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Hissa Abrahão

O futuro do voto jovem no Brasil

Hissa Abrahão
Por Hissa Abrahão
05/05/2026 19h44 — em Hissa Abrahão

O comportamento político da juventude brasileira está mudando, e isso não é percepção, é dado.

Levantamentos recentes da AtlasIntel indicam que, entre jovens de 16 e 17 anos, há uma inclinação relevante para posições de direita e centro-direita, algo que rompe com um padrão histórico no país. Durante décadas, o jovem brasileiro foi associado majoritariamente a pautas progressistas. Hoje, essa associação já não é automática.

Mas essa mudança não pode ser lida de forma superficial. Ela não é apenas ideológica — ela é geracional.

Para entender o que está acontecendo, é preciso sair da política imediata e entrar na estrutura de formação das gerações. Como já demonstrado na sociologia clássica, uma geração não se define apenas pela idade, mas pela combinação entre tempo histórico, eventos marcantes e a forma como esses indivíduos passam a interpretar o mundo.

E o que define a juventude atual?

Primeiro, trata-se de uma geração formada integralmente dentro da tecnologia. Diferente das anteriores, que foram socializadas por instituições tradicionais — escola, família, televisão —, essa juventude foi moldada por um ambiente de disputa aberta de narrativas, onde diferentes visões de mundo competem simultaneamente.

Segundo, essa geração cresceu em um ambiente de instabilidade contínua. Crises econômicas recorrentes, percepção de insegurança, descrédito institucional e frustração com promessas não cumpridas fazem parte do repertório formador desse grupo.

Terceiro, há uma mudança na forma de percepção da autoridade. Se antes a legitimidade vinha de instituições consolidadas, hoje ela é constantemente questionada. Isso produz um comportamento mais crítico, mas também mais volátil.

É nesse contexto que se formam os perfis geracionais atuais.

Há um grupo de jovens que reage à instabilidade buscando ordem, previsibilidade e segurança. Para esses, valores como disciplina, mérito individual e estabilidade institucional ganham força, o que pode se traduzir em inclinação a pautas conservadoras.

Outro grupo interpreta o mesmo cenário como sinal de injustiça estrutural, reforçando a busca por transformação social e maior intervenção estatal.

Ou seja, não há uma juventude homogênea. Há leituras diferentes da mesma realidade.

O que muda, no entanto, é o ponto de partida. Diferente de gerações anteriores, que tinham um eixo ideológico mais previsível, a juventude atual parte de um ambiente fragmentado, e isso abre espaço para deslocamentos políticos mais amplos.

O crescimento da identificação com a direita entre jovens de 16 e 17 anos, apontado pela AtlasIntel, deve ser lido dentro desse quadro. Não se trata simplesmente de uma “virada conservadora”, mas de uma resposta a um ambiente percebido como instável, competitivo e incerto.

Além disso, há um fator estrutural importante: a relação com o Estado. Essa geração cresceu vendo dificuldades econômicas persistentes, aumento do custo de vida e baixa mobilidade social. Isso influencia diretamente a forma como avalia políticas públicas, mercado e liberdade econômica.

O resultado é uma juventude menos previsível, menos alinhada automaticamente a um campo político e mais sensível às condições concretas do presente.

O impacto disso no futuro do voto é profundo.

Se antes era possível antecipar o comportamento eleitoral dos jovens com base em padrões históricos, hoje isso se torna mais arriscado. O voto jovem passa a ser um campo de disputa real, aberto, dinâmico, e decisivo.

No fim das contas, o que está em curso não é apenas uma mudança política.

É uma mudança geracional.

E quem não entender isso, continuará analisando o futuro com as categorias do passado.

Hissa Abrahão

Hissa Abrahão

Hissa Abrahão é economista, professor universitário, mestre, doutorando, ex-deputado federal e vice-prefeito de Manaus.

Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados nesta coluna não refletem necessariamente o pensamento do Portal do Holanda, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

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