Tecido social esgarçado
A prática mostra que as grandes iniquidades são a soma de pequenos pecadilhos que a sociedade releva, acostumando-se a conviver com eles e, até a aplaudi-los como espertezas dignas de serem imitadas.
Sem qualquer laivo de moralismo, uma análise da sociedade brasileira hoje mostra que tal postura, leva ao longo dos anos a uma situação insustentável, de difícil correção a curto prazo, esgarçando o tecido social até chegar bem próximo ao ponto de ruptura das instituições.
As coisas começam no próprio governo central, estados e municípios, passa pelo Congresso Nacional, pelo Judiciário, mundo empresarial e entranha a sociedade civil nas suas várias camadas e classes.
Se acoplarmos a isso o famoso jeitinho brasileiro entenderemos por que aqui no Brasil tem lei que pega, tem lei que não pega e a Constituição foi feita para inglês ver, a partir de seu preâmbulo que diz "serem todos os brasileiros iguais perante a lei”. Seria impossível listar os casos de desregramento hoje vigentes entre nós.
Desde a questão da emenda da reeleição do presidente (FHC), com a compra explícita de votos, passando pelo Congresso Nacional, repleto de marginais (anões do orçamento, sócios do mensalão, assassinos, traficantes de drogas, lobistas), entrando pelo Judiciário (sede do Tribunal do Trabalho em São Paulo, venda de sentenças, cálculos estapafúrdios de indenizações), perpassando os estados, permeando os municípios (desvios de verbas federais através de notas frias), todos em conluio total e irrestrito para assaltar a sociedade. Mas não estamos sozinhos.
Zibigniew Preisner, músico do diretor de cinema Krzystof Kieslowski (aquele do filme A Liberdade é Azul, com Juliette Binoche, do Paciente Inglês), desabafou: “Não posso viver em um país de mentiras, estúpido, paranoico, cheio de impunidade, falta de sensatez e onde os escândalos e enganos são maiores quanto mais alto se mirar”.
Se consolo valesse... Está na hora de todos fazermos como o personagem Bartleby, do Herman Melville, e passar a usar a célebre frase “acho melhor não…”, frente às tentações de queimar etapas para enriquecer ou buscar o poder a todo custo.
Temos que ser afirmativos pelo lado da negação.
ASSUNTOS: Espaço Crítico