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Quando o jornal vira notícia


Por Elizabeth Menezes

21/11/2023 17h03 — em
Ombudsman



Jornais e demais veículos de comunicação, todos sabem, existem para divulgar informações de interesse da sociedade. É da sua natureza, assim é esperado desde que a instituição imprensa se estabeleceu entre nós.  Daí que um caso igual a esse do Estado de S. Paulo, o Estadão, envolvendo diretamente uma diretora da redação, provoca uma grande confusão. E tudo começou com uma reportagem sobre duas visitas da esposa de um líder do Comando Vermelho, aqui do Amazonas, ao Ministério da Justiça, órgão sob o comando de Flávio Dino, nome citado como possível indicação a uma futura vaga no STF (Supremo Tribunal Federal). E por mais esse motivo, alvo constante da oposição ao governo Lula. 

 Ele, Clemilson dos Santos Farias, o Tio Patinhas, está preso deste dezembro passado, condenado a 31 anos e sete meses de prisão, por associação ao tráfico de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Ela, Luciane Barbosa Farias, condenada em segunda instância pelo Tribunal de Justiça do Amazonas, por associação ao Comando Vermelho, responde ao processo em liberdade.  Ao mesmo tempo, Luciane faz parte da ONG  Liberdade do Amazonas e, nessa condição, esteve duas vezes no Ministério da Justiça. Também visitou o Congresso Nacional e o Conselho Nacional de Justiça, de acordo com reportagem do Estadão, publicada no dia 13 deste mês, quando chamou Luciane de “Dama do tráfico amazonense” e assim ela passou a ser chamada em toda a imprensa.     

Na primeira reportagem (“Ministério da Justiça recebeu mulher de líder do Comando Vermelho para duas reuniões), é explicado que o MJ confirmou as visitas de Luciane, “mas disse que não sabia quem ela era”. Em matérias seguintes, o governo do Amazonas confirmou que Luciane participou de evento no MDH (Ministério dos Direitos Humanos), representando o estado (evento sobre prevenção e combate à tortura), “com passagens e diárias pagas pelo MDH”, diz o Estadão. Assim, estava armada a confusão. O assunto “contagiou” até o Youtuber Felipe Neto (mais de 40 milhões de seguidores nas redes sociais), que não apenas criticou, mas também postou no X, antigo Twitter, uma foto da editora-executiva de Política e chefe da sucursal do Estadão, em Brasília, Andreza Matais. 

 Depois, diante da enorme repercussão, Felipe Neto pediu desculpas à jornalista, porém manteve pesadas críticas ao jornal. Ao fim do texto, ele indaga: “Quem financia esse jornaleco da direita”? Do outro lado, o vereador Fernando Holiday (PL-SP) publicou um vídeo dizendo que o ministro da Justiça havia se encontrado com Luciane. “Flávio Dino mentiu ao dizer que nunca se reuniu com a ´dama do tráfico´. A sua posição está insustentável”, afirmou. Logo depois, apagou a publicação. Ao comentar o vídeo do vereador bolsonarista, o Estadão reafirmou que Luciane não se reuniu com Flávio Dino, mas apenas com secretários do MJ. 

 O jornal também diz que “os ataques foram ampliados” no domingo 19, quando a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e o próprio Flávio Dino, fizeram “menção a matéria de um site simpático ao governo Lula, com informações falsas sobre o processo de produção das reportagens do Estadão”. E aí vem mais um capítulo dessa história, com a entrada do site revistaforum.com.br, que define o Estadão, criado há 148 anos, como “porta-voz da extrema direita atual”. Em matéria divulgada nesta segunda-feira 20, pode-se ler: “Por trás dos editoriais raivosos contra o governo federal, há uma trama complexa que envolve bilionários em busca da construção de um grande meio de comunicação para combater o PT e a esquerda como um todo. Quem revela a trama é o jornalista Leandro Demori” (reportagem sob o título “Como o Estadão se tornou porta-voz da extrema direita atual? Jornalista revela a trama”).

FORUM RELEMBRA O CASO DO JUIZ LUIS CARLOS VALOIS

 Em reportagem assinada por Henrique Rodrigues, publicada na segunda-feira 20, o site afirma: “Luis Carlos Valois, do AM, referência em sua área, passou a ser ameaçado de morte por uma facção após ser rotulado como criminoso pelo tabloide paulista de linha reacionária”. Com a manchete “Estadão acusou juiz de execuções penais de ser ligado ao crime organizado”, o texto relembra a rebelião de presos em Manaus, no dia 1º de janeiro de 2017, que deixou 56 detentos mortos. Valois foi chamado, ficou mais de 12 horas no local, “tentou de tudo”, com orientações policiais, e “conseguiu pôr fim à rebelião, fazendo com que todos os reféns, que eram funcionários do Estado, fossem liberados”. 
Na descrição dos fatos, a matéria conta que Valois, “exausto e com a missão cumprida, diante dos olhos de todas as autoridades que acompanhavam o morticínio, ele voltou para casa”. Ainda “sem pregar os olhos nem sequer por um minuto”, Valois recebeu um telefonema do Estadão. Concedeu entrevista a um repórter e horas depois viu, no site do jornal, a manchete “Juiz chamado para negociar rebelião é suspeito de ligação com facção no Amazonas”. A partir daí, com o nome vinculado “a uma determinada quadrilha do crime organizado, os rivais do bando passaram a ameaçá-lo diretamente de morte”, acrescenta o texto.

 Com essa retrospectiva, o site Forum argumenta não ser a primeira vez que o Estadão comete “erros crassos”. Inclusive o apelido “dama do tráfico” não existia: foi criado. “O jornalista André Shalders admitiu nas redes sociais que a alcunha ´dama do tráfico´ para definir Luciane Barbosa Farias  (...), foi inventada por ele, a partir da declaração de uma fonte”, diz o site, que era uma revista mensal, com publicação impressa, durante 12  anos (o primeiro número foi às bancas em setembro de 2001 e o último, em dezembro de 2013). Agora em edição on line, mede forças com um concorrente criado em 1875. E agora? A disputa política, desenhada como Esquerda X Direita, pode não ser uma guerrinha fratricida ou um Fla-Flu no campo da imprensa. Porém, dá para dizer que há algo de novo no front?  

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JORNAIS MANIFESTA “REPÚDIO E PREOCUPAÇÃO” 

Ainda na segunda-feira 20, a ANJ (Associação Nacional de Jornais) divulgou nota sobre o caso. “O uso de métodos de intimidação contra veículos e jornalistas não se coaduna com valores democráticos e demonstra um flagrante desrespeito à liberdade de imprensa. Também evidencia uma prática característica de regimes autocráticos de, com o apoio de dirigentes políticos, sites e influenciadores governistas, tentar desviar o foco de reportagens incômodas por meio de ataques contra quem as apura e divulga”, diz um trecho da nota, publicada no Estadão.    

O ex-juiz Sergio Moro, hoje senador (União Brasil-PR), prestou solidariedade ao jornal e aproveitou para criticar o PT, partido de Lula. “Os ataques do governo do PT e de seus aliados ao Estadão e aos seus jornalistas, pelas matérias sobre a ‘Dama do Tráfico’, apenas confirmam o viés autoritário do partido. Convive mal com o contraditório”. Outros políticos e profissionais de diversas áreas saíram em defesa do jornal e de Andreza Matais.  

Em resumo: coube ao Amazonas, por meio da esposa de um líder do Comando Vermelho, em visitas (não totalmente explicadas) ao Ministério da Justiça, provocar toda essa celeuma. Enquanto isso, as águas dos rios ainda não subiram como desejado pela população amazonense, o calor persiste e a fumaça provocada por incêndio nas matas ainda não foi embora.

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Elizabeth Menezes, jornalista formada pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas), repórter em jornais de Manaus, a exemplo de A Notícia, A Crítica e Amazonas em Tempo. Também trabalhou na assessoria de Comunicação da Assembleia Legislativa.

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