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A ideologia woke e o ataque direto aos pilares da fé cristã


Por Silvio da Costa Bringel Batista

26/11/2025 15h10 — em
Silvio da Costa Bringel Batista



A Igreja Cristã sempre navegou em tensões culturais, mas o surgimento da chamada “ideologia woke” - um movimento focado na justiça social e na consciência da opressão sistêmica - representa um desafio de natureza fundamentalmente diferente. Longe de ser apenas um apelo à compaixão (um valor inegavelmente bíblico), a corrente “woke” introduziu lentes conceituais (como a Teoria Crítica de Raça e a Teologia Queer) que confrontam diretamente a Antropologia Bíblica, a Autoridade das Escrituras e a própria Natureza do Evangelho.

O termo “Woke” vem do inglês e significa "acordado" ou "desperto", refere-se, em seu conceito político, à percepção e consciência das questões relativas à justiça social e racial.
O termo deriva da expressão afro-americana do inglês vernáculo "stay woke" (mantenha-se acordado/desperto) e historicamente se relacionava à conscientização sobre as injustiças enfrentadas pela comunidade negra nos Estados Unidos.

No uso moderno (especialmente a partir do movimento Black Lives Matter em 2014), "Woke" foi adotado como uma gíria mais genérica, frequentemente associada a “Justiça Social” com a ideia de reconhecer e lutar contra desigualdades históricas e sistêmicas (como racismo, machismo, homofobia e desigualdade social); “Políticas Identitárias” com foco nas experiências e direitos de grupos marginalizados, incluindo causas progressistas como o feminismo interseccional, direitos LGBTQIA+, e ainda questionamento de normas, com desafios à paradigmas e estruturas sociais consideradas opressoras.

Pois bem, este artigo se propõe a analisar o núcleo dessa disputa entre a Ideologia Woke e os Pilares da Fé Cristã.

Argumentamos que, ao redefinir conceitos como pecado, justiça e identidade através do paradigma secular "opressor versus oprimido", a “ideologia woke” não apenas influencia, mas subverte os pilares teológicos do Cristianismo histórico. Veremos como essa visão de mundo concorrente ameaça a unidade da igreja e desvia o foco do arrependimento individual para o ativismo estrutural, questionando a suficiência da Palavra de Deus como fonte inerrante de verdade eterna.

1. A Lente do Poder: O Conflito com a Teoria Crítica de Raça (TCR)

A “Teoria Crítica de Raça” é o motor propulsor da “ideologia woke”, a qual entrou em ambientes cristãos, conflitando e visando redefinir a visão bíblica fundamental do pecado e da verdadeira identidade da pessoa humana, em total afronta a Antropologia Bíblica.

Existe total conexão entre a “Teoria Crítica de Raça” (TCR) e a “Teologia Queer” (TQ) sob o guarda-chuva maior da “Teoria Crítica” que é o ponto chave para entender como a "Ideologia Woke" opera de maneira coesa. TCR e a TQ são manifestações diferentes do mesmo motor teórico. Ambas substituem a Bíblia como a principal lente para diagnosticar o problema humano, trocando o pecado espiritual individual pelo pecado social estrutural, garantindo que o desafio à doutrina cristã seja ideologicamente coerente e unificado.

A. Subversão da Antropologia Bíblica

Segundo a Bíblia, o problema fundamental de cada indivíduo é o pecado, uma condição universal, mas, como um verdadeiro ataque, a TCR rejeita essa unidade universal do pecado e, em vez disso, categoriza os indivíduos primariamente com base em sua raça ou privilégio, dividindo a humanidade em grupos de “opressores” e “oprimidos”, sendo o "pecado" principal a opressão sistêmica.

A subversão consiste em identificar uma estrutura considerada dominante (por exemplo, a heteronormatividade bíblica ou o privilégio branco) e a denunciá-la como raiz do pecado social e da injustiça e, ao usar esse paradigma unificado (opressor vs. oprimido), o "ataque" à fé cristã se torna coeso porque ataca o mesmo pilar teológico: a Antropologia Bíblica e o Conceito de Pecado.

Ao fazer isso, a TCR distorce a doutrina do pecado, pois o Evangelho afirma que "todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Romanos 3:23). Além disso, ela mina a unidade reconciliadora, pois a Bíblia ensina que em Cristo "não há mais distinção entre grego e judeu, [...] mas Cristo é tudo e está em todos" (Colossenses 3:11).

B. Desafiando a Autoridade das Escrituras (Sola Scriptura)

Ao aplicar sua lente de poder, a TCR ataca a Palavra de Deus rejeitando a interpretação bíblica tradicional, rotulando-a como uma forma de tentativa de manter privilégios.

A verdade, no entanto, é determinada pela Palavra de Deus, não pela identidade de quem fala. O princípio da Sola Scriptura nos lembra que "Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, a fim de que o homem de Deus seja completo e perfeitamente habilitado para toda boa obra" (2 Timóteo 3:16-17). A Bíblia é, portanto, suficiente, e não necessita de teorias sociais mundanas para ser validada ou compreendida.

2. A Desconstrução do Criador: O Risco da Teologia Queer

A “Teologia Queer” é um campo da teologia cristã que surgiu a partir da “Teoria Queer” e dos movimentos de libertação (como a Teologia da Libertação e a Teologia Feminista), desafiando a ética bíblica sobre a criação, a sexualidade e o corpo, minando a Imago Dei.

Seu conceito central é desafiar, desconstruir e reinterpretar as doutrinas, narrativas e práticas religiosas (especialmente cristãs) que são fundamentalmente baseadas na heteronormatividade e no patriarcado.

A TQ busca "queerizar" a teologia, desestabilizando as normas binárias, questionando a rigidez das categorias tradicionais de gênero (homem/mulher) e sexualidade (heterossexualidade como única norma aceitável), argumentando que essas categorias foram impostas e sacralizadas pela religião para oprimir e excluir.

A prática “queerizante” busca fazer uma releitura bíblica, utilizando a hermenêutica queer (método de interpretação) para reler textos bíblicos, utilizando narrativas e personagens que desafiam as normas (pessoas que "não se encaixam").

A “Teologia Queer” enfatiza o amor, a inclusão e a justiça de Deus, mas esquece que esse mesmo Deus também e Santo e abomina o pecado. A “TC” atua como um movimento que torna a teologia "indecente" (no sentido de Marcella Althaus-Reid), rompendo com os pudores e códigos hegemônicos, e exigindo a libertação de todas as formas de opressão sexual, de gênero e social, para realizar uma “verdadeira” Teologia da Libertação para o século XXI. 

Como exemplo da sua atuação, a “Teologia Queer”, ao analisar o texto de Gênesis 2:18, diz que Deus não criou "macho" ou "fêmea" (e sim uma criatura andrógina ou não-binária), argumentando que a ênfase não está em criar um ser com órgãos sexuais complementares (a "mulher" como produto), mas sim em criar um "companheiro apropriado" (ou um "Outro") para a criatura original.  

A. O Ataque à Criação e ao Casamento

A narrativa bíblica estabelece o casamento como a união heterossexual entre um homem e uma mulher (Gênesis 2:24), mas o ataque promovido pela “Teologia Queer” busca desmantelar a "ficção heteronormativa", questionando e rejeitando as categorias binárias de gênero e sexo. Ela promove a ideia de um corpo fluído e auto-definido em contraste com a ordem divinamente estabelecida pelo Criador, mas o texto bíblico, o Manual do Criador é bem claro: "Criou, pois, Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou." (Gênesis 1:27).

B. Redefinindo Deus e a Santidade

A ética bíblica do corpo é intrinsecamente ligada à santidade, mas o ataque gerado e fomentado pela “Teologia Queer” propõem um "Deus Queer" e uma "Teologia Sexual Indecente" que valoriza o corpo e os desejos sexuais em sua totalidade, contrariando a moralidade bíblica.

A Palavra de Deus exige: "Fugi da imoralidade sexual. [...] Ou vocês não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo, [...] Portanto, glorifiquem a Deus no corpo de vocês" (1 Coríntios 6:18-20). Além disso, a Bíblia é clara ao afirmar: "Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros" (Hebreus 13:4). A “ideologia woke” busca, portanto, transformar o Cristianismo em uma ferramenta de validação, ignorando o chamado à pureza moral.

3. O Caminho do Mestre: Inclusão Transformadora, Não Acomodação Estática.

A “ideologia woke” pressiona a igreja pela inclusão baseada na validação, mas o Evangelho oferece um modelo superior: o de inclusão que leva à transformação.

A. A Missão do Médico Divino

A igreja deve ser radicalmente inclusiva, pois Jesus buscou os marginalizados na sua época. No entanto, o propósito de sua associação espiritual era a cura da alma, através de uma verdadeira e salutar inclusão curativa e transformadora.

Ao ser criticado por comer com pecadores, Jesus declarou: "Não são os sãos que precisam de médico, mas sim os doentes" (Mateus 9:12).

O convite de Cristo é estendido a todos os que reconhecem sua doença espiritual - o pecado. A igreja deve ser um hospital para pecadores, um lugar de refúgio para aqueles que se reconhecem doentes, mas jamais um albergue do pecado, pois o acolhimento cristão não pode se tornar em complacência pecaminosa ou de antinomianismo (João Agrícola 1494-1566), onde a graça de Deus anularia necessidade da obediência à lei moral dEle.

Não se pode permitir que cada um defina o que é "saudável" ou "doente". O hospital (a igreja) deve operar sob o diagnóstico de Deus (a Bíblia), a qual define o que constitui saúde moral e espiritual.

Se a igreja fosse um albergue de pecados, significaria que o cristão encontraria conforto e acomodação pecaminosa, sem o incentivo à mudança. O cristianismo, contudo, ensina que o perdão (a graça) é dado para capacitar o fiel a deixar o estilo de vida anterior, não para legitimá-lo (Romanos 6:1-4).

Manter a linha de “não albergue do pecado" é manter a fidelidade àquilo que a Bíblia define como pecado (ofensa a santidade de Deus), mesmo que seja impopular ou vá contra tendências culturais, não foi atua que os heróis da fé foram truculentamente mortos. O "Capítulo da Fé" de Hebreus 11, faz uma pausa na lista de vitórias (como fechar a boca de leões e escapar da espada), para listar os tormentos cruéis que outros heróis bíblicos suportaram pela mesma fé, “homens dos quais o mundo não era digno, errantes pelos desertos, montes, pelas covas e cavernas da terra." 

B. A Exigência da Transformação

A inclusão de Jesus nunca foi uma validação estática do status quo; ela sempre foi um convite para o arrependimento e a mudança radical de vida (a cura).
A diferença crucial entre o verdadeiro evangelho bíblico e o “modismo eclesiástico” da “ideologia woke” é que, enquanto esta exige uma inclusão de validação, o Evangelho de Cristo exige uma inclusão transformadora. Jesus não disse apenas à mulher adúltera "Vá", mas sim: "Ide, e não peques mais" (João 8:11). A finalidade do verdadeiro evangelho de Cristo é o chamado ao arrependimento: "Eu não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento" (Lucas 5:32).

Todos que se chegaram ao Mestre do Amor foram transformados. A inclusão é o ponto de partida para a santificação, não o ponto final.

A intersecção entre a “ideologia woke” e a fé cristã é uma total incompatibilidade teológica, pois a TCR mina a unidade que temos em Cristo e a “Teologia Queer” ataca a ética da criação.
O maior perigo reside na substituição de um Evangelho da Salvação (que trata do pecado universal) por um “Evangelho da Justiça Social Terrena” (que trata primariamente da opressão estrutural). A igreja tem o dever bíblico de lutar pela justiça, mas não pode permitir que teorias de poder mundanos ditem sua doutrina.

Em um tempo de fluidez cultural e de redefinição de verdades morais, a tarefa da igreja é clara: reafirmar a autoridade da Sola Scriptura e manter a Antropologia Bíblica que vê toda a humanidade como pecadora em necessidade de redenção e transformação. 

Toda pessoa, individualmente, necessita de um encontro real com O Salvador. Todos, absolutamente todos, individualmente, precisam passam por um processo de salvação, pois sem justificação, regeneração e santificação, ninguém, absolutamente ninguém, pode herdar o Reino do Céus. 

A verdadeira justiça social (bíblica) para o cristão, começa em um coração arrependido e se irradia para o mundo em boas ações, firmada na Rocha da Palavra de Deus e não nos ventos passageiros da “ideologia woke” ou em qualquer outro modismo ideológico (Efésios 4:14-15)


(*) O autor é Cristão Evangélico, Doutorando em Teologia pelo Instituto Logos, Consagrado ao Ofício Diaconal pela Igreja Batista em Dom Pedro, Formado em Direito pela UFAM, Pós-Graduado em Direito Civil e Processo Civil, Procurador da Câmara Municipal de Manaus, Advogado, Presidente da Comissão da Advocacia Pública e Membro Titular da Comissão de Apoio Institucional à Gestão Pública da OAB/AM, Corretor de Imóveis, CAC, Antigomobilista, Apresentador do Podcast “Lei é Lei”, ex-Juiz Classista da Justiça do Trabalho, ex-Procurador-Geral da CMM, ex-Diretor-Geral da CMM, ex-Chefe da Consultoria Técnico-Legislativa e ex-Subsecretário Chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Amazonas.

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