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O fim da Magnitsky, terras raras em negociação e a abreviação do desenvolvimento do Amazonas


Por Hissa Abrahão

16/12/2025 13h55 — em
Hissa Abrahão



O governo brasileiro decidiu atravessar uma linha perigosa na política internacional: usar o esvaziamento das sanções da Lei Magnitsky como moeda de troca diplomática. Não se trata de pragmatismo, nem de realismo estratégico. Trata-se de conveniência política crua, feita às pressas, sem projeto nacional e sem qualquer compromisso com soberania, ciência ou desenvolvimento de longo prazo, especialmente no Amazonas.

A Lei Magnitsky existe para responsabilizar violadores graves de direitos humanos e agentes de corrupção sistêmica (é uma lei que protege empresas americanas, impedindo-as de fazerem negócios com empresas que tenham sancionados como clientes) Quando o Brasil aceita relativizar esse instrumento em troca de acordos circunstanciais, envia uma mensagem clara ao mundo: princípios são negociáveis, ativos estratégicos são descartáveis e o futuro pode ser trocado por alívio político imediato. Não é diplomacia madura, é entreguismo disfarçado de negociação.

Nesse contexto, as terras raras entram como ficha de barganha. O Brasil detém reservas estratégicas, muitas delas concentradas na Amazônia, capazes de sustentar um projeto nacional de ciência, engenharia de materiais, indústria de alto valor agregado e inserção real nas cadeias globais do século XXI. No entanto, mais uma vez, opta-se pelo caminho mais curto: negociar o recurso, não o desenvolvimento; exportar o minério, não o conhecimento; abrir mão do processamento, da pesquisa e da formação de capital humano.

O Amazonas é o maior prejudicado dessa escolha. Ao invés de se tornar polo de tecnologia, processamento avançado, centros de pesquisa e formação de engenheiros, físicos e químicos, o estado segue aprisionado ao modelo extrativista colonial, agora chamado de modernidade verde. Fala-se em transição energética, mas pratica-se dependência tecnológica. Fala-se em soberania, mas negocia-se como economia periférica.

O Brasil reúne condições raríssimas no mundo atual: matriz elétrica majoritariamente limpa, excedente de energia, território estratégico e ativos minerais críticos. Isso permitiria exigir que ciência ficasse aqui, que processamento ficasse aqui e que o valor ficasse aqui. Nada disso foi feito. Preferiu-se negociar rápido, silenciosamente e politicamente conveniente. O resultado é conhecido: poucos negociam, poucos se protegem e o país inteiro fica fora da conta.

Ao transformar o fim das sanções da Magnitsky em instrumento de barganha, o Estado brasileiro inaugura um precedente grave. Mostra que não possui estratégia de longo prazo, que confunde soberania com alinhamento ideológico e que aceita abrir mão de ativos estruturantes sem exigir contrapartidas reais. Isso não constrói futuro, não gera valor para o brasileiro médio e não cria um projeto nacional, apenas adia o inevitável ajuste de contas com a história.

O Brasil tinha todas as cartas para subir de patamar, para transformar terras raras em poderio tecnológico e o Amazonas em eixo de desenvolvimento avançado. Preferiu trocar tudo isso por conveniência política de curto prazo.

Trump não pensou duas vezes: se for bom para os EUA, ele faz — e não quer nem saber se vai agradar ou desagradar Bolsonaro, Lula, Janja ou Moraes. Para ele, importa o povo americano. E agora o Brasil inaugura oficialmente a etapa do “jeitinho Magnitsky” de fazer política.

Esse é o Brasil.
 

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