Chegando à fronteira transponível do ano
Fiz um artigo no início do mês de novembro, sobre os vagidos do penúltimo mês do ano, e agora faço outro para o final do mês. Segunda já será dezembro, fronteira imediata e transponível do ano (cheio de surpresas agradáveis?) para chegar a 2026. Nesta iminente virada de ano, o este instante pode ser tão vago que, de modo impressentido, tomo-o entre os dedos de oscilantes e trêmulas mãos. Constato que há esquecidos soluços de muitos antigamentes anteriores.
Iniciam-se, os primeiros dias de dezembro. Sementes genéticas do final de muitas coisas ocorridas; e o alvorecer de outras. Amanheço com a sensação de, durante a noite (os sonhos, quero dizer) ter sido um prisioneiro, dentro daqueles parâmetros de Proust, em busca do tempo perdido. As dependências noturnais continuam com visões noturnas.
No trigésimo - o último - dia de novembro, o instante pertence a todos os seres humanos. Gravo-o, em pen drive. Dentro das memórias audíveis voltarei, em um dia qualquer de 2026, à convivência do que passou, em 2025. Todos nós.
Um colecionador de sonhos deste milênio. Eis o meu trabalho, diuturno. Até dos meus próprios fósseis, quando caminho em busca daquela luz, no final do túnel deste expirante 2025, que estará apagada dentro de 31 dias. Ouvir-se-ão, os primeiros vagidos dos dias do mês de dezembro, último de 2025. Sementes genéticas do terminar de muitas coisas; e o alvorecer de outras.
Vago e impreciso nas definições final de novembro, frases talvez desconexas, desativadas, misturo preâmbulos de cogitações. Embrulho depois tudo, em papel celofane, ponho endereço, levo-o aos Correios, sob registro. Alguém (ou ninguém, talvez seja este meu objetivo) entretanto nada irá receber. (Durma-se com um barulho desses, dirá o leitor(a).
O este instante de agora é semente reprodutora daqueles outros, dos amanhãs que virão.
Há verdes circundantes, nuvens prenunciam chuvas, dentro da entardecida Manaus. Depois, então, dentro da anoitecida tarde, lembro estes versos de Fernando Pessoa "Sperai! Cai no real e na hora adversa que / Deus concede aos seus / Para o intervalo em que esteja a alma imersa / Em sonhos que são Deus / Que importa areal e morte e a desventura? / Se Deus me guarda? / É o que me sonhei que eterno dura / E esse que regressarei?"
Os meus olhos descansam, olhando para o derradeiro dia de novembro, como no poema de Carlos Pena Filho (Memórias do Boi Serapião) os meus olhos descansam naquelas "porcelanas da China".
ASSUNTOS: Espaço Crítico