Entenda os "assexuais", pessoas que não gostam de sexo

Por Portal do Holanda

26/07/2015 9h43 — em Bizarro

Wagner Oliva, de 23 anos, está prestes a se formar em engenharia mecânica, é bonito e inteligente. Em outras palavras, um partidão. Mas não espere que um belo decote, curvas sinuosas ou um belo papo possam fisgar o rapaz: ele é assexual, como ele próprio define e, portanto, não possui desejo por outras pessoas. Ainda que admire a beleza feminina, tocar e beijar, por exemplo, não habitam seu imaginário e causam até uma certa repulsa. O estudante faz parte de uma minoria que, sem problemas físicos ou histórico de abusos sexuais ou outros traumas que possam desencadear tal comportamento, precisam recorrer à internet para se aceitar.



Em geral, é no ambiente virtual que descobrem que não são doentes ou "extraterrestres", como Wagner diz, e aprendem a trocar experiências e a se identificar.

- Quando estava na quinta série percebi que não tinha a mesma obsessão por sexo que os meus colegas de escola. Primeiro achei que que fosse por causa da criação, já que cresci com meus avós, mas depois percebi que não era isso. As pessoas só tinham o mesmo assunto, então elas acabavam sentindo uma certa pena de mim, diziam que eu tinha batido a cabeça ou algo parecido- conta ele, que se identifica como assexual arromântico, ou seja, não tem intenção sexual ou afetiva por alguém.


Diferente de Wagner, a caixa Laíza (que não quer revelar o sobrenome), de 27 anos, passou por todas as fases de um relacionamento convencional, do beijo ao sexo, mas não consegue se lembrar de nada mais estranho do que o olhar "sedento" de um homem. Ela se identifica com um subgrupo de assexuais, o heterorromântico, que tem como característica o envolvimento emocional - sem fazer sexo. Ela inclusive anseia encontrar alguém com quem possa criar laços fortes, como os que manteve por sete anos com seu primeiro e único namorado. Sem conhecer sua orientação, ela tentou repetidas vezes se enquadrar no padrão de um casal "normal".



- Primeiro eu decidi fazer sexo para saber se era bom, mesmo sem sentir vontade. Depois, insisti porque pensei que acabaria gostando, mas com o tempo comecei a fazer porque era importante para o meu namorado. Cheguei a perguntar para o médico se tinha alguma coisa errada comigo e fiz todos os exames, e não tinha nenhum problema - diz.

A solidão é a maior dificuldade de Laíza. Para ela, estar com alguém seria basicamente causar uma frustração que ela conhece bem.

—Terminei o meu relacionamento porque ele tinha um interesse muito maior do que eu em fazer sexo. Eu sabia que ele queria, mas não sentia a mesma vontade. Cheguei a dizer que ele não precisava se sentir obrigado a me dar prazer e isso foi deixando ele mais chateado, então sou capaz de entender como é difícil estar comigo e querer algo que não posso oferecer. Por isso sei a chance de achar alguém como eu é pequena — afirma[Ana e o noivo são demissexuais e têm um forte vínculo emocional]
Ana e o noivo são demissexuais e têm um forte vínculo emocional



Segundo a professora Elisabete Oliveira, doutora em educação e especialista em assexualidade pela USP, apenas nos anos 2000, com a internet, assexuais de todo o mundo começaram a se identificar como um grupo e perceberam que a falta de atração sexual não necessariamente é fruto de um problema hormonal ou psicológico. Ela explica que, por essa razão, o termo "assexuado" caiu em desuso, pois remete a uma ausência de sexo, como acontece com uma boneca Barbie, por exemplo. A palavra assexual, por sua vez, dá conta de uma orientação específica e que, para ela, deve ser reconhecida.

— É importante que deixem de ser tratados como se tivessem uma patologia, assim como aconteceu com o homossexualismo, na década de 70. Estar à margem pode causar muito sofrimento para essas pessoas, imersas num mundo extremamente sexual e sofrendo uma cobrança enorme —, explica Elizabete.

A maior associação dedicada ao assunto no mundo, a Asexual Visibility and Education Network (Rede de Educação e Visibilidade Assexual, AVEN), funciona na internet. Ela criou uma bandeira que representa a comunidade em diferentes cores ou escalas de interesse sexual: a roxa mostra a coesão dos grupos assexuais; a branca, a fluidez sexual em toda a sua diversidade, desde de heterossexuais a bissexuais; a cinza, composta por assexuais que em algum momento pontual sentem atração sexual; e a preta, também de assexuais, que são o extremo oposto dos sexuais.

No meio da escala de cores

Nem preto, nem branco. Entre sexuais e assexuais, grupos ainda menos conhecidos espantam de vez a tentação de desenhar um mundo binário. Os demissexuais, na parte cinza da paleta de cores, englobam uma série de pessoas que, eventualmente, podem sentir atração por outras e, diferente do que acontece no veloz mundo da imagem, são os laços que abrem as portas para a atração sexual. Segundo a professora Elizabete, acontece poucas vezes na vida de alguém que se percebe demi e, portanto, costuma ser um encontro raro e especial. Eles são considerados assexuais porque a atração sexual não tem relação com o físico, e sim com laços afetivos.

É o caso da diretora de arte goiana Ana Yamaguti, de 27 anos, e o gerente de supermercado americano Zeke Raynor, de 24 anos, que vão se casar em outubro. Eles estão juntos há cinco anos, mas só começaram a namorar depois de dois anos. Depois de três meses, transaram pela primeira vez, o que ela define como “meio estranho”, mesmo que os dois já tivessem intimidade o suficiente.

— O gênero e o corpo são o que menos importa na nossa relação, tanto que não nos prendemos a tipos de roupas e outros detalhes. Não somos mesmo um casal convencional e sexo, para mim, é algo que faço por carinho, afeto à pessoa, e não seria capaz de fazer com um desconhecido. É importante, mas não é vital — explica. Fonte: Jornal Extra.