É admissível que se levante a hipótese de instrumentalização do Estado. Também é natural que agentes políticos questionem o momento e os efeitos de operações que recaem sobre suas atividades. O problema começa quando essa desconfiança deixa de ser objeto de debate e passa a ser tratada como presunção automática.
Investigar suspeitas de crime, fraudes em licitação ou mau uso de emendas parlamentares é dever do Estado. Se há indícios de irregularidade, é preciso apurar. E essa apuração, dentro do sistema jurídico brasileiro, não é conduzida por estruturas subordinadas a governos ou a disputas partidárias, mas por instituições que possuem autonomia e independência funcional.
Medidas investigativas são públicas, afetam reputações e produzem efeitos imediatos — muitas vezes antes de qualquer conclusão definitiva. Mas reconhecer esse impacto não significa desqualificar, de partida, a atuação de quem tem o dever de investigar.
Sem uma confiança mínima na independência dos órgãos de controle, qualquer investigação corre o risco de ser interpretada como parte da disputa que deveria, justamente, estar sendo observada com isenção.
O que está em jogo não é apenas a responsabilização de eventuais culpados, mas também a confiança nas instituições encarregadas de fiscalizar e agir quando há suspeita de atividades ilícitas.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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