Teoria econômica do crime
Teoria Econômica do Crime
Máquina Financeira das Facções no Amazonas – 3/3
O estado do Amazonas abriga hoje uma das economias ilícitas mais complexas do Brasil. Não se trata apenas da presença de facções — trata-se da consolidação de um ecossistema criminal lucrativo, organizado e territorializado, que opera a partir de três pilares financeiros: tráfico internacional de cocaína, mineração ilegal e madeira ilegal. Esses três motores, sozinhos, representam 80% de todo o faturamento das facções no estado. A razão disso não é apenas criminológica, é econômica.
O Amazonas é o coração da rota fluvial da cocaína produzida na Venezuela, no Peru e na Colômbia. Cada quilo que entra pelos rios Solimões e Javari multiplica seu valor à medida que avança pelo território brasileiro. A logística ribeirinha extensa, de fiscalização baixa e custo operacional reduzido, transforma o tráfico de cocaína em um negócio de altíssima margem. Na lógica da Teoria Econômica do Crime, de Gary Becker, o criminoso escolhe a atividade com maior retorno esperado e menor risco institucional. A cocaína, no Amazonas, domina exatamente por isso: o risco de apreensão é baixo, a probabilidade de punição é ínfima e o lucro é extraordinário.
O segundo grande motor é a mineração ilegal de ouro. No Amazonas, o ouro não é apenas um produto , é uma moeda paralela de lavagem. A economia do garimpo ilegal funciona como sistema bancário do crime organizado: financia operações, compra lealdade, corrompe agentes, lubrifica engrenagens políticas e converte o lucro do tráfico em riqueza difícil de rastrear. O ouro, pela teoria econômica do crime, preserva valor mesmo com repressão policial. A mineração ilegal cresce, portanto, porque os incentivos econômicos são maiores que os custos jurídicos.
A madeira ilegal forma o terceiro pilar. O mercado clandestino de extração, transporte e “legalização simulada” da madeira se tornou uma renda estável, uma espécie de previdência do crime. A grilagem, o desmatamento e o comércio ilegal criam uma cadeia produtiva criminosa. Aqui se aplica a leitura de Isaac Ehrlich: o crime cresce quando se cria um mercado paralelo eficiente, capaz de manter relações contínuas entre oferta e demanda. No Amazonas, a madeira ilegal é exatamente esse mercado: contínuo, previsível, resistente.
Juntas, essas três economias movimentam milhões por mês. As demais fontes, extorsões, contrabando, maconha, pesca e fauna completam o sistema, garantindo fluxo de caixa diário e capilaridade territorial. É um modelo empresarial: o tráfico é o “grande atacado”, a mineração e a madeira são o “investimento de capital”, e as pequenas extorsões são o “varejo”. As facções no Amazonas operam como organizações híbridas.
Esse contexto se torna ainda mais relevante diante do recém aprovado Marco Legal da Segurança Pública. Pela primeira vez, o Brasil estabelece diretrizes nacionais obrigatórias, com metas, indicadores e responsabilidades claras entre União, estados e municípios. No entanto, a eficácia do Marco dependerá de algo fundamental para a realidade amazônica: a capacidade do Estado de elevar o “custo do crime” acima do lucro do crime, princípio central da Teoria Econômica do Crime. Hoje, nos rios e fronteiras do Amazonas, ocorre o contrário: o lucro é alto, o risco é baixo e a presença estatal é fragmentada. As facções respondem aos incentivos que são oferecidos.
O Marco Legal, se implementado com prioridade amazônica, pode inverter essa lógica, integrando inteligência, forças armadas, PF, Ibama, Funai e polícias estaduais em uma arquitetura permanente de presença e repressão. Mas, se não houver controle territorial efetivo, todas as diretrizes serão apenas normativas e as facções continuarão operando como empreendimentos de alta performance num ambiente institucional enfraquecido.
Hissa Abrahão é economista, professor universitário, mestre, doutorando, ex-deputado federal e vice-prefeito de Manaus.
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