Compartilhe este texto

Militares 'ruins de mato' usaram Raoni para caçar Che Guevara, revela livro de memórias do cacique

Por Folha de São Paulo

28/06/2025 6h30 — em
Variedades



BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS0 - Em 1967, a Força Aérea Brasileira realizou uma expedição na serra do Cachimbo, no Pará, e convidou o cacique Raoni Metyktire.

O pajé revela, quase 60 anos depois, que foi enganado. Disseram-lhe à época que buscavam ajuda para o caso de encontrarem outros indígenas. Muito depois, porém, ele saberia que o objetivo real daqueles "militares ruins de mato", como descreve, era usá-lo para caçar o guerrilheiro comunista Ernesto Che Guevara (1928-1967).

Essa e outras histórias são narradas por Raoni, uma das lideranças mais importantes do mundo no último século, no livro "Memórias do Cacique" (Companhia das Letras). A obra chega às livrarias nesta semana -um evento de lançamento acontecerá após ele se recuperar de uma doença.

Os relatos fazem um registro etnográfico e cosmológico da história ancestral dos mebêngôkre kayapós e do subgrupo metyktire, ao qual ele pertence: o mito da criação, os lugares por onde peregrinaram, guerras, a luta pela demarcação dos territórios e a relação com os "kube" (não indígenas).

A obra passa pela trajetória do cacique desde sua infância, lembrando que Raoni brincava de um jogo de bola quando criança, e pelo processo para se tornar pajé.

Também relata episódios da sua liderança de influência nacional e internacional, como a luta pelo Parque do Xingu e contra a usina de Belo Monte, a relação com personalidades como o presidente Lula (PT), os ex-presidentes Juscelino Kubitschek, José Sarney e Fernando Collor, e com figuras como o cantor Sting, o rei Leopoldo 3º (da Bélgica) e o papa João Paulo 2º.

O texto parte de entrevistas com o cacique, em língua nativa, conduzidas por seus netos Paimu Muapep Trumai Txukarramãe, Patxon Metyktire e Beptuk Metuktire.

Eles e o antropólogo Fernando Niemeyer traduzem os relatos para o português e adaptam para a narração em primeira pessoa, preservando traços do modo de falar e da tradição oral, com repetições e raciocínios encerrados em frases como "era assim que vivíamos".

Em entrevista à Folha mediada por Patxon e o editor do livro, Ricardo Teperman, o cacique diz que muitos já o procuraram para escrever essas memórias, mas pela primeira vez a empreitada, enfim, foi adiante.

"Sonhei com isso", diz. "Muitos me visitam e me orientam para fazer este meu trabalho. Essas visitas são espirituais."

Há registros de cantos, na língua mebêngôkre e em português, e detalhes culturais como técnicas de caça, culinária, cura, rituais, encantamentos, danças, festas e adornos, bem como sobre a função cerimonial do choro.

Entre as histórias, o cacique relata, com ironia e irritação, a expedição na serra do Cachimbo. "Bem mais tarde vim a saber que esses militares estavam indo procurar pelo guerrilheiro Che Guevara", conta.

A parceria com lideranças indígenas era comum para auxiliar em caso de contato com outros grupos durante as missões --neste caso, os krãjakàràs. Raoni narra que os militares eram totalmente despreparados, com exceção do cozinheiro. Alguns dormiam em cima de formigueiros, e um alemão quase se afogou.

O indígena ironiza o racionamento de comida no meio de uma floresta abundante em animais. "Por que isso?" Por mais de uma vez, ele caça para o grupo e precisa resgatar soldados perdidos, sem deixar de dar broncas.

Com fome e fracos, os militares pediam que Raoni convencesse o coronel a encerrar a missão. "Temos medo dele. Você consegue", disse um militar. Ele atendeu ao apelo e teve sucesso, para aplausos e euforia da tropa. Armaram um mastro, e o próprio cacique hasteou a bandeira nacional.

A expedição termina sem encontrar indígenas nem Che --que seria morto em outubro de 1967, na Bolívia.

Os relatos não trazem datas, uma vez que os indígenas não contam o tempo da mesma forma que os brancos, e os locais por onde os povos passam são chamados pelos nomes originais. No livro, as memórias são acompanhadas de um glossário, uma linha cronológica e textos de apoio (é nesse material que se identifica a data da operação em busca de Che Guevara).

Assim, a obra traça um mapa e uma história ancorados na tradição oral mebêngôkre.

Raoni explica: o mundo surge a partir de Iprere, que cria tudo. Seu povo chega na Terra quando um indígena, ao cavar uma toca de anta, vai tão fundo que atravessa o chão e, abaixo, avista uma floresta de buritis. Ele e outros descem pelo buraco, e assim os metyktires começam sua jornada.

As visões e interações com espíritos fazem parte de seu cotidiano. A obra, assim, ganha brilho ao tratar essas passagens não do ponto de vista do exótico ou sobrenatural, mas a partir da naturalidade de quem vive em dois mundos, transformando-os em registro histórico afastado do fantasioso.

É assim, por exemplo, que ele mostra os "processos para virar pajé". A jornada começa em delírios de criança e passa por uma picada de cobra da qual, para se curar, ele interage com pajés, espíritos de peixes, de abelhas, de corujas, e chega a subir ao céu.

Por um lado, o livro mostra a proximidade dele com figuras não indígenas, como os irmãos Cláudio, Leonardo e Orlando Villas-Bôas. Por outro lado, lembra do cacique guerreiro que caça brancos, quase mata um presidente da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e se coloca na mira de espingardas e rifles.

Há no livro diversos apelos à preservação da floresta e críticas à exploração de minerais, "que hoje os brancos querem tirar debaixo da terra".

Ele critica o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) -que diz soprar para longe de seus sonhos- e celebra as demarcações feitas por Collor.

Lembra ainda a recente subida pela rampa do Palácio do Planalto na posse de Lula, em 2023, mas lamenta que, em gestões petistas, os brancos "conseguiram enganar os parentes e fazer a barragem" de Belo Monte -a campanha mundial contra o empreendimento é objeto das memórias do cacique, assim como a demarcação de outros territórios pelos quais lutou.

Raoni é natural da aldeia Kapôt Nhinore, nordeste de Mato Grosso. Ele não foi registrado ao nascer, mas, a partir de seus relatos, Fernando Niemeyer calcula de forma inédita que o ano foi 1937. A data exata Raoni revela no livro -claro, pela sua forma de ver o mundo.

"O dia em que Tapiêt [cacique ancestral] chegou com seu pessoal em Krãjmopryjakare [uma aldeia] foi justamente o dia em que eu nasci."


Siga-nos no
O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

ASSUNTOS: Variedades

+ Variedades