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Homenagear políticos ao som dos tamborins: pode?


Por Elizabeth Menezes

23/11/2023 17h52 — em
Ombudsman



O Comitê Amazonas de Combate à Corrupção entrou no modo alerta: aproveitar a festa do Carnaval para homenagear político com intenção declarada de ser candidato em 2024, pode causar desequilíbrio no processo eleitoral. Daí a decisão de solicitar que o Ministério Público fiscalize o uso de dinheiro público destinado a Escolas de Samba de Manaus. O Comitê informa ter recebido notícias sobre homenagens a políticos e seus parentes. Alguns dos homenageados são candidatos ou pré-candidatos à eleição municipal do próximo ano, com os nomes amplamente divulgados nos veículos de comunicação, já em declarada pré-campanha. 

No documento ao MP, a entidade garante que “não quer impedir a livre manifestação de pensamento ou qualquer forma de homenagear pessoas”, mas argumenta que os desfiles das Escolas de Samba de Manaus são patrocinados com recursos públicos. E 2024 é ano de eleição para escolher prefeitos, vice-prefeitos e vereadores. A preocupação é de que as homenagens acabem favorecendo os homenageados (e prejudicando quem vai tentar a eleição pela primeira vez, por exemplo). De acordo com o Portal do Holanda, dois pré-candidatos a prefeito de Manaus e um vereador que vai para a reeleição, serão temas de Escolas de Samba de Manaus.  

Pelo que foi divulgado, a secretaria nacional de Mulheres do PT, Anne Moura, receberá homenagem da Escola de Samba Mocidade Independente do Coroado. Já a Escola Mocidade Independente de Aparecida, escolheu Roberto Cidade (União Brasil), presidente da Aleam (Assembleia Legislativa do Amazonas). Ambos não escondem de ninguém que pretendem disputar a cadeira do prefeito David Almeida (Avante). Em setembro deste ano, Anne lançou seu nome. “Tenho uma animação muito grande com isso. Estou à disposição do meu partido, à disposição da minha cidade e do meu estado. É uma decisão que vai depender da direção partidária em Manaus e da direção nacional, mas eu estou preparadíssima”, declarou.

Quanto a Roberto Cidade, no segundo mandato, reeleito presidente da Aleam em fevereiro deste ano, já demonstra visível movimentação política, incluindo críticas diretas a David Almeida. Com frequência ele também aparece em eventos com a presença do governador Wilson Lima, que é do mesmo partido. As circunstâncias favorecem essa proximidade com o governador: além de integrar a base aliada, Cidade está no comando do poder legislativo estadual. Até aqui, governador e prefeito mantêm parceria administrativa, o que não garante aliança política na próxima eleição. E enquanto não chegam as convenções partidárias para confirmar as candidaturas, Roberto Cidade capricha na pré-campanha. 

O VERMELHÃO DA CICLOFAIXA

No final de outubro, por exemplo, declarou que seu nome estava “à disposição” para uma candidatura a prefeito. Na ocasião, criticou a administração David Almeida, por causa da pintura vermelha numa ciclofaixa, sobre pedras portuguesas, no calçadão da Ponta Negra (zona oeste). A ideia teve grande repercussão negativa nas redes sociais e também entre políticos. O vermelhão foi retirado, mas deu tempo de Roberto Cidade mandar seu recado. Ao mesmo tempo, sua assessoria intensificou a divulgação de diversas ações, discursos e opiniões sobre variados assuntos. Projetos de lei propostos e aprovados, por exemplo, passaram a ganhar mais visibilidades nos veículos de comunicação. 

Só mesmo os especialistas serão capazes de mensurar o impacto que homenagem de Escolas de Samba pode provocar nos eleitores, em relação aos políticos com pretensões a cargos eletivos.   Pelo sim, pelo não, o Comitê Amazonas de Combate à Corrupção teme um “desequilíbrio eleitoral”, com favorecimento a pré-candidatos. E ao pedir que o MP promova fiscalização dos recursos públicos destinados às Escolas de Samba sugere, no mínimo, uma desconfiança sobre “favorecimentos” a certos pretensos candidatos. 

Ao mesmo tempo informa, para quem não sabia, que recursos públicos ajudam na realização do Carnaval, a maior festa popular do Brasil. Sem contar que, além da grandiosidade de desfiles das Escolas de Samba, com seus enredos e ao som dos tamborins, é um momento considerado muito importante para a economia. Aí incluído a festa de Carnaval nas ruas das grandes cidades, a exemplo do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife. Manaus conta com tradicionais bandas, que atraem multidões. 

Com a iniciativa do Comitê Amazonas de Combate à Corrupção, que passa a esperar uma resposta do MP, surge mais uma pauta para a imprensa, a respeito da eleição 2024. 

Em resumo: Carnaval e Política. Essa mistura pode funcionar?

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Elizabeth Menezes, jornalista formada pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas), repórter em jornais de Manaus, a exemplo de A Notícia, A Crítica e Amazonas em Tempo. Também trabalhou na assessoria de Comunicação da Assembleia Legislativa.

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