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Silvio da Costa Bringel Batista

"Estátua de gelo” e a “vice de ouro"

Silvio da Costa Bringel Batista
Por Silvio da Costa Bringel Batista
27/02/2026 às 17h49 — em Silvio da Costa Bringel Batista
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Como a representatividade feminina e a autonomia de Tadeu Souza podem definem o xeque-mate de 2026.

I. PROLEGÔMENOS: O Tabuleiro de 2026 e o Elo Perdido

O tabuleiro político do Amazonas, sempre agitado por manobras de bastidores e alianças de conveniência, acaba de entrar em uma nova fase de ebulição. Se o "Efeito Granada" disparado por David Almeida rompeu pontes e forçou o realinhamento dos grandes caciques, um novo componente estratégico começa a ganhar contornos decisivos: o papel da mulher na sucessão estadual. Diante das incertezas que cercam a viabilidade da Professora Maria do Carmo (PL) como cabeça de chapa, o cenário aponta para um fenômeno inevitável: a corrida pela "Vice de Ouro".

Historicamente, o Executivo amazonense tem sido um território de hegemonia masculina quase absoluta. Enquanto o eleitorado feminino cresce em consciência e peso decisório, as estruturas de poder parecem estagnadas em um modelo que relega a mulher a papéis secundários ou meramente figurativos. Contudo, em 2026, o pragmatismo eleitoral dita uma regra diferente. Com a possibilidade de o PL recuar de uma candidatura própria majoritária, abre-se um vácuo de representatividade que nenhum pré-candidato — seja ele David Almeida, Omar Aziz ou os novos nomes que orbitam o Palácio da Compensa — pode se dar ao luxo de ignorar.

Vivemos um paradoxo: as mulheres são a maioria do eleitorado, mas o governo é, tradicionalmente, um "clube do Bolinha". No xadrez que se desenha, sairá na frente aquele que primeiro compreender que o Amazonas não aceita mais um governo de "corpo único". A indicação de uma mulher para a pré-candidatura de vice não será apenas um gesto de cortesia política ou cumprimento de cotas; será o diferencial estratégico capaz de quebrar o jejum histórico de protagonismo feminino e conferir à chapa o equilíbrio necessário para dialogar com a maioria real da população. Quem primeiro apresentar uma mulher com densidade e autonomia para compor o governo, dará o xeque-mate na narrativa da renovação antes mesmo da largada oficial.

O Amazonas precisa "atravessar esse Rubicão". Ter uma mulher no governo, mesmo que na vice-governadoria, não é apenas um gesto simbólico, mas uma necessidade administrativa para equilibrar as prioridades do Estado.

II. A MULHER NA POLÍTICA: Competência técnica, simpatia e carisma

A Professora Maria do Carmo (PL) emergiu no cenário como a personificação de uma direita que busca consistência e renovação. No entanto, o pragmatismo das cúpulas partidárias pode impor barreiras à sua viabilidade como cabeça de chapa. Caso sua candidatura ao Governo não se concretize, o PL não deixará apenas um espaço vazio na direita; deixará órfã uma parcela significativa do eleitorado feminino que via nela a chance de romper o teto de vidro do Palácio da Compensa.

A vantagem de Maria do Carmo por encarnar a quebra do jejum feminino esbarra em um obstáculo de natureza subjetiva, mas politicamente letal: a falta de carisma e simpatia. No "corpo a corpo" que define as eleições no Amazonas, a técnica e o currículo são apenas o ingresso para a festa; a permanência nela depende da capacidade de gerar identificação e calor humano.

Diferente de um plano de governo, que pode ser redigido por técnicos, a simpatia é um traço inerente à personalidade. Não se fabrica carisma em laboratórios de marketing sem que ele soe artificial ou forçado. Para Maria do Carmo, o relógio corre contra a natureza: ela terá o hercúleo trabalho de tentar humanizar sua imagem em um tempo exíguo, em uma disputa onde os adversários — raposas políticas experientes — dominam a arte do "abraço do povo".

Sem essa transformação natural, o simbolismo da sua candidatura corre o risco de se tornar uma "estátua de gelo": admirável pela forma, mas incapaz de aquecer o coração do eleitorado. É esse o flanco que abre espaço para que outros pré-candidatos se antecipem. Se ela não conseguir "quebrar o gelo" com a massa, o primeiro concorrente que apresentar uma vice mulher que una competência técnica e carisma genuíno terá em mãos a chave para abrir as portas do Palácio Estadual da Compensa.

III. A NECESSIDADE DE UMA MULHER NO GOVERNO: A Corrida pela "Vice de Ouro"

Se o tabuleiro sucessório de 2026 parece um duelo de titãs masculinos, a profundidade do jogo revela uma carência que nenhum marqueteiro pode ignorar: a ausência histórica da mulher no comando do Estado. O Amazonas carrega o incômodo estigma de ser um dos entes federativos com menor protagonismo feminino no Poder Executivo. Nunca elegemos uma governadora. É este "jejum de representatividade" que transforma a escolha da vice no maior ativo político da temporada.

A "Vice de Ouro" não é apenas um nome para fechar a chapa; é a peça que confere legitimidade a um discurso de modernização administrativa. No cenário atual, pré-candidatos como o atual vice-governador Tadeu de Souza, o prefeito David Almeida e o senador Omar Aziz sabem que, sem uma mulher ao lado, suas chapas soarão como "mais do mesmo". A corrida, portanto, é para encontrar quem reúna o que falta à Maria do Carmo: a junção explosiva de densidade técnica e carisma popular.

Diferente das eleições passadas, onde a vice era decidida por tempo de TV ou apoio partidário de última hora, em 2026 a escolha será sobre conexão. O eleitorado amazonense busca um espelho no poder. Aquele que primeiro anunciar uma pré-candidata que saiba transitar entre a seriedade da gestão e o calor do povo, dará um xeque-mate preventivo nos adversários.

Nesse cenário, o perfil ideal que surge no horizonte não é o da política de carreira, mas o da técnica humanizada. O "melhor dos mundos" para qualquer chapa majoritária em 2026 será uma mulher que conheça profundamente as entranhas da administração pública, preferencialmente uma servidora de carreira com currículo inatacável, mas que tenha demonstrado um carisma genuíno na ponta, na gestão direta com o cidadão. Uma figura que traga a segurança do saber administrativo sem carregar o peso das velhas brigas partidárias.

Em Santa Catarina, a escolha da delegada aposentada Marilisa Boehm (PL) foi cirúrgica. Ela personificou exatamente o perfil da "técnica carismática": servidora de carreira (Polícia Civil), com autoridade moral e conhecimento das entranhas do Estado, mas com uma sensibilidade para pautas de segurança e proteção à mulher. Ela deu a Jorginho Mello a "blindagem" técnica necessária e ajudou a consolidar uma votação recorde, mostrando que a competência policial e administrativa é um ativo eleitoral gigante.

Já Ibaneis Rocha (Distrito Federal, 2022) buscou a reeleição em uma disputa dura. Ao escolher Celina Leão (PP) como sua vice, ele não apenas selou uma aliança partidária forte, mas trouxe uma figura com enorme carisma popular e trânsito livre em áreas onde Ibaneis tinha resistência. Celina, com seu estilo "leoa", humanizou a chapa e garantiu a vitória ainda no primeiro turno, algo raro no DF.

Um grande exemplo do "Voto Identitário" veio de Casagrande (Espírito Santo, 2018), que escolheu Jacqueline Moraes. Ela trouxe para a chapa uma conexão visceral com as periferias e com o eleitorado feminino, sendo fundamental para vencer o pleito no primeiro turno, quebrando barreiras sociais e de gênero.

Vale ressaltar que a urgência dessa “Vice de Ouro” não depende exclusivamente do recuo de Maria do Carmo. Pelo contrário: caso a Professora se viabilize e sustente sua candidatura, a necessidade de Omar Aziz, David Almeida e Tadeu de Souza indicarem uma mulher para a vice torna-se ainda mais imperativa. Se Maria estiver no páreo, ela terá o monopólio natural do discurso de representatividade; nesse cenário, qualquer chapa puramente masculina parecerá um anacronismo ambulante.

IV. O ALERTA DE 2024: O "Caso Roberto Cidade"

Para aqueles que subestimam o peso de um vice, a eleição para a Prefeitura de Manaus em 2024 serve como um epitáfio político recente. Roberto Cidade reuniu o maior arco de alianças da história recente, tinha estrutura e fôlego, mas viu sua campanha naufragar no momento em que selou o destino com o Coronel Menezes como vice. Cidade, que tinha tudo para ser eleito, foi arrastado por um vice que, além de carecer de carisma e de provas de eficiência na gestão pública, carregava o desgaste do rompimento com o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O erro estratégico foi fatal. Ao desafiar ironicamente o "Capitão do Povo" em pleno discurso de campanha, Menezes exauriu o resto do capital político que Bolsonaro havia lhe conferido anteriormente. O resultado foi uma derrocada que ensina uma lição valiosa para 2026: um vice inadequado não é apenas um peso morto; é um elemento corrosivo que pode anular as virtudes do cabeça de chapa e afugentar o eleitorado que deveria atrair.

V. A LEGITIMIDADE DA CANETA: Tadeu Souza e a Emancipação do Vice

O xadrez político amazonense ensina que o cargo de vice-governador é, acima de tudo, uma posição de espera estratégica. Se Wilson Lima confirmar sua renúncia para disputar o Senado, Tadeu Souza não assumirá apenas o comando administrativo do Estado, mas herdará a legitimidade política de construir seu próprio caminho. A história recente corrobora essa tese: Omar Aziz e José Melo provaram que o vice que assume a máquina não pode ficar a reboque de terceiros; ele se torna o epicentro das decisões.

Neste cenário, a ideia de que Tadeu Souza deve ser um "apêndice" de David Almeida perde sustentação diante da realidade do poder. Como governador em exercício, Tadeu tem o direito - e, para muitos, o dever - de lançar sua pré-candidatura. O "xeque-mate" definitivo dessa chapa seria a composição: Tadeu para o Governo, Wilson Lima para o Senado e uma mulher de extrema confiança e perfil técnico na vaga de vice. Essa configuração mantém a continuidade do grupo, garante segurança jurídica e entrega a tão esperada renovação feminina. No Amazonas, quem tem a caneta e sabe usá-la para compor com inteligência, raramente perde o jogo.

VI. CONCLUSÃO: O Xeque-Mate na Largada

O Amazonas vive um jejum histórico que beira o anacronismo. Em pleno 2026, ainda discutimos a "possibilidade" de ter uma mulher no governo, quando a representatividade já deveria ser a norma. Aquele que primeiro descer do palanque da hegemonia masculina e anunciar uma pré-candidata a vice com as qualidades técnicas e o carisma aqui apontados, capturará o zeitgeist — o espírito do tempo — desta eleição.

Como demonstraram os casos vitoriosos em outros estados, a vice-governadoria deixou de ser um cargo figurativo para se tornar o motor de tração eleitoral. O erro estratégico de Roberto Cidade em 2024 deixou uma lição amarga: um vice sem conexão popular e sem eficiência demonstrada é uma âncora que arrasta até as candidaturas mais robustas para o fundo. Em 2026, a prioridade absoluta é a humanização da chapa através de quem conhece a máquina e sabe falar com o povo.

No xadrez político, a “Rainha” é a peça mais versátil e poderosa. No Amazonas, os jogadores continuam tentando ganhar a partida apenas com “Reis e Bispos”, ignorando que o governo precisa, urgentemente, do olhar e da sensibilidade feminina. Essa necessidade se impõe até mesmo se Maria do Carmo for candidata: para Omar, David ou Tadeu, ter uma mulher na vice não será apenas uma opção, mas uma estratégia de sobrevivência para não parecerem obsoletos diante de um eleitorado que busca espelhos, não apenas chefes.

A sucessão estadual deixou de ser uma disputa de nomes isolados para se tornar uma guerra de estratégias de composição. Se o "Efeito Granada" de David Almeida redesenhou as fronteiras, a legitimidade da caneta de Tadeu Souza — seguindo os passos de sucessores vitoriosos como Omar e Melo — define o novo centro de gravidade. A possibilidade de uma chapa que una a continuidade administrativa ao frescor de uma vice técnica e carismática cria um cenário onde a inovação encontra a segurança.

No Amazonas, sairá na frente aquele que primeiro apresentar essa "Peça Rara". O primeiro pré-candidato que conseguir indicar uma mulher que domine a máquina pública e saiba abraçar o povo, quebrando o jejum de protagonismo feminino, não estará apenas preenchendo uma vaga. Estará aplicando o verdadeiro e definitivo xeque-mate na largada de 2026.

Tadeu Souza, entretanto, encontra-se hoje "freado" pela falta de decisão de Wilson Lima em deixar o Governo, mas ele não pode ficar esperando a chuva cair para plantar. É preciso arar a terra agora, preparar o solo e ter em mãos a semente para o plantio. O tempo para se declarar pré-candidato e indicar sua vice será exíguo, e na política, quem não prepara a colheita no tempo certo, acaba assistindo ao banquete alheio.

NOTAS E REFERÊNCIAS CITADAS

[1] BRINGEL BATISTA, Silvio da Costa. A David Almeida e a Explosão do Tabuleiro Político no Amazonas: O "Efeito Granada" que Rompe Pontes na Largada ao Governo. Portal do Holanda, fev. 2026. Disponível em:portaldoholanda.com.br.

[2] TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DO AMAZONAS (TRE-AM). Resultados do 1º Turno - Eleições Municipais de Manaus 2024. Dados sobre o desempenho da chapa Roberto Cidade/Coronel Menezes (União Brasil/PP). Disponível em:tre-am.jus.br.

[3] CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Art. 14, §6º (Desincompatibilização) e dispositivos sobre a sucessão e substituição de Chefes do Poder Executivo.

[4] TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DO DISTRITO FEDERAL (TRE-DF). Resultados Eleições 2022. Dados sobre a vitória de Ibaneis Rocha e Celina Leão no 1º turno. [Exemplo de carisma popular e articulação política feminina].

[5] TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DO ESPÍRITO SANTO (TRE-ES). Resultados Eleições 2018. Dados sobre a eleição de Renato Casagrande e Jacqueline Moraes. [Exemplo de voto identitário e representatividade periférica].

(*) Cristão Evangélico; Doutorando em Teologia pelo Instituto Logos; Consagrado ao Ofício Diaconal pela Igreja Batista em Dom Pedro; Formado em Direito pela UFAM; Pós-Graduado em Direito Civil e Processo Civil; Ex-Presidente da Comissão da Advocacia Pública e Ex-Membro da Comissão de Apoio Institucional à Gestão Pública da OAB/AM; Ex-Juiz Classista da Justiça do Trabalho; Ex-Secretário Parlamentar do Gabinete da Presidência da CMM; Ex-Assistente Técnico da Diretoria das Comissões Parlamentares da CMM; Ex-Procurador-Geral da CMM; Ex-Diretor-Geral da CMM; Ex-Chefe da Consultoria Técnico-Legislativa e Ex-Subsecretário-Chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Amazonas. Agraciado com as Medalhas Cândido Mariano, Tiradentes (Polícia Militar), Altair Ferreira Thury (Câmara Municipal de Manaus) e Ruy Araújo (Assembleia Legislativa do Amazonas). CAC e Antigomobilista. Atualmente é Procurador de Carreira de 1ª Classe da Câmara Municipal de Manaus, Advogado militante, Corretor, Apresentador do Podcast “Lei é Lei” e Articulista do Portal do Holanda

Silvio da Costa Bringel Batista

Silvio da Costa Bringel Batista

(*) O autor é Cristão Evangélico, Doutorando em Teologia pelo Instituto Logos, Consagrado ao Ofício Diaconal pela Igreja Batista em Dom Pedro, Formado em Direito pela UFAM, Pós-Graduado em Direito Civil e Processo Civil, Procurador da Câmara Municipal de Manaus, Advogado, Presidente da Comissão da Advocacia Pública e Membro Titular da Comissão de Apoio Institucional à Gestão Pública da OAB/AM, Corretor de Imóveis, CAC, Antigomobilista, Apresentador do Podcast “Lei é Lei”, ex-Juiz Classista da Justiça do Trabalho, ex-Procurador-Geral da CMM, ex-Diretor-Geral da CMM, ex-Chefe da Consultoria Técnico-Legislativa e ex-Subsecretário Chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Amazonas.

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