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Consumo de pornografia por jovens pode se transformar em vício e prejudicar sexualidade

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A comercialização de material pornográfico é proibida para menores de 18 anos no Brasil e o crime está descrito no artigo 234, caput, do Código Penal. No entanto, há muito tempo, adolescentes são aguçados pela curiosidade e acabam se deparando com conteúdo adulto de diversas formas.

Nos anos 1980, Fabiano Nuanda se deparou com algumas revistas de conteúdo eróticos que foram escondidas pelo pai em casa. Ele tinha nove anos de idade na época. “Meu primeiro contato com algum tipo de pornografia foi com revistas em quadrinhos, de sexo explícito, mulheres nuas. A partir daí, era uma curiosidade constante”, lembra.

Fabiano admite que acabou se tornando um viciado: “Querer ver mais, mais e mais e me tornei viciado nisso. E não parou até meus 40 e poucos anos. Continuei consumindo inclusive com a era digital. Antes, você tinha que ir numa banca de jornal, comprar escondido para as pessoas ao lado não ver que você estava comprando”.

O psiquiatra Rodrigo de Almeida Ramos explica que o vício está relacionado a dependência de substâncias químicas, pessoas, jogo ou ainda comportamento sexual. A origem está ligada a fatores psicológicos e biológicos, podendo comprometer a qualidade de vida do indivíduo. “O comportamento viciante traz uma sensação de prazer e completude. É como se toda vida da pessoa passasse a fazer sentido após o contato com o elemento que produzirá dependência. Tirar o objeto faz com que ela volte a se sentir incompleta”, esclarece.

O excesso de pornografia e masturbação tem sido apontado como uma das hipóteses para a diminuição de atividade sexual entre jovens, na opinião da psicóloga Ana Canosa. 

Conteúdo pornográfico como fonte de aprendizado?

O filme pornô pode ser fonte de aprendizado, tanto como conhecimento da própria subjetividade (o que me excita), quanto sobre práticas sexuais em si, na avaliação da educadora sexual Ana Canosa. 

No entanto, a psicoterapeuta ressalta: “Na medida em que se restringem a produzir cenas eróticas baseadas em padrões de sujeição ou com modelos corporais estereotipados, o conteúdo adulto pode tornar o adolescente mais inseguro ou com convicções distorcidas sobre o que é o sexo entre duas pessoas na vida real”. 

Pornografia pode atrapalhar sexualidade do jovem

Por experiência própria, Fabiano Nuanda considera que o excesso de consumo de pornografia na juventude causou impactos na sexualidade dele. “O mundo pornográfico te mostra o sexo de uma forma não tão real. Cria histórias fantasiosas. Por exemplo, um filme mostra a empregada, que olha pra você quando não tem ninguém em casa e quer fazer sexo. Então, isso realmente influencia a cabeça das pessoas. Não só a minha como a dos meus amigos de toda uma geração”, afirma.

Fabiano conta que tentava reproduzir as cenas de sexo dos filmes com as namoradas. “Muitas gostavam. Mas, quando a namorada não quer fazer alguma coisa, infelizmente o jovem acaba procurando outra que aceita fazer. A pornografia influenciou minha vida sexual porque, através disso, abri os olhos para a sexualidade no mundo. Porém, acho que isso é muito precoce na adolescência. A gente só procura o sexo para o prazer e o amor fica de lado. Acho que as pessoas precisam se conhecer primeiro, ter um relacionamento de carinho e respeito e depois o sexo vir”, reflete. 

Para a educadora sexual Ana Canosa, o consumo de pornografia pode modificar a percepção de prazer dos jovens. “Diante da facilidade em acessar  filmes, e com todo tipo de temática, a satisfação sexual obtida no contato com o próprio corpo tem ganhado expressão. Se por um lado eu conheço meu corpo, por outro, quando a relação se estabelece com o outro, pode ficar mais difícil para manter a excitação”, avalia. 

Esse é um problema que tem afetado muitos homens nas relações amorosas na vida adulta. Se o sexo fica comprometido com a parceria, a masturbação rápida obtida através do estímulo com a pornografia se torna uma saída de compensação. Porém, isso afasta cada vez mais o casal da solução do problema.

Recursos visuais eróticos em excesso podem modificar a forma como sentimos prazer? Sobre isso, Ana Canosa conclui: “Há quem postule que o excesso de erotização visual acaba nos deixando quase que insensíveis, acostumados mesmo. O desejo é movido pela falta. Sem falta, comprometido está”.

Hoje, aos 44 anos de idade, Fabiano Nuanda decidiu deixar de lado o consumo de pornografia. Casado e com três filhos, ele faz uma outra leitura sobre o tema. “Eu converso com eles, principalmente com o de 14 e o de nove anos, pois a mais novinha tem só dois. Mas a gente vai por essa linha: que eles precisam conhecer pessoas, que respeitem o outro, que tenham afinidade, que possam ter amor e carinho e que esse carinho, esse amor e esse respeito, a consequência disso é o ato sexual. Não pode ser um ato sexual casual, de momento”.

Fabiano explica aos filhos que ser regido só pelo desejo pode causar consequências, como uma gravidez indesejada ou doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

 

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