A farsa da autodeterminação dos povos
A farsa da autodeterminação dos povos: O discurso anti-imperialista
A frase mais absurda é afirmar que a Venezuela é capaz de resolver seus problemas sozinha. Por que o discurso “anti-imperialista” serve apenas para sustentar um regime ditatorial. A Farsa da autodeterminação dos povos - soberania deve ser do povo, não do regime ilegítimo.
Nos últimos anos, um dos argumentos mais repetidos por setores da esquerda latino-americana para relativizar ou mesmo justificar a tragédia venezuelana tem sido o apelo à suposta não interferência externa: “o povo da Venezuela deve resolver seus próprios problemas”. À primeira vista, o discurso parece respeitar um princípio clássico das relações internacionais, a autodeterminação dos povos. Na prática, porém, trata-se de uma simplificação grosseira da história e de uma negação deliberada da realidade política, institucional e militar da Venezuela contemporânea.
A frase mais absurda desse debate é justamente esta: “a Venezuela é capaz de resolver seus problemas sozinha”. A história mundial demonstra exatamente o contrário. O mundo nunca foi um conjunto de ilhas isoladas, nem política, nem economicamente, nem militarmente. A interdependência entre Estados antecede em muito a globalização do século XXI.
A Primeira Guerra Mundial é a prova histórica mais didática dessa realidade. Em 1914, um atentado localizado — o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo — desencadeou uma reação em cadeia que envolveu alianças militares, interesses estratégicos e compromissos diplomáticos. O que começou como um conflito regional rapidamente se transformou em uma guerra de proporções globais. Nenhum país relevante disse: “a Áustria-Hungria e a Sérvia que resolvam isso sozinhas”. Isso porque ninguém resolve conflitos sistêmicos isoladamente. Quando uma crise afeta alianças, comércio, estabilidade regional e segurança internacional, ela deixa de ser um assunto interno.
A Segunda Guerra Mundial desmonta de forma ainda mais definitiva o argumento da omissão internacional. O nazismo cresceu dentro da Alemanha por meios que, à época, pareciam legais e institucionais. Se o mundo tivesse adotado a lógica hoje aplicada à Venezuela — “o povo alemão resolve sozinho” — o resultado teria sido ainda mais devastador. Foi necessária a ação coordenada de potências democráticas e aliadas para conter um regime genocida, libertar territórios ocupados e pôr fim a uma máquina de extermínio. A lição histórica é clara: a omissão internacional diante de regimes autoritários consolidados não preserva a soberania dos povos; apenas fortalece tiranos.
Autodeterminação não é um cheque em branco para ditaduras. Ela pressupõe condições mínimas: eleições livres, Judiciário independente, Forças Armadas institucionais e não partidárias, liberdade de imprensa e oposição política com direitos garantidos. Quando esses pilares deixam de existir, não há autodeterminação, há captura do Estado. Na Venezuela, esse processo ocorreu de forma gradual ao longo de 25 anos, sob os governos de Hugo Chávez e, posteriormente, de Nicolás Maduro, em um regime cada vez mais fechado, repressivo e militarizado.
A gravidade do caso venezuelano ultrapassa a de uma ditadura ideológica clássica. Diversas investigações internacionais apontam para a existência do chamado Cartel de los Soles, uma estrutura criminosa que envolve altos oficiais das Forças Armadas, narcotraficantes internacionais e o uso do próprio Estado como aparato logístico do tráfico de drogas. Portos, aeroportos, rotas de cocaína e armamentos passaram a ser controlados por agentes que deveriam proteger a legalidade. Quando um general se associa ao narcotráfico, ele deixa de ser autoridade republicana e passa a integrar uma organização criminosa. Na Venezuela, o problema é que esses indivíduos continuam controlando o Executivo, o Judiciário e o Parlamento, além de reprimirem opositores políticos.
Nesse contexto, afirmar que “o povo resolve sozinho” é ignorar deliberadamente que esse povo está desarmado, vigiado, sem Judiciário independente e sem Forças Armadas nacionais, pois estas foram cooptadas. Não se trata de incapacidade moral ou política do povo venezuelano, mas de impossibilidade estrutural.
Outro argumento recorrente é a acusação de “imperialismo americano”, supostamente motivado pelo petróleo venezuelano. Trata-se de uma crítica seletiva e intelectualmente desonesta. A Venezuela mantém parcerias estratégicas com Rússia, China e Cuba. Alguém acredita seriamente que esses países agem por altruísmo ideológico, solidariedade latino-americana, ou que estão interessados somente no sabor da arepa? Evidentemente não. O interesse é geopolítico e energético, como ocorre com qualquer grande potência. A diferença está no regime interno: parcerias feitas por ditaduras concentram renda, poder e recursos; parcerias feitas por democracias, com instituições funcionando, tendem a gerar benefícios sociais mais amplos. O petróleo não empobreceu a Venezuela por existir, mas por estar sob controle de uma elite autoritária associada a interesses externos que não passam pelo povo.
A farsa eleitoral completa esse quadro. Ao longo dos últimos anos, a legitimidade das eleições venezuelanas foi sistematicamente questionada por países e organismos internacionais. Processos eleitorais classificados como não livres nem justos, opositores presos, exilados ou impedidos de concorrer e a perda total de credibilidade institucional tornaram-se a regra. O fato de o principal nome da oposição reconhecido internacionalmente, Edmundo González, viver hoje no exílio é, por si só, mais uma prova da perseguição política vigente.
Nenhuma democracia madura exige que um povo enfrente sozinho um Judiciário capturado, Forças Armadas criminosas e um Estado convertido em braço do narcotráfico. Defender apoio internacional à Venezuela não é negar soberania; é tentar reconstruí-la. A história mundial é inequívoca: conflitos locais escalam quando o mundo ignora interdependências; regimes totalitários prosperam quando a omissão prevalece; e ditaduras criminalizadas se perpetuam quando a comunidade internacional fecha os olhos.
Dizer que o povo venezuelano resolve tudo sozinho não é defesa da autodeterminação. É comodismo moral, cegueira histórica e conivência prática com uma ditadura que sequestrou o Estado, a economia e o futuro de uma nação inteira. O PETISMO corrupto que espalha inverdades, apodrece a cada dia e ninguém esta aguentando mais o seu odor.
ASSUNTOS: Hissa Abrahão