O crime não atua apenas como um fenômeno social ou penal, mas como um choque permanente sobre a economia e o setor produtivo. A criminalidade altera a lógica de incentivos que sustenta decisões de investimento, consumo, trabalho e inovação, elevando o risco sistêmico, corroendo a confiança e distorcendo a alocação de recursos. Onde o crime é elevado, o crescimento econômico não é menor por acaso, é estruturalmente bloqueado por fatores que operam desde a percepção de risco até a capacidade real de empreender.
Toda atividade econômica depende da previsibilidade, e confiança é tudo, como bem lembrava Adam Smith em “A Teoria dos Sentimentos Morais”, ao enfatizar como a confiança mútua entre indivíduos é condição para a cooperação econômica e para o funcionamento eficiente dos mercados. Quando a criminalidade rompe esse equilíbrio, introduz incertezas que não podem ser plenamente precificadas ou seguradas: roubo de cargas, extorsão, violência contra trabalhadores, interrupções logísticas, sabotagem e custos crescentes de proteção. O resultado imediato é a retração do investimento, a fuga de capital e a substituição de projetos produtivos por aplicações defensivas ou especulativas. O capital não abandona territórios violentos por ideologia, mas por racionalidade econômica diante de riscos sistêmicos elevados.
Esses efeitos diretos representam apenas uma parte do impacto econômico da criminalidade. O crime gera uma economia oculta de custos indiretos que raramente aparece nos indicadores tradicionais, mas que corrói silenciosamente o crescimento. A desvalorização imobiliária, o encarecimento dos seguros, a retração do comércio noturno, a fuga de turistas, a perda de economias de aglomeração e o aumento do custo de crédito — sobretudo para pequenas e médias empresas — funcionam como um imposto informal regressivo sobre toda a economia. Segundo estimativas consolidadas, a violência custa ao Brasil algo em torno de 11% do Produto Interno Bruto — mais de R$ 1 trilhão ao ano — quando se contabilizam custos diretos, indiretos e efeitos multiplicadores. Esse cálculo combina estimativas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisas de impacto econômico que ampliam o conceito de custo social da criminalidade para além dos gastos explícitos com segurança ou perdas patrimoniais.
A violência também atua como freio direto à inovação e à produtividade. Inovação exige confiança institucional, cooperação entre agentes e planejamento de longo prazo. Ambientes violentos destroem esses três elementos simultaneamente. Empresas evitam investir em capital humano, pesquisa, tecnologia e modelos de negócio intensivos em conhecimento quando a insegurança é permanente. Não por acaso, regiões dominadas pelo crime tendem a se especializar em atividades de baixo valor agregado, com baixa produtividade e alta informalidade. Nessas condições, o crime empurra a economia para baixo na escada da complexidade produtiva, reduzindo o potencial de ganhos de produtividade que sustentam o crescimento de longo prazo.
Quando a criminalidade se combina com fragilidade institucional, o efeito sobre o crescimento se intensifica. Onde a aplicação da lei é seletiva ou ineficiente, empresas que operam dentro da legalidade enfrentam desvantagem competitiva frente a aquelas que se apoiam em proteção criminosa, milícias ou redes de corrupção. O mercado deixa de premiar eficiência e passa a premiar poder informal, gerando seleção adversa, reduzindo a produtividade média e comprometendo a qualidade do ambiente de negócios. O crescimento, quando ocorre, tende a ser concentrado, artificial e instável.
Os efeitos intertemporais da criminalidade também são relevantes. Sistemas penais ineficientes, superlotados e incapazes de reduzir a reincidência transformam a criminalidade em um ciclo contínuo de destruição de capital humano. A juventude, especialmente em áreas vulneráveis, entra cedo no mercado ilícito, sai com baixa empregabilidade e, frequentemente, retorna ao crime, reduzindo a base produtiva futura e ampliando a dependência de gastos públicos improdutivos.
Reduzir a criminalidade, portanto, não cria crescimento por decreto, mas remove um bloqueio estrutural ao desenvolvimento econômico. Quando o crime recua, o risco sistêmico diminui, o custo do capital cai, o investimento retorna, a confiança se recompõe, a inovação se torna viável e a concorrência volta a operar com base em eficiência. Combater o crime é, sob a ótica econômica, uma política de eficiência e de expansão da fronteira produtiva, não meramente uma exigência moral ou jurídica.
A criminalidade não é um problema lateral ao desenvolvimento, ela é um dos seus principais entraves. Ao distorcer incentivos, destruir valor, expulsar capital e empobrecer territórios inteiros, o crime compromete o presente e sequestra o futuro. Por isso, reduzir a criminalidade é mais do que restaurar a ordem: é libertar o desenvolvimento econômico de uma de suas amarras mais profundas.
Hissa Abrahão
Hissa Abrahão é economista, professor universitário, mestre, doutorando, ex-deputado federal e vice-prefeito de Manaus.
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