O Brasil é plural. A fé faz parte da vida pública. O que não pode ocorrer é a substituição do debate político por apelos espirituais direcionados ao voto. Entre convicção religiosa e campanha eleitoral existe uma linha. A Justiça estabelece parâmetros. A cidadania deve vigiar seu cumprimento.
O TSE foi claro ao afirmar que igrejas não podem ser transformadas em plataformas eleitorais estruturadas. A fé não pode se converter em instrumento organizado de campanha.
Isso não significa impedir opinião ou expressão individual.
Líderes religiosos, como qualquer cidadão, têm direito a posicionamento. O limite surge quando a estrutura religiosa passa a funcionar como engrenagem de mobilização eleitoral com potencial de desequilibrar a disputa.
A decisão reafirma que não existe punição automática por presença em culto ou palavra de apoio. Para haver sanção, é necessário demonstrar uso indevido de poder, recursos ou influência com impacto concreto na igualdade do pleito.
Essa exigência protege tanto a liberdade religiosa quanto o próprio processo eleitoral.
Mas há um ponto que vai além do Judiciário.
A democracia não se sustenta apenas por decisões de tribunais. O cidadão é o maior fiscal desses valores.
Cabe à sociedade distinguir entre manifestação legítima e instrumentalização indevida da fé.
Quando a religião é utilizada como cabo eleitoral organizado, o prejuízo não é apenas jurídico — é institucional.
Voto e liberdade caminham juntos — e ambos só se mantêm íntegros quando são exercidos com responsabilidade.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.



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