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BR-319 na conferência sobre mudanças climáticas

Por Portal Do Holanda

05/12/2023 8h43 — em
Ombudsman



Nesta segunda-feira 4, o governador do Amazonas, Wilson Lima, levou a polêmica sobre a BR-319 para a COP 28, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em Dubai, nos Emirados Árabes. Conforme divulgado, WL garantiu que o governo do estado “está disposto a cumprir as condicionantes para viabilizar o projeto de pavimentação do chamado trecho do meio” da rodovia que liga o Amazonas ao estado de Rondônia.  A recuperação do trecho, afirmou WL, é necessário para combater a pobreza, garantir o desenvolvimento social e o Amazonas sair do isolamento terrestre, em relação ao restante do país. 

“Não se pode construir uma imagem de protetor da floresta colocando nossa população de joelhos. Não é justo que o povo do estado do Amazonas continue isolado do restante do Brasil. E nós não vamos  permitir que impeçam que a gente tenha contato com o restante do país por estrada”, afirmou. O discurso é semelhante ao proferido em 11 de junho de 2012, pelo então senador Alfredo Nascimento, quando reclamou do cancelamento de R$ 90 milhões para a recuperação da rodovia (publicado no Diário Oficial de 31 de maio, porque o projeto continuava sem licenciamento ambiental). Nascimento cobrou promessa da então presidente Dilma Rousseff.

“Ela tem uma dívida com nosso estado, comprometeu-se ainda em campanha a acompanhar a reconstrução da BR-319, remover os obstáculos e concluir a obra. É isso que eu, como senador, e o povo do meu estado esperamos da presidente, que ela assuma para si mesma a responsabilidade de concluir essa obra”, afirmou, conforme registrado no site do Senado Federal. “Isso é uma vergonha, manter o Amazonas no isolamento é uma vergonha para o país”. Também declarou que, pessoalmente, se esforçou em prol da rodovia desde quando ocupou a pasta dos Transportes, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. E também disse que conhecia o projeto como a palma de sua mão.  

Ainda de acordo com o site do Senado, Alfredo Nascimento lembrou que a BR-319 foi construída pelos militares, na década de 1970, e que seus extremos já estavam prontos, faltando apenas um trecho de 400 quilômetros, no meio. “Para recuperá-lo, não será preciso derrubar uma árvore sequer”, garantiu, acrescentando: “A conclusão da BR-319  exige  vontade política e esforço administrativo. É uma obra desafiadora, mas reúne todas as condições de ser concluída, não pode ser empurrada com a barriga desse jeito. Conheço a presidente Dilma, sua capacidade de enfrentar desafios, por isso peço a ela que assuma o comando do projeto, que libere o licenciamento ambiental e coloque as máquinas na pista”. 

Não é preciso dizer que o licenciamento ambiental até hoje não foi liberado e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, atraiu a ira de grande parte dos políticos do Amazonas, incluindo parlamentares do Congresso Nacional. Marina ficou 15 anos fora do governo, voltou em janeiro deste ano, mas a ela é atribuída a maior culpa pela não reconstrução da BR-319. Já não bastassem todas as críticas do passado e do presente, Marina incendiou ainda mais os ânimos, depois de uma declaração na CPI das ONGs, presidida pelo senador Plínio Valério (PSDB-AM). Era para falar sobre ONGs, mas o senador aproveitou para matar dois coelhos com uma só cajadada e a BR-319 entrou no roteiro. Resultado: de uma frase meio comprida da Marina, apenas duas ou três palavras foram “ouvidas”, repetidas à exaustão, inspirando manchetes e comentários. 

Marina afirmou, durante a sessão da CPI: “Não tenho dúvida de que as pessoas querem o direito de ir e vir, mas a viabilidade econômica e ambiental, a não ser que seja para converter as áreas de mais de 400 quilômetros de floresta virgem em outro tipo de atividade, não tem viabilidade. Ambientalmente e economicamente, não se faz uma estrada de 400 km no meio da floresta virgem, apenas para passear de carro se não estiver associada a um projeto produtivo”. Assim, o “apenas para passear de carro” foi traduzido como deboche, pouco caso e desprezo pelo direito de ir e vir dos amazonenses. Marina lembrou que esteve 15 anos fora do governo e questionou o motivo de, nesse período, a BR-319 não ter sido reconstruída. Pelo jeito, ninguém “ouviu”.


 DILMA PROMETEU, BOLSONARO TAMBÉM PROMETEU...

Uma rápida busca na internet mostra que, no final de julho de 2019, o agora ex-presidente Jair Bolsonaro prometeu asfaltar a BR-319, mesmo com o “orçamento destruído”. Reportagem do G1 AM publicada em 25 de julho daquele ano, informa que Bolsonaro, mesmo sem falar em prazo, prometeu asfaltar a rodovia. Fez o anúncio durante participação na reunião do CAS (Conselho de Administração da Suframa), em Manaus. "Conseguimos montar um gabinete em Brasília voltado para o viés técnico. Hoje, nossos ministros conversam entre si. E só por causa desse entendimento nós podemos, sim, mais que sonhar: termos a certeza de que a nossa BR-319 será asfaltada. Mesmo tendo pego o Brasil destruído economicamente. Com o orçamento mais que minguado", lê-se na reportagem. 

Bolsonaro, ainda de acordo com a reportagem, estava acompanhado do ministro da economia Paulo Guedes, “e representantes de estados da Amazônia Legal, incluindo o governador do Amazonas Wilson Lima”.  O texto também esclarece: “Ao longo do discurso, não se aprofundou nas medidas que serão tomadas para que seja efetivado o asfaltamento da rodovia Manaus-Porto Velho”. Porém, ao falar de uma transmissão ao vivo on line, no mesmo dia 25, Bolsonaro afirmou que existiam áreas da estrada para as quais não haviam sido emitidas licenças.  "Temos alguns trechos com licenciamento ambiental, que nosso ministro Ricardo Salles está conduzindo. Tenho certeza que (sic) todos nós ganharemos com essas obras na região amazônica", disse Bolsonaro, conforme a citada matéria.


E A MARINA SILVA? 

Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, acriana (nasceu num seringal do Acre), cujo nome completo é Maria Osmarina Marina da Silva Vaz de Lima, 65 anos, alfabetizada na adolescência, já exerceu o mesmo cargo entre 2003-2008. Ela, a exemplo do governador Wilson Lima, também está participando da COP 28. Aqui em Manaus, o site Amazonas Atual, diante do novo “bombardeio”, saiu em defesa da ministra. Editorial com o título “O mito Marina Silva e a BR-319”, publicado no domingo 3, afirma que Marina “se tornou o principal alvo da sanha da politicada amazonense”. “Atribuem a ela a responsabilidade por não permitir o asfaltamento da BR-319 e a tratam como a mulher má que não permite aos habitantes do Amazonas e de Roraima o direito de ir e vir”.

“Além dos políticos, uma parte considerável dos profissionais de comunicação tem recorrido ao discurso raivoso contra Marina Silva. A maioria desses discursos são feitos por homens, alguns, inclusive já tiveram a ousadia de falar presencialmente com o dedo em riste sobre o rosto da ministra”, prossegue o editorial, atribuindo a atitude ao fato de se tratar de uma mulher. “Quem fez ou faz isso, só fazem diante de uma mulher. Nunca se viu o mesmo comportamento diante dos homens que, mais do que Marina, deram as costas para o Amazonas depois de prometer asfaltar a rodovia. O principal deles, o ex-vice-presidente da República Hamilton Mourão”.

Tem mais: “Políticos e comunicadores raivosos atribuem a Marina Silva um poder que ela não tem. Enquanto gastam energia contra a mulher Marina, deixam de buscar ou apontar o dedo para os verdadeiros responsáveis pelo atraso na pavimentação da BR-319. Depois da saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente, em 2008, o governo Lula teve o ministro Carlos Minc, que ficou quase dois anos no comando da pasta. Depois, outra mulher, Izabella Teixeira, ficou durante quase seis anos – todo o governo de Dilma Rousseff. Nem Minc e nem Teixeira foram cobrado(a)s pelo não asfaltamento da BR-319”.


TORRE DE BABEL

Até a discussão desse problema é complexo. No próprio editorial é lembrado que, durante quase seis anos, uma outra mulher esteve no comando do Meio Ambiente. Mas ninguém teve a ousadia de falar “com o dedo em riste sobre o rosto da ministra”.  Então, por que isso tudo apenas com a Marina? Seria pelo seu aspecto físico, que levaria a ideia de fragilidade? Seja como for, revela-se uma atitude louvável um veículo de comunicação vir a público em defesa da mulher e ministra Marina. É o direito de opinião, que a democracia permite.  E sobre asfaltar ou não a BR-319, é assunto que se arrasta há tanto tempo que, mal comparado, lembra o mito da Torre de Babel, citado no Gênesis, da Bíblia. 

Interpretado como a tentativa de explicar a origem de tantos idiomas diferentes e gente espalhada pela Terra, o relato bíblico diz que os homens queriam construir uma torre muito alta para melhor ter comunicação com Deus. Mas o Todo Poderoso, que não gostava da prepotência dos homens, “decidiu lhes confundir a linguagem para que não compreendessem uns aos outros e os dispersou pela superfície da Terra”. Uma explicação também extraída do Google: “Babel era o nome da torre que, em hebraico, significa confusão de línguas, confusão de vozes”.

Seria pecado comparar a Torre de Babel com a pavimentação da BR-319, inaugurada em 1976, mas abandonada pelo poder público nas décadas de 1980 e 1990? Afinal, mesmo falando a mesma língua (pelo menos até agora), parece que as pessoas, envolvidas no caso, não estão se entendendo direito.


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O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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