ameaça indígena que ainda os cercava. Aurélio Bringel foi um dos últimos a ser extraído, garantindo que sua missão com os malotes fosse concluída. Ele não abandonaria o campo de batalha sem a garantia de que os malotes do Banco do Brasil estivessem seguros. Essa espera final, em um acampamento cada vez mais vazio e silencioso, foi talvez o momento de maior tensão psicológica. Quando finalmente embarcou, deixou para trás a carcaça do PP-BTU, que ali ficaria como um monumento de metal à sobrevivência.
O Impacto do Retorno: Ao chegar em Porto Velho e, dias depois, no reencontro com a família em Manaus, a imagem de Aurélio era o retrato vivo da provação. Ele havia perdido muito peso; as bochechas encovadas e os olhos verdes profundos contrastavam com a pele marcada por centenas de picadas de pium. A "febre da selva" e o cansaço extremo eram visíveis, mas a dignidade permanecia intacta.
Uma Lenda Familiar e Regional: O retorno não foi apenas um reencontro, mas o nascimento de uma lenda. O "Milagre do Rio Marmelo" transformou-se em uma narrativa de cabeceira para a Família Bringel. Mais do que uma vitória da engenhariaaeronáutica e destreza do Comandante Oliveira, o episódio foi um triunfo do espírito humano. A solidariedade entre estranhos, a coragem silenciosa de um homem armado com um 38 e a fé inabalável em meio ao "Inferno Verde" consolidaram uma história de superação que, 62 anos depois, ainda ecoa com a mesma força e emoção.
8. AURÉLIO: UM LEGADO DE LONGEVIDADE E HONRA
Família Bringel e os bancos: Aurélio faz parte de uma família que parece ter o sistema financeiro no DNA. Além de sua carreira, a família Bringel gerou vários bancários: Maury e Mauro (Banco do Brasil) e Mário Jorge, meu sogro, que fez história no Basachegando a ocupar a Diretoria daquele banco. Na época, os amigos mais próximos não perdiam a oportunidade de brincar com o patriarca da família: diziam que o Sr. João Bringel devia tanto aos bancos que teve que "pagar as dívidas" entregando os próprios filhos para trabalharem neles.
Trajetória Brilhante: Após o resgate no 8º dia, Aurélio Bringel seguiu uma trajetória brilhante,consolidando uma carreira de integridade que já se manifestava naquele fevereiro de 1964. Neste mês de fevereiro de 2026 aquele acidente completa 62 anos. Aurélio aposentou-se pelo Banco Central eatualmente, aos 86 anos vive a serenidade de sua aposentadoria na histórica Pirenópolis (GO), sendo um dos poucos remanescentes a carregar na memória - e no espírito - os detalhes daquele milagre. Sua história não é apenas sobre um acidente aéreo; é sobre a disciplina, a fé e a força de um homem que enfrentou o coração da Amazônia e saiu de lá para construir uma vida longa e exemplar, sendo um símbolo vivo de uma geração que transformou o dever e a resiliência em um estilo de vida.
Uma Força da Natureza: A longevidade de Aurélio Bringel não é por acaso. Sempre apaixonado por esportes, ele foi um ávido jogador de futebol ebasquete, sendo esta última modalidade praticadacom vigor até seus 80 anos, interrompendo as quadras apenas devido a pandemia da Covid19 e depois uma limitação nos joelhos. Foi justamente nessa época, durante exames de rotina para cuidar das articulações, que Aurélio descobriu uma característica fascinante de sua fisiologia: ele nasceu com apenas um rim. O detalhe impressionante é que esse órgão único funcionou silenciosa e perfeitamente durante toda a sua vida, incluindo os oito dias de privação extrema na selva amazônica em 1964, resistindo a caldeirada de peixe no whisky e continua em pleno funcionamento até hoje.
8. A PROVIDÊNCIA DIVINA: A MÃO INVISÍVEL NO “INFERNO VERDE”
O Milagre: Para o olhar desatento, o "Milagre do Rio Marmelo" pode parecer uma sucessão de golpes de sorte, mas para quem professa a fé, é impossível não enxergar a assinatura da Providência Divina em cada etapa dessa saga. Como nos ensina o texto sagrado: “O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos”(Provérbios 16:9).
O Embarque: A começar pelo inesperado problema técnico no avião da Panair, que forçou Aurélio e seu colega a buscarem as últimas vagas no C-47 da Paraense. O que parecia um contratempo era, na verdade, o agir de Deus, colocando todos aqueles passageiros no local exato onde cada um seria necessário para a sobrevivência do grupo.
A Mão sobre o Manche: No momento do pouso, quando o combustível se esgotava e a tempestade cegava a tripulação, a perícia do Comandante Oliveira foi o instrumento de Deus. A precisão do pouso de barriga ecoa a promessa de Salmos 91:11: “Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos”. Não tenho dúvidas, foi Deus quem preparou a clareira de areia branca como um refúgio seguro em meio ao emaranhado de árvores.
O Sustento na Escassez: A alimentação improvisada de peixe com whisky e larvas de babaçu remete à providência de Elias no deserto. Mesmo no isolamento, o Criador providenciou o sustento. E, naquelas noites de cerco indígena, a sentinela de Aurélio era o símbolo do zelo divino: “Eis que não tosquenejará nem dormirá o guarda de Israel” (Salmos 121:4).
O Mistério do Rim Único: Por fim, a revelação de que Aurélio sobreviveu a tudo isso com apenas um rim é a prova máxima do Design Divino e da soberania do Criador sobre o corpo humano. Como diz o salmista: “Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias” (Salmos 139:16). A Providência não apenas o resgatou da selva; ela o planejou para a resiliência desde o ventre materno, garantindo que a honra e o dever fossem cumpridos até o fim.
A Vigília e o Escudo da Fé: Além do sustento físico, a Providência Divina operou no campo da mente. Em situações de catástrofe, o desânimo e a desorientação são brechas para o espírito de desespero. Mas, mesmo nesta situação, não se viu narrativas de pânico ou traumas posteriores. A Providência manifestou-se na lucidez de Aurélio; enquanto o corpo pedia descanso, o Criador lhe concedia o espírito de fortaleza.
Deus É Deus: A experiência de Aurélio Bringel naqueles oito dias ecoa os versos da canção "Deus é Deus", que nos lembra que a divindade do Criador não depende das circunstâncias. Na clareira de areia branca, cercados por perigos, eles aprenderam que "Se Deus fizer, Ele é Deus / Se não fizer, Ele é Deus / Se a porta abrir, Ele é Deus / Mas se fechar, continua sendo Deus". Mesmo quando a porta da civilização parecia ter se fechado e o rádio do aviãosilenciado, o Senhor continuava sendo o Guarda de Israel sobre aquela fuselagem.
9. CONCLUSÃO: O QUE A SELVA NÃO PODE APAGAR
O "Milagre do Rio Marmelo" transcende o status de mero verbete na história da aviação amazônica; ele é o retrato vívido de uma era onde as palavras "dever" e "espírito de corpo" pesavam mais que a própria vida. Ao revisitarmos a saga de Aurélio Bringel, compreendemos que sua sobrevivência naquele "inferno verde" não foi fruto do acaso, masProvidência Divina que foi indispensável para construir sua integridade e disciplina, as quais ele carregou em sua trajetória no Banco Central e se baseia até hoje.
A revelação tardia de sua condição fisiológica - o rim único que sustentou um atirador de elite em vigília, um náufrago nas matas alimentado por larvas de babaçu, um atleta de basquete vigoroso - serve como a metáfora definitiva de sua existência. Aurélio é uma força silenciosa e inabalável; alguém que não precisa de alarde para cumprir as missões mais hercúleas, seja protegendo o patrimônio público sob a mira de um 38 no breu da mata, seja enfrentando as limitações da idade sempre com um sorriso no rosto.
Que o exemplo do tio Aurélio Bringel - o homem que enfrentou a selva, a fome e o perigo iminente com a serenidade de quem cumpre o seu papel - continue a inspirar as futuras gerações. A verdadeira bravura não está no barulho do combate, mas na constância da vigília, na imutabilidade da honra e na fé verdadeira em quem pode mudar qualquer situação adversa. Histórias como a dele nos lembram que, nos momentos de maior escuridão e isolamento, a técnica, o cuidado com o próximo e a indispensávelconfiança no Criador, são as únicas bússolas capazes de nos guiar para casa.
Que saibamos, diante das nossas próprias "tempestades", manter a vigília intacta e a honra, tendo a fé como nosso bem mais precioso. Que acima de tudo, nossa fé em Deus seja inabalável, pois é essa esperança na Providência Divina que nos sustenta quando a ciência e a lógica humana se esgotam. Foi o braço estendido do Todo-Poderoso que guiou a mão do piloto, manteve a sentinela atenta e preservou o fôlego de todos os sobreviventes, provando que nem mesmo o coração da selva mais densa está fora do alcance do olhar do Criador.
NOTAS:
1. PTA (Paraense Transportes Aéreos): Empresa aérea brasileira fundada em 1952. O apelido "Pobre Também Avoa" faziam parte do folclore da aviação regional na década de 60, refletindo a estratégia de baixo custo da companhia representada pelo slogan:"Uma Feliz Viagem Pela Metade do Preço".
2. Aerovia Verde 7: Designação técnica da rota aérea que conectava Manaus a Porto Velho na época, servindo como uma verdadeira "linha de vida" para o escoamento de valores e passageiros na Amazônia Ocidental.
3. Mimetismo Indígena: Técnica de sobrevivência e vigilância utilizada por diversas etnias amazônicas, que consiste na imitação perfeita de sons da fauna (grunhidos, pios e assobios) para comunicação estratégica e intimidação de invasores sem revelar a posição exata do grupo.
4. Rim Único (Agenesia Renal): Condição fisiológica rara onde o indivíduo nasce com apenas um rim. No caso narrado, a descoberta tardia ressalta a extraordinária resiliência biológica do biografado frente às privações da selva e à sua intensa vida atlética.
5. Operação Boina Verde: Exercício de campanha final da Instrução Individual Básica (IIB) do Exército Brasileiro, que testa os limites físicos e mentais do soldado em ambiente de selva.
6. Liberdade Poética: A presente narrativa, embora fundamentada em fatos históricos e relatos orais fidedignos, contém traços de liberdade poética e contornos literários. Tais recursos foram utilizados pelo autor para reconstruir a atmosfera dramática, os diálogos e as nuances sensoriais experimentadas pelos sobreviventes no isolamento na selva daquele "Inferno Verde" de 1964.
7. Nota de Direitos Autorais: O presente artigo, bem como a estruturação narrativa, os detalhes biográficos inéditos e a compilação histórica aqui apresentados, encontram-se protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/98). É estritamente proibida a reprodução total ou parcial, sem referenciar Silvio da Costa Bringel Batista como autor, bem como a adaptação para outros meios de comunicação ou uso em roteiros sem a prévia e expressa autorização do mesmo.
8. Finalidade: Preservação da memória amazônica e registro do interesse da indústria cinematográfica sobre a saga de Aurélio Bringel.
9. Projetos Futuros: Informa-se que a saga narrada neste artigo certamente despertará o interesse da indústria cinematográfica para a transposição desta história para as telas. Os direitos sobre a narrativa biográfica de Aurélio Bringel contida neste texto estão devidamente resguardados para fins de adaptação audiovisual e não poderá ser utilizadasem a prévia autorização do mesmo.
(*) O autor é Cristão Evangélico, Doutorando em Teologia pelo Instituto Logos, Consagrado ao Ofício Diaconal pela Igreja Batista em Dom Pedro, Formado em Direito pela UFAM, Pós-Graduado em Direito Civil e Processo Civil, Procurador da Câmara Municipal de Manaus, Advogado, Presidente da Comissão da Advocacia Pública e Membro Titular da Comissão de Apoio Institucional à Gestão Pública da OAB/AM, Corretor de Imóveis, CAC, Antigomobilista, Apresentador do Podcast “Lei é Lei”, ex-Juiz Classista da Justiça do Trabalho, ex-Procurador-Geral da CMM, ex-Diretor-Geral da CMM, ex-Chefe da Consultoria Técnico-Legislativa e ex-Subsecretário Chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Amazonas.
ASSUNTOS: Silvio da Costa Bringel Batista