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Desmatamento de sobrevivência


Por Raimundo de Holanda

09/01/2026 18h57 — em
Bastidores da Política


  • O TRF 1 entendeu, tardiamente, que há diferença entre exploração predatória e sobrevivência.
  • Em uma região frequentemente tratada apenas como símbolo ou obstáculo, reconhecer as diferenças concretas já é um passo — pequeno, mas necessário — para que justiça e desenvolvimento deixem de caminhar em direções opostas.
  • Quando o direito ignora essa distinção - e é o que vinha ocorrendo como regra - ele passa a ocupar o lugar da política pública ausente e transforma a punição em resposta automática à pobreza e ao abandono estatal.

A recente absolvição, pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, de um agricultor condenado por desmatamento no sul do Amazonas é uma quebra de paradigma.  O Tribunal revisou a condenação e reconheceu o estado de necessidade, ao constatar que a área desmatada era pequena, inferior ao módulo fiscal, e destinada à subsistência familiar, definindo-se contrariamente a posição do Ministério Público, que havia, inclusive, pedido a ampliação da pena.

O julgamento não nega a importância da proteção ambiental nem relativiza o desmatamento ilegal. Apenas reafirma algo que a própria lei já prevê: há diferença entre exploração predatória e sobrevivência. Quando o direito ignora essa distinção, ele passa a ocupar o lugar da política pública ausente e transforma a punição em resposta automática à pobreza e ao abandono estatal.

A decisão do TRF1 não resolve o problema estrutural da Amazônia, nem sinaliza mudança ampla de rumo. Mas oferece um alento mínimo: a ideia de que ainda é possível aplicar a lei com proporcionalidade, levando em conta a realidade local. 
Em uma região frequentemente tratada apenas como símbolo ou obstáculo, reconhecer as diferenças concretas já é um passo — pequeno, mas necessário — para que justiça e desenvolvimento deixem de caminhar em direções opostas.

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ASSUNTOS: AMAZ\ÕNIA, desmatamento, TRF1

Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.