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O Carnaval da Máquina: quando o PT atravessa o limite


Por Hissa Abrahão

17/02/2026 11h54 — em
Hissa Abrahão



O que aconteceu na Sapucaí não foi apenas um desfile. Foi uma demonstração explícita de como o PT enxerga o Estado: como extensão do partido. O enredo da Acadêmicos de Niterói, que transformou Lula em herói mítico, exaltou seus programas de governo e ridicularizou o ex-presidente Jair Bolsonaro como um palhaço preso, não foi simples expressão artística. Foi palanque coreografado.

A narrativa de que tudo não passa de “homenagem cultural” soa conveniente demais. Cultura é livre, sim. Mas dinheiro público não é brinquedo ideológico. Se houve repasse federal às escolas de samba, e o próprio governo anunciou milhões destinados ao setor, a pergunta é inevitável: estamos diante de promoção cultural ou de construção simbólica financiada pelo contribuinte para favorecer quem já ocupa o poder?

O presidente desceu do camarote, vestiu as cores da escola, interagiu com a encenação que o transformava em personagem messiânico. Não houve constrangimento institucional. Houve celebração aberta. O Planalto pode até alegar cautela ao impedir ministros de desfilarem, mas a mensagem já estava dada: o carnaval virou extensão da narrativa governista.

E não foi um enredo neutro. Foi um desfile com lado. Com ataque explícito ao principal adversário político. Quando o Estado financia, direta ou indiretamente, espetáculo que promove um candidato e ridiculariza outro, a democracia entra em terreno escorregadio.

A defesa automática de que “especialistas dizem que não é campanha antecipada” ignora o contexto político real. A legislação eleitoral existe para impedir que quem está no poder utilize sua posição para ampliar vantagem competitiva antes do período oficial de campanha. Se a máquina pública estiver sendo usada para fortalecer imagem eleitoral, não estamos diante de folclore. Estamos diante de possível abuso.

O PT construiu sua história acusando adversários de uso indevido do Estado. Agora, no comando da estrutura federal, testa até onde pode ir. A avenida virou palco de autopromoção. O samba virou ferramenta de narrativa eleitoral.

E o contraste é inevitável: decisões duras foram aplicadas contra Bolsonaro em nome da igualdade eleitoral. Se há coerência institucional, ela deve valer para todos. Democracia não pode funcionar com dois pesos e duas medidas.

O problema aqui não é gostar ou não de Lula. O problema é o limite entre governo e campanha. Entre cultura e propaganda. Entre promoção institucional e promoção pessoal.

Se o Brasil aceitar que recursos públicos sejam usados para construir mitologia eleitoral de quem está no poder, estará normalizando a fusão entre partido e Estado, algo que toda democracia madura combate.

O carnaval é do povo. O dinheiro é do contribuinte. A máquina pública não pertence ao PT.

A questão agora não é estética. É institucional. Ou há igualdade na aplicação das regras eleitorais, ou o país estará admitindo que quem controla o Estado controla também o espetáculo.

E quando o espetáculo vira estratégia de poder, a democracia paga a conta
 

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