A maloca que o próximo governador precisa construir
- Em pleno Carnaval, quando o país ainda canta Saudosa Maloca, vale lembrar que o problema da música nunca foi a derrubada do barraco, mas o que veio — ou não veio — depois.
- No Amazonas, a maloca que permitiria à população continuar vivendo no território, enfrentar a cheia e atravessar a seca sem colapso logístico ainda não existe. Não feita de madeira ou palha, mas de estrada que funcione, energia que não falhe, capacidade de armazenar e meios de comunicação.
- O estado tornou previsível a imprevisibilidade. Cheias e secas fortes, isolamento e falta de energia já não são exceção: fazem parte da rotina. Mesmo assim, a resposta do poder público continua sendo pontual, quase sempre depois que o problema já aconteceu — como se cada evento extremo fosse inesperado, quando, na verdade, ele já está no calendário.
A maloca institucional que ajudaria a atravessar esses ciclos ainda não foi construída. Erguer esse tipo de proteção não é tarefa para estreantes, mas para quem já conhece, na prática, o que significa governar no meio da cheia, da seca e do isolamento — e sabe que, por aqui, permanecer exige mais do que promessa.
Ribeirinhos, pequenos produtores e comunidades inteiras continuam expostos a riscos que deixaram de ser extraordinários. Sem estrada o ano inteiro, sem energia estável e sem condições de guardar o que produzem, permanecer no território vira um exercício de sobrevivência. Não se trata de vencer a natureza, mas de reduzir os efeitos que ela traz e que já são conhecidos.
ASSUNTOS: Amazonas, carnaval, SAUDOSA MALOCA
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.