Quando governos vão enfrentar o crime?
Quando governos vão enfrentar o crime? Quem realmente financia o Brasil?
A pergunta parece provocação, mas é diagnóstico: no Brasil de hoje, o crime organizado investe mais que o próprio Estado em territórios, infraestrutura e poder. Estima-se que facções movimentem cerca de R$ 348 bilhões por ano, enquanto o gasto público com segurança gira em torno de R$ 153 bilhões. Não é apenas uma diferença contábil, é uma assimetria de poder que explica por que o país ainda convive com mais de 34 mil mortes violentas anuais.
O Estado gasta muito, mas gasta mal: prioriza folha, reage a crises e patrulha sintomas, enquanto o crime investe estrategicamente — em logística, tecnologia, cooptação local e domínio territorial. Onde o poder público se dispersa, a facção consolida presença; onde o orçamento não vira resultado, o sangue vira estatística.
Inúmeras áreas no Brasil, estima-se que cinquenta milhões de brasileiros vivem sob domínio territorial que não do estado de direito, e em áreas de conflito armado constante. Ali, o “investimento” do crime é cotidiano: regras paralelas, tribunais informais e economia ilegal funcionando melhor que serviços públicos. Já o Estado aparece esporadicamente, sem continuidade e sem estratégia financeira contra o topo das organizações.
A disparidade revela um fracasso institucional: combatamos o varejo do crime enquanto seu atacado cresce bilionário. Sem atacar lavagem, fluxo de dinheiro e lideranças, continuaremos gastando bilhões para perder território.
Enquanto o país debater segurança como guerra ideológica, o crime seguirá vencendo como negócio. Só quando o Estado investir melhor, e quebrar o caixa das facções, deixaremos de ser superados por quem nunca foi eleito e ainda assim governa vidas e territórios.
OBS: Quando a violência explode, o Estado tende a responder com força bruta específica, elevando mortes sem recuperar o controle territorial; isso produz uma aparência momentânea de ordem, mas fortalece facções no médio prazo, porque legitima sua narrativa de proteção local e alimenta ciclos de retaliação. Já onde há menos letalidade combinada com presença contínua do Estado — inteligência, investigação financeira, policiamento profissional, serviços públicos e previsibilidade jurídica — a segurança cresce de forma sustentável, porque o crime perde apoio social, perde dinheiro e perde território. O nexo causal que deveria prevalecer é: investimento qualificado → desmonte econômico das facções → redução estrutural de homicídios → mais segurança real. No Brasil, porém, ainda predomina o nexo invertido: crise → resposta violenta → pico de mortes → retração estatal → retorno das facções. Romper esse ciclo exige compreender que segurança não nasce do número de confrontos, mas da capacidade permanente do Estado de governar territórios, proteger vidas e quebrar o caixa do crime.
ASSUNTOS: Hissa Abrahão