No sábado 13, ao despejar lixo de uma caçamba na rua em frente do Aterro sanitário, o deputado federal Amom Mandel (Cidadania) provocou a reação dos órgãos ambiental e de limpeza da prefeitura. Amom garante que funcionários permitiram que o lixo fosse jogado na rua, porque ele não conseguiu entrar na área do aterro, enquanto secretários do meio ambiente e da limpeza pública afirmam que o parlamentar queria descartar “lixo contaminado” sem autorização prévia. Por esse motivo, a prefeitura apresentou denúncia contra Amom na Polícia Federal, por crime ambiental. O lixo atirado na rua foi mostrado nos veículos de comunicação. À tarde, quando o secretário de Limpeza Sabá Reis ia começar uma coletiva de imprensa, na área do aterro, Amom apareceu e os dois discutiram na frente dos jornalistas. O aterro sanitário fica no quilômetro 19 da AM-10 (estrada que liga Manaus a Itacoatiara).
De acordo com Sabá Reis, a atitude do deputado prejudicou o trânsito de caminhões coletores. “Ele interrompeu o acesso dos nossos carros coletores. Por mais de uma hora ficou mais de 1 km de carros parados porque não podiam passar”. Em sua defesa, Amom diz ter sido impedido de descartar o lixo que ele e “centenas de voluntários” haviam recolhido de igarapés. O secretário de meio ambiente, Antônio Strosk, explicou que é preciso avisar sobre o material destinado ao aterro, porque existem regras. “Existe uma preocupação do controle público contra os resíduos que entram, porque as pessoas não podem descartar qualquer coisa. Por exemplo, a pessoa entra aqui e quer descartar um cavalo, uma carga de material perecível que não foi investigado pela vigilância sanitária. Então, existem umas preocupações ambientais que precisam ser avaliadas” . Ele também falou sobre penalidade administrativa e criminal.
“Está instaurado uma ação administrativa por conta do ato. A procuradoria-geral do município também está entrando com providências. No mínimo a pessoa precisa saber que, se você descartar lixo na via pública está passível de punição, seja a pessoa física, jurídica, parlamentar ou até o presidente da República, qualquer um é passível de penalidade”, declarou Strosk. Porém, Amom Mandel, além de dizer que recebeu orientação dos servidores do próprio aterro para descartar o lixo na rua, e teria vídeos para comprovar o fato junto à Polícia Federal, não aceita que tenha cometido crime ambiental. “Nós fizemos o trabalho de limpar e eles estão tentando nos sabotar. Contamos com ajuda de centenas de pessoas para limpar um igarapé e fomos impedidos de entrar no aterro sanitário e dar o destino correto para esses resíduos. Além disso, ainda estão pagando blogs para tentar nos difamar. Compartilhe esse vídeo e vamos lutar contra esse ABSURDO que está acontecendo em nossa cidade”, diz numa rede social.
No vídeo, Amom fala em “palhaçada da prefeitura” e “imprensa marrom” para o atacar. “Olha só essa palhaçada da prefeitura de Manaus. Eles não trabalharam, não recolheram o lixo onde deveriam ter recolhido, mesmo pagando com dinheiro público pra isso. Nós resolvemos ir lá e fizemos o trabalho deles. E aí eles não só não trabalham, como não querem nos deixar trabalhar e não deixaram o lixo que recolhemos com ajuda de centenas de voluntários entrar no aterro sanitário que era destinação correta. E ainda ficaram ali, pegaram a imprensa paga, marrom, como já vimos aí denúncia de dinheiro vivo da prefeitura de Manaus, pra nos atacar e dizer que praticamos crime ambiental. Crime ambiental é não recolher esse lixo dos igarapés. Crime ambiental é não deixar o lixo entrar no aterro e ter a destinação correta”.
“CENTENAS DE CIDADÃOS DE BEM”
Empolgado, Amom se dirige diretamente a “adversários” e os desafia: “Crime ambiental é nós fazermos o trabalho de vocês, com ajuda de cidadãos de bem, cidadãos dispostos a limpar o meio ambiente”. Mais empolgado ainda se mostra ao final do vídeo. “Aos nossos adversários: criem vergonha, trabalhem de verdade e não tentem atrapalhar quando nós quisermos fazer a nossa parte. Se estão incomodados, bebam água, porque vão ter que me engolir”. Numa só tacada, misturou a mais famosa frase do técnico Zagallo com a sua própria fala na campanha de 2022, quando, aos 21 anos, tornou-se o deputado federal mais votado no país, proporcionalmente. Neste 2024, Amom está pré-candidato à prefeitura de Manaus. Mas ainda não é candidato, embora esteja agindo como tal. Até aqui, ninguém ainda é candidato legalmente. E num episódio como o de ontem, sábado, ele agiu como se estivesse num palanque, mandando adversários “tomar vergonha” e “trabalhar".
Em nenhum momento ele se colocou na posição de deputado federal ou de alguém preocupado com o meio ambiente, mas de candidato a brigar com adversários. Além de desrespeitar profissionais da imprensa que ele chama de “marrom” e “paga” para atacá-lo. Defendeu as “centenas de cidadãos de bem” que o ajudaram catar lixo em algum igarapé. Conforme pode ser verificado, o episódio foi acompanhado pelos veículos de comunicação local, incluindo jornais impressos e com décadas de existência no Amazonas. Se o deputado e pré-candidato à prefeitura de Manaus cometeu ou não crime ambiental, é uma questão para as autoridades competentes. Mas pode ter cometido deslize verbal e imprudência, para usar eufemismo. Além de ofensa explícita aos profissionais da imprensa.
O deputado, que se mostra tão corajoso nos vídeos, poderia enumerar e mostrar ao público quais veículos de comunicação estão sendo pagos para atacá-lo. Por que não o faz?
Aviso