O debate sobre nióbio e terras raras no Brasil costuma ser carregado de entusiasmo e, muitas vezes, de equívocos. O país é líder absoluto na produção de nióbio e detém uma das maiores concentrações conhecidas do mundo, além de possuir potencial relevante em terras raras. Isso cria a percepção de que o Brasil estaria sentado sobre uma riqueza capaz de transformá-lo automaticamente em potência econômica global. No entanto, é preciso separar orgulho mineral de estratégia econômica real.
O nióbio é um metal utilizado principalmente para fortalecer o aço. Pequenas quantidades aumentam a resistência, reduzem peso e ampliam a durabilidade de estruturas como pontes, gasodutos, automóveis e turbinas aeronáuticas, entretanto, as terras raras, um conjunto de 17 elementos químicos, são essenciais para tecnologias modernas: celulares, carros elétricos, turbinas eólicas, sistemas de defesa e equipamentos espaciais. São insumos invisíveis e de suma importância para a indústria do século XXI.
O problema é que possuir reservas minerais não equivale a controlar o mercado desses materiais. A China domina as terras raras não apenas porque extrai minério, mas porque controla o refino, o processamento químico, a fabricação de componentes e a indústria final. Ela domina a cadeia produtiva completa. O mesmo raciocínio vale para qualquer mineral estratégico: quem controla as etapas industriais e tecnológicas é quem detém influência econômica real.
É aqui que se estabelece a distinção central: ter recurso natural não é o mesmo que ter poder geoeconômico. O recurso está no subsolo; o poder está na capacidade de transformar, industrializar, inovar e liderar mercados globais. Exportar minério bruto gera receita, mas controlar a cadeia de valor gera influência, tecnologia, empregos qualificados e capacidade de negociação internacional.
O Brasil, ao longo de décadas, estruturou-se majoritariamente como fornecedor de commodities. No caso do nióbio, há um exemplo de gestão empresarial eficiente, mas a nossa verticalização tecnológica é muito limitada. Em terras raras, o país possui potencial, porém carece de domínio industrial em larga escala. Sem investimento consistente em pesquisa, processamento avançado e política industrial coordenada, continuaremos ocupando a posição de fornecedor primário.
Em um mundo de disputas estratégicas e reorganização das cadeias globais, a verdadeira oportunidade brasileira não está apenas na eventual escassez internacional nem em conflitos externos, mas na decisão interna de agregar valor. A riqueza do século XXI não está apenas na mina; está na fábrica, no laboratório e na tecnologia. Sem dominar a cadeia de valor, teremos recursos naturais. Mas não teremos poder geoeconômico. Conflitos internacionais (eua x Irã) geram inúmeras oportunidades econômicas, mas fica a pergunta. Até quando vamos perder oportunidades de desenvolvimento?
Hissa Abrahão
Hissa Abrahão é economista, professor universitário, mestre, doutorando, ex-deputado federal e vice-prefeito de Manaus.
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