O mundo desconhecido das cigarras engenheiras

Mais conhecidas pelo canto, as cigarras têm também seu lado engenheiro. É geralmente na estação das chuvas que as ninfas que vivem em galerias nos solo constroem verdadeiras obras de engenharia, que se erguem como pequenos edifícios de barro circulares acima do chão. Compreender o crescimento dessa estrutura e o motivo pelo qual são construídas essas pequenas torres ainda é um mistério para os cientistas.
Nas trilhas do Museu da Amazônia, algumas dessas estruturas estão sendo preservadas para um estudo mais detalhado sobre o inseto. Na Amazônia, não há pesquisas conhecidas sobre o comportamento desse tipo de cigarra, da família Cicadellidae, explica o entomólogo Edgar Alvim, do Musa. “Provavelmente elas fazem isso para fugir do regime de chuvas intensas que alagam as galerias subterrâneas, ou para escapar da concentração de gás carbônico no solo”, avalia.
Segundo Edgar, as fêmeas depositam os ovos no interior dos galhos. Dias depois, surgem dos ovos as ninfas, que descem do tronco para o solo, penetrando na terra até determinada profundidade, onde permanecem o tempo necessário para completar seu desenvolvimento. Ao contrário de outros insetos, como a borboleta, a ninfa já é parecida com o inseto adulto, mas sem as asas. As patas dianteiras são modificadas para facilitar o ato da escavação. E é na fase adulta que elas ganham as asas. Para ele, esse relógio biológico precisa ser estudado. Qual a espécie que faz isso? É só o macho? Ou só a fêmea? “Provavelmente os dois, mas isso é uma incógnita”, explica.
Quanto tempo dura esse processo? Essa é mais uma pergunta a ser respondida. Na literatura, há relatos de que, em outras espécies de cigarra, pode durar até 13 anos, desde a ninfa até a fase de adulta, mas não há estudos sobre essa espécie na Amazônia. A hipótese é que essas ninfas se alimentam da seiva das raízes das árvores. E essas estruturas de barro circulares acima do solo permitem que elas, além de escapar do ambiente úmido, consigam respirar, avalia Edgar.
Muitas perguntas
Claude François Béguin, etólogo e ex-professor do Departamento de Estado de Educação de Genebra, Suíça, esteve estudando o crescimento dessas pequenas torres durante dois meses. E agora está de volta para prosseguir a pesquisa.
Segundo o professor, o que se tem até agora é que as pequenas cigarras erguem as torres na mesma proporção que cavam para dentro da terra. Ou seja: se a torre tem 10 centímetros, a base fincada na terra tem a mesma medida. Enquanto a parte externa é cheia de rugosidades, a parte interna da estrutura é lisa, “talvez para não danificar as asas do inseto”, analisa.
Como a chaminé cresce e em que ritmo também são perguntas a serem respondidas. Para acompanhar o crescimento da torre, o professor fez marcas próximo ao cume. E observou que as marcas continuavam na mesma altura em relação ao solo. Ou seja, elas crescem como edifícios. “Não crescem em sua totalidade, mas apenas verticalmente, a partir daquele ponto”, resume.
Outro ponto observado diz respeito ao método de construção. “Ela quebra o topo para aumentar a torre e depois fecha novamente”, explica a bióloga Vanessa Gama, assistente técnica de audiovisual do Musa, que auxilia o professor suíço nos estudos sobre as cigarras. “E cada torre corresponde a um inseto”, completa. Além de Vanessa, também trabalha no projeto o monitor José Rodrigues Junior.
Para Claude, o ideal para esse tipo de estudo talvez seja fazer uma espécie de endoscopia nas torres. “Pensamos também em utilizar gesso para podermos estudar as estruturas internas”, informa. De qualquer forma, será um trabalho a exigir paciência e persistência.
ASSUNTOS: Amazonas