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A outra face


Por Públio Caio

21/11/2025 14h07 — em
Públio Caio



A OUTRA FACE

Da série “envelhecência”

“Os que não obtêm dentro de si os recursos necessários para viver na felicidade acharão execráveis todas as idades da vida”. (Cícero)

“Lágrimas não são argumentos" (Machado de Assis)

“Panela velha é que faz comida boa” (adágio popular)

No artigo anterior, usamos uma moeda como analogia para a nossa vida, mostrando suas duas faces: “cara e coroa”, em que a “cara” representa a infância e juventude”, a “cora” a velhice, e o meio estreito da moeda corresponde à maturidade. Naquele texto, vimos como os gregos, na Antiguidade, apesar de reconhecerem virtudes nos velhos e anciãos, no fundo os desprezavam, elogiando sobremaneira os jovens.

Em síntese, tinham uma percepção da velhice como uma decadência física inevitável, associada à perda de beleza e força, ainda que fossem reconhecidas a experiência, que conduzia à prudência, à sabedoria, à autoridade e respeito. São exemplos desse reconhecimento a Gerúsia, em Esparta, que era um conselho de anciãos com poderes legislativo e judiciário.

Em Roma, reconhecia-se a importância do velho, a começar pelo “paterfamilias” e o “pater potestas”, onde o velho era a autoridade que representava a família, com poderes sobre todos os seus membros, inclusive escravos, decidindo desde o patrimônio até o direito à vida de seus integrantes. Na vida política, pois o Senatus (senex = homem velho) sempre contava com pessoas bem idosas em sua composição, embora a participação não fosse restrita apenas a elas.

O Livro do Eclesiastes, na Bíblia, em seu capítulo 12, utiliza metáforas poéticas para retratar um cenário de ruínas, comparando a velhice a uma casa e a tempestade, chamando atenção, contudo, para que o “criador” seja lembrado na juventude, antes que chegue a morada eterna.

O Salmo 70 (71), no versículo 9, traz uma súplica sobre a velhice, na qual o salmista pede a Deus que não o abandone quando suas forças diminuírem e, em seguida, expressa confiança e esperança na proteção divina, bem como o desejo de compartilhar a fé com as gerações futuras.

Por outro lado, o Salmo 91 (92), 14-16, diz: “Os que estão plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice ainda darão frutos e serão viçosos e vigorosos”, enfatizando a capacidade produtiva dos idosos, inclusive em relação à fé.

Tal como Aristóteles, que reconhecia a maturidade como uma fase anterior à velhice, no antigo Israel bíblico também se observa tratamento semelhante, notadamente no Livro de Jó 12,12, quando se afirma: “A sabedoria encontra-se nos anciãos e a inteligência na idade avançada”. Já em Eclo 8,9, há uma máxima dirigida aos jovens a respeito dos mais velhos: “Não desprezes os ensinamentos dos mais velhos, pois eles os aprenderam dos seus pais, e é deles que adquirirás a doutrina e a arte de responder oportunamente”.

A sabedoria é, de longe, uma das virtudes da velhice mais citadas, tanto na Antiguidade quanto nos dias atuais.

Todavia, é bom alertar que nem todas as pessoas que envelhecem adquirem essa virtude, pois não a cultivaram nos momentos que a vida lhes proporcionou, como, por exemplo, na maturidade, que antecede a velhice.

Na tragédia de Shakespeare, escrita para o teatro e intitulada “Rei Lear”, há uma frase que ilustra bem essa situação, quando o Bobo da Corte diz: “Pobre Lear, ficou velho antes de ficar sábio”, mostrando que a sabedoria “chegou tarde demais”. Talvez o “Bobo da Corte” queria dizer “Pobre Lear, ficou bobo em vez de ficar sábio”. Alguns diriam que “apodreceu antes de amadurecer”.

Entre comunidades indígenas, é mais comum o reconhecimento do papel do velho perante a tribo, sendo estes detentores de um valor extremamente importante, já observado a partir dos mitos de origem, nos quais os avós são os principais personagens. Ademais, são eles os “arquivos vivos”, os guardiões da sabedoria e de toda herança cultural, responsáveis por sua transmissão às outras gerações.

Na linguagem popular, existe uma expressão que reconhece a sabedoria e a experiência das pessoas mais velhas, frase presente em uma música sertaneja, que diz: “panela velha é que faz comida boa”.

Certamente lembramos daquela farofa feita com o resto de carne assada, raspada do fundo da panela velha da vovó, de sabor inigualável – talvez por um acúmulo de temperos depositados ao longo de anos –, e que, se feita em “panelas novas”, não se consegue o mesmo paladar.

Com efeito, a frase pode ser usada para sugerir que pessoas mais velhas têm um “tempero” de virtudes e qualidades que faltam aos jovens, como experiência, prudência, sabedoria, equilíbrio etc, que resultaram do acúmulo de experiências.

Quantas pessoas relatam que seus avós, ou mesmo seus pais, não tiveram oportunidade de adquirir conhecimentos; cresceram sem formação acadêmica alguma, aprenderam apenas a escrever seus nomes, contudo, são cheios de sabedoria.

Há outro dito popular interessante que explica a diferença entre conhecimento e sabedoria, assim proposto: “a certeza de que o tomate é uma fruta, decorre de um conhecimento; todavia, não usá-lo na salada de frutas é sabedoria”. Ou seja, a experiência forja essa qualidade, independentemente do conjunto de informações que integra o conhecimento.

Destarte, podemos dizer que conhecimento é a aquisição de informações e fatos, enquanto a sabedoria é a habilidade de usar esse conhecimento de forma eficaz, ponderada e com discernimento na prática. Isso é bastante característico das pessoas mais velhas.

A “coroa” é símbolo de autoridade, de realeza, de prestígio. É nesse sentido que parece ter sido empregado o termo para designar pessoas idosas ou de idade avançada, ou seja, uma forma carinhosa que reconhece, nas pessoas de cabelos brancos, a presença de uma autoridade que o tempo fez “coroar”.

Esse é o outro lado da moeda.

Cícero afirma que “não é a força física ou a presteza ou a rapidez do corpo que geram coisas grandiosas e, sim, a sabedoria, a experiência e o discernimento. Dessas qualidades o idoso não só não está destituído, mas, antes, é ele quem costuma prestigiá-las.”

Então, ele compara a velhice ao vinho, bebida tão apreciada pelos romanos, afirmando que o que torna o vinho acre, azedo, não é a sua idade, mas o modo como nós o acondicionamos. Deixando o vinho em pé, sob forte luz e calor, ele logo azeda e se estraga. Acondicionando-o em lugar fresco e escuro, deitado na prateleira, o vinho reage, pois vinho tem vida e fica delicioso.

É assim com nossa vida. Quem não se cuida é como o vinho mal-acondicionado e, independentemente da idade, torna-se uma pessoa azeda, carrancuda, mal-humorada, pessimista, arrogante, presunçosa, autossuficiente. “Os que não obtêm dentro de si os recursos necessários para viver na felicidade acharão execráveis todas as idades da vida”, afirma Cícero.

Os homens velhos podem perfeitamente ser alegres, juvenis no espírito, produtivos intelectualmente (“Na velhice ainda darão frutos e serão viçosos e vigorosos”), amigáveis nas relações. E os jovens podem também retratar um vinho azedo, pois juventude leviana traz velhice desolada.

Assim, não há razão para se envergonhar de ser idoso, ancião ou velho. A velhice é uma fase rica, tesouro de experiências. E toda experiência é causa de conhecimento e de sabedoria, ou não é experiência. Precisamos saber envelhecer, como diz Cícero em obra de mesmo nome.

A arte de envelhecer reside na sabedoria de encontrar o prazer que todas as idades proporcionam, pois cada uma possui suas virtudes, afirma o filósofo.

O bispo José, de Bragança-Miranda, Portugal, enviou um lindo recado aos idosos: “O fato de não sentirdes no vosso corpo o mesmo vigor e energia de outrora, o terdes deixado de exercer aquelas atividades pelas quais fostes reconhecidos ao longo dos anos não significa, de modo nenhum, que tenha cessado a vossa responsabilidade e já não possais prestar o vosso contributo para a construção de uma sociedade mais justa, mais pacífica e mais fraterna. Muito pelo contrário! No percurso da fé, sois enriquecidos por aquela experiência dos anos que promove a maturidade de vida; vós sois aqueles que, no trabalho da vinha do Senhor, que é a sua Igreja, suportais o «peso do dia e do calor» (Mt 20, 12), e também um mais apurado sentido para saborear a alegria da colheita.”

É preciso reagir a todas as formas de preconceito e discriminação. O idoso não deve se resignar diante dessas atitudes, e apenas chorar pelos cantos da casa pois, como afirma Machado de Assis no conto “Um Esqueleto”, “lágrimas não são argumentos”.

Portanto, sigamos com Olavo Bilac: “Não choremos, amigo, a mocidade! Envelheçamos rindo. Envelheçamos como as árvores fortes envelhecem, na glória de alegria e da bondade, agasalhando os pássaros nos ramos, dando sombra e consolo aos que padecem!”

** O autor é Procurador de Justiça do MP/AM. Bacharel em Filosofia assíduo estudante de temas teológicos. 

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