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O Natal além das luzes


Por Silvio da Costa Bringel Batista

24/12/2025 11h19 — em
Silvio da Costa Bringel Batista



Por Silvio da Costa Bringel Batista*

O NATAL ALÉM DAS LUZES: A JORNADA DO VERBO DA MANJEDOURA AO TRONO ETERNO 

UM CONVITE AO VERDADEIRO NATAL 

O Natal é muito mais do que o cenário de luzes e celebrações que vemos nas vitrines. É o evento mais singular da história: o momento em que o Infinito se fez finito. Neste artigo, convido você a percorrer comigo a Jornada do Verbo: desde o primeiro choro na manjedoura até o trono de glória onde Ele reina hoje e reinará eternamente. O nascimento de Jesus foi o início de uma missão de resgate que rasgou o véu, nos deu livre acesso ao Pai e nos garantiu a promessa de um Reino que não terá fim.

NO FINAL DO ANO

O final de ano costuma ser envolto em um espetáculo de luzes, cores e celebrações que, embora belas, muitas vezes funcionam como uma cortina de fumaça. Se não estivermos atentos, corremos o risco de celebrar o cenário e esquecer o Protagonista. Para resgatar o valor desta data singular na história da humanidade, precisamos retornar ao conceito central da fé cristã: a Encarnação de Deus.

JESUS COMO O VERBO: A TEOLOGIA DO LOGOS

A identificação de Jesus como "o Verbo" (ou a Palavra) encontra sua fundamentação principal no prólogo do Evangelho de João. Esta designação não é meramente um título, mas uma declaração profunda sobre a natureza e a missão de Jesus Cristo.

O texto bíblico inicia com a afirmação: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus". Aqui, o termo grego utilizado é Logos. Para os leitores da época, isso trazia dois significados poderosos: remetia à "Palavra de Deus" (Dabar), o agente da criação no Gênesis, e à razão universal que ordena o cosmos. Ao usar esse termo, João estabelece que Jesus preexiste à criação e compartilha da mesma essência divina que o Pai. A Bíblia afirma que "todas as coisas foram feitas por intermédio dEle" (João 1:3). Em suma, chamar Jesus de "Verbo" é reconhecer que Ele é a expressão exata do ser de Deus (Hebreus 1:3).

O JÚBILO DAS CORTES CELESTIAIS: O CÉU SABIA

No nascimento de Jesus, enquanto o mundo “repousava em berço esplêndido” numa quietude indiferente, o cenário celestial vivia uma agitação sem precedentes. Os seres angelicais sabiam exatamente o fato cósmico que estava acontecendo. Não foi por acaso que uma multidão das hostes celestiais rompeu o silêncio da noite nos campos de Belém (Lucas 2:13-14). Eles testemunhavam a possibilidade real do resgate da humanidade e da criação e, paradoxalmente, para que isso fosse possível, O Soberano do Universo tornando-se dependente de cuidados humanos. Havia alegria no céu porque os anjos sabiam que aquele nascimento era o início da execução do plano de redenção.

O RECONHECIMENTO DAS NAÇÕES: A ADORAÇÃO DOS MAGOS

A celebração do Natal também atraiu aqueles que buscavam a verdade além de suas fronteiras. A visita dos Magos do Oriente revela que o nascimento de Jesus foi um fato de relevância cósmica. Ao oferecerem presentes, faziam uma declaração profética sobre a identidade do Menino:

• Ouro: Reconheciam-nO como Rei.
• Incenso: Reconheciam-nO como Deus.
• Mirra: Reconheciam-nO como o Sacrifício vicário.

O CRIADOR QUE SE FEZ CRIATURA

A magnitude do Natal reside em um paradoxo que desafia a lógica humana. O Deus que é infinito decidiu, por amor, assumir a finitude humana por algum tempo (Filipenses 2:7). Jesus não nasceu apenas para ser um "exemplo moral", mas para ser a ponte definitiva entre a humanidade e o Pai. Como afirma a Escritura: "há um só mediador entre Deus e os homens: Cristo Jesus" (1 Timóteo 2:5). Ao se tornar "carne", o Verbo traduziu o infinito para a linguagem humana, permitindo que a glória de Deus fosse contemplada de forma tangível.

A MISSÃO: RESGATE E JUSTIFICAÇÃO

A vinda de Jesus Cristo foi um ato planejado de resgate da humanidade e da própria terra acometida pelo pecado. O apóstolo Paulo descreve essa verdade quando afirma que: "[...] Deus nos escolheu nEle antes da criação do mundo [...] em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo" (Efésios 1:4-5). Esse plano eterno, estabelecido "antes da fundação do mundo" (1 Pe 1:20), não visava apenas a salvação individual, mas a reconciliação de "todas as coisas" com o Criador (Cl 1:20), incluindo a própria criação que hoje "geme" aguardando a sua libertação (Rm8:21-22).

O VÉU RASGADO: O LIVRE ACESSO RESTAURADO

O ápice do sacrifício de Jesus Cristo no Calvário foi acompanhado por um evento físico de profunda carga teológica: o rompimento do véu do Templo de Jerusalém. Aquela cortina espessa simbolizava a barreira intransponível entre a santidade de Deus e a pecaminosidade humana.

Entretanto, no exato momento em que Jesus Cristo expirou e entregou seu Espírito ao Pai: o véu do Templo foi rasgado “de alto a baixo” (Mateus 27:51). O fato de o véu ter sido rasgado "de alto a baixo" revela que a iniciativa foi exclusivamente divina. Diferente dos prazos judiciais fatais e das sanções humanas que não admitem erro, o rasgar do véu estabelece um tempo de Graça, onde a "multa" da dívida espiritual foi definitivamente anistiada pelo sacrifício na cruz. O Natal começou com Deus vindo até nós, e o sacrifício de Jesus terminou abrindo o caminho para que pudéssemos ir até Ele.

A PROMESSA DO RETORNO: DO PRESÉPIO AO TRONO DE GLÓRIA

A história que começou em Belém aguarda o seu capítulo final. AquEle que veio em humildade voltará em majestade. Jesus retornará para buscar a Sua Igreja. Ele mesmo prometeu: "Virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde Eu estiver estejais vós também" (João 14:1-3). Mas também virá para exercer o juízo final sobre as nações. O Natal lançou a semente da redenção; a Segunda Vinda trará a colheita definitiva.

JESUS CRISTO: O JUIZ DAS NAÇÕES

A Bíblia apresenta Jesus também como o Justo Juiz a quem o Pai confiou todo o julgamento (João 5:22). Este exercício do juízo apresenta um paralelo direto com o princípio administrativo da prestação de contas (accountability). No cenário bíblico, o retorno do Messias é um ato de transparência e responsabilidade final.

Na justiça humana, as pessoas respondem perante a Lei e os órgãos de controle, mas na Justiça divina, a humanidade e suas nações respondem perante o Justo Juiz, que possui a jurisdição final e irrecorrível. Diferente dos tribunais humanos, que podem ser limitados pela falta de provas, interpretações ambíguas e/ou corrupção da toga, o Juízo de Cristo é pautado pela fidelidade e verdade (Salmos 96:13).

A REJEIÇÃO DO RESGATE: A REALIDADE DA CONDENAÇÃO ETERNA

Se o Natal é a oferta de um indulto imerecido, a Bíblia é clara ao afirmar que a recusa desse benefício acarreta consequências eternas. O plano de salvação não é uma imposição, mas um convite; e a justiça divina respeita a autonomia da vontade humana. Aqueles que optam por não aceitar o sacrifício de Jesus como único meio de salvação,escolhem, por definição, enfrentar o tribunal de Deus sem um Mediador.

A condenação eterna não é um ato de crueldade, mas o resultado jurídico da persistência no pecado e na incredulidade. O apóstolo João explica que a condenação reside no fato de que a Luz (Jesus) veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas (João 3:19). Ao rejeitar o Substituto (Jesus), o indivíduo assume para si a responsabilidade integral por seus atos, sem o benefício da "justificação". O critério de exclusão é a ausência do nome no registro da graça: "E todo aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo"(Apocalipse 20:15).

Diferente das instâncias humanas, onde sempre cabe recurso, revisão e até anulação, a sentença pós-juízo final é imutável. No Tribunal Divino não há "vício de forma" e/ou "instância superior", para se valer após o trânsito em julgado eterno. Jesus descreve este destino como um estado de "suplício eterno" em contraste com a "vida eterna" dos justificados em Cristo Jesus (Mateus 25:46).

O REINO SEM FIM: NOVO CÉU E NOVA TERRA

A culminância de todo o plano de Deus é a habitação eterna em um Novo Céu e uma Nova Terra (Apocalipse 21:1-3). O Rei Jesus reinará em majestade absoluta sobre toda a criação restaurada (Apocalipse 11:15). Neste Reino restaurado, a maior recompensa da Igreja será a presença manifesta do Rei. A promessa de Apocalipse 22:4 se cumprirá: a Igreja viverá em comunhão plena e face a face com Ele por todos os séculos dos séculos.

CONCLUSÃO: O NATAL E A ECONOMIA DA GRAÇA

Viver o Natal ignorando a realidade da cruz, da ascensão e do retorno glorioso de Jesus Cristo significa ser enganado pelo simbolismo que o comércio impõe. A essência desta data não está no que compramos, mas no que recebemos imerecidamente. Enquanto o mundo se perde no imediatismo do consumo, o Natal nos convida a contemplar o mais sofisticado e amoroso plano de resgate já executado.

Jesus atua como o substituto perfeito. Ele cumpre a justiça que nós falhamos em cumprir e paga a penalidade que nós não poderíamos suportar. O Natal nos ensina que, diante de Deus, não somos clientes, mas beneficiários de uma herança conquistada por Jesus. Celebrar o Natal é celebrar o amor que desceu até nós quando não podíamos subir até Ele, transformando o "imerecido" em nossa mais preciosa realidade, justificados gratuitamente.

Que a presença do Emanuel - o Deus conosco -preencha de fato e de verdade seu coração, e que você possa - assim como eu e minha família -celebrar não apenas o nascimento de um bebê em Belém, mas a vitória do Rei Eterno que concede vida eterna a todos que o aceitam.

 

(*) O autor é Cristão Evangélico, Doutorando em Teologia pelo Instituto Logos, Consagrado ao Ofício Diaconal pela Igreja Batista em Dom Pedro, Formado em Direito pela UFAM, Pós-Graduado em Direito Civil e Processo Civil, Procurador da Câmara Municipal de Manaus, Advogado, Presidente da Comissão da Advocacia Pública e Membro Titular da Comissão de Apoio Institucional à Gestão Pública da OAB/AM, Corretor de Imóveis, CAC, Antigomobilista, Apresentador do Podcast “Lei é Lei”, ex-Juiz Classista da Justiça do Trabalho, ex-Procurador-Geral da CMM, ex-Diretor-Geral da CMM, ex-Chefe da Consultoria Técnico-Legislativa e ex-Subsecretário Chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Amazonas. 

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