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Cara ou coroa?


Por Públio Caio

14/11/2025 14h22 — em
Públio Caio



Cara ou Coroa?

Da série "envelhecência"

"Animum debes mutare, non caelum" (Deves  mudar o ânimo, não céu)  (Horácio/Sêneca) 

"A natureza estabeleceu para vida uma lógica e um sentido, onde cada fase da vida tem suas  virtudes"(Cìcero)


Uma moeda tem duas faces, tecnicamente chamadas de anverso e reverso. Anverso é a face principal, geralmente constando a efígie ou rosto de uma personalidade ou o nome do país, e a outra face chamada de reverso, é onde aparece o valor monetário. 

Todavia, na linguagem popular, as faces de uma moeda são chamadas de “cara” e “coroa”, recurso muito usado para tirar a sorte em jogos e outras atividades. Quero, neste texto, comparar as fases de nossa vida, a uma moeda.  

Para melhor visualizar a analogia, imagine que você consegue colocar uma moeda em pé, devidamente equilibrada: você terá de um lado, a “cara”; a ela quero atribuir a representação da infância, adolescência e a juventude; no meio, a faixa estreita que a circunda e divide as duas faces e equilibra a moeda, vamos representar a maturidade e a “envelhecência”; e a outra parte que é a “coroa”, representa a velhice. Guarde a comparação. 

A palavra “cara”, que também significa o rosto de alguém, adquiriu, na linguagem coloquial, o mesmo sentido de “pessoa” ou “sujeito”. Há, inclusive, uma expressão muito usada em que se diz “esse é o cara”, com o sentido de se referir a uma pessoa importante, “top”, autoridade máxima num assunto, a pessoa mais bonita e elegante, etc.  

O cantor e compositor Roberto Carlos fez, inclusive, uma música com o título “Esse cara sou eu”, dizendo em uma de suas estrofes:  

“O cara que pensa em você toda hora/ Que conta os segundos se você demora/ Que está todo o tempo querendo te ver/Porque já não sabe ficar sem você/ Esse cara sou eu”. 

Na antiguidade, se fosse comparado um jovem a um velho, se diria ao jovem: “esse é o cara”, pois de forma esmagadora o conceito e o preconceito sobre a velhice eram terríveis. 

Na Grécia antiga, onde política, filosofia, educação e guerra, eram o centro e todas as preocupações, havia uma certa divisão de opiniões sobre juventude e velhice; porém, a

maioria das opiniões e elogios era favorável aos jovens e à juventude, em detrimento dos velhos e velhice, excetuando-se situações de estadistas, demogerontes e filósofos. Com efeito, a senescência – aqui tratada como “envelhecência” – que constitui o processo de envelhecimento, era considerado algo quase “detestável”, “deplorável”, não desejável, sendo, inclusive, no teatro grego, muito satirizada, tanto na comédia como no drama satírico. Nos “Hinos Homéricos”, por exemplo, surge da boca de Afrodite, deusa da Beleza, a frase: “Os deuses também odeiam a velhice”.  

O primeiro texto sobre a velhice, segundo Simone de Beauvoir, na sua obra “A velhice”, nos diz que é datado do ano de 2.500 a.C., escrito pelo poeta e filósofo egípcio Ptah Hotep, e suas palavras descrevem a realidade que a maioria dos velhos de sua época vivenciavam: 

“Como é penoso o fim de um velho! Ele se enfraquece a cada dia; sua vista cansa, seus ouvidos tornam-se surdos; sua força declina; seu coração não tem mais repouso; o nariz se obstrui e nada mais pode  cheirar, a boca se torna silenciosa e já não fala; Suas faculdades intelectuais se reduzem e torna-se impossível recordar o que foi ontem. Doem-lhe todos os ossos. A ocupação a que outrora se entregara com prazer, só a realiza agora com dificuldade e desaparece o sentido do gosto. A velhice é a pior desgraça que pode  acontecer a um homem”. 

Outro trecho que Simone de Beauvoir nos traz, vem de Minermo, da Jônia, no ano de 630 a.C., que diz: 

“Como as folhas que a estação das flores faz brotar sob os raios do sol, durante um fugidio instante gozamos a flor de nossa juventude, e logo as negras Parcas nos cercam, uma trazendo a dolorosa velhice e a outra a morte. O fruto da juventude não tardou a apodrecer: mal dura o tempo da luz do dia”. 

À guisa de esclarecimento, Parcas, ou Moiras, citado nos versos acima, são, na mitologia grega, três deusas do destino que determinam o curso da vida de cada pessoa, desde o nascimento até a morte.  

Para Aristóteles, em um dos capítulos de sua obra “Retórica”, embora reconheça as virtudes da velhice, podemos extrair de sua opinião uma visão um tanto negativa sobre a velhice. 

Diz ele, que os velhos não têm certeza sobre nada e mostram em tudo menos força do que deveriam (Aristóteles não conheceu Advaldino Vieira, da cidade de Caetité, na Bahia, conhecido como “Vô Buga”, que fará 100 anos em novembro de 2026, e “viraliza” na internet, por sua vitalidade na academia).

Possuem opiniões, mas nunca certezas. Suspeitam de tudo já que a experiência os inspirou a serem desconfiados. Acresce, ainda, que os velhos são medrosos e passam todo o tempo antecipando o perigo. São pouco inclinados à esperança, o que contribui para o seu medo. Vivem mais de lembranças do que de esperanças, porque o que lhes resta de vida é pouco comparado ao seu longo passado.  

No décimo terceiro capítulo do segundo livro, ele afirma que os velhos são propensos a serem pessimistas, receosos, desconfiados, mesquinhos, avaros, covardes, egoístas, impudentes, desiludidos, compassivos e lamuriosos.  

Em ralação aos jovens, Aristóteles diz que são inclinados às paixões e capazes de satisfazê-las indiscriminadamente. São volúveis e não tardam a se aborrecer com o que desejaram; quanto mais intensos são seus desejos, menos duram, não têm raízes, são efêmeros, como os acessos de fome e sede dos enfermos. São coléricos e destemperados, geralmente cedendo aos seus ímpetos.  

E continua: Vivem de esperança a maior parte do tempo, e não de lembranças, já que a esperança diz respeito ao futuro, ao passo que as lembranças concernem ao passado, sendo que para a juventude há um longo futuro diante de si e pouco passado. São fáceis de ser ludibriados e mais corajosos do que as pessoas o são em outras idades. Afirma, ainda, que jovens não possuem a virtude da prudência, porque não são experientes e a prudência vem da experiência. 

Para Aristóteles, “cara ou coroa” não daria certo, pois ficaria no meio das duas. Para ele, a melhor fase da vida é a maturidade, que vai de 30 a 50 anos. Na sua opinião, os homens, na idade madura, apresentam um caráter intermediário entre os jovens e os velhos, sem os extremos das duas fases.  

Com efeito, diz Aristóteles, eles não têm nem o excesso de confiança, como os jovens, que beira a temeridade, nem medos exagerados, como os velhos, colocando-se, sim, em uma justa medida entre esses dois extremos. Não confiam em todos, mas também não desconfiam de todos, fiando-se mais na verdade para julgar as pessoas. Seu autocontrole é acompanhado de coragem.  

Em suma, todas as vantagens que os jovens e os velhos detêm, separadamente, estão reunidas na idade madura; onde jovens e velhos pecam devido ao excesso ou à deficiência, a idade madura demonstra uma proporção justa e conveniente. 

É por esta razão que na analogia da vida, com uma moeda, coloquei a parte central que divide as duas faces da moeda, como o lugar da maturidade, de forma bem aristotélica.

A imagem do idoso, retratada nesses textos referidos, trazem fatos indiscutíveis, como por exemplo, mais dificuldades físicas do idoso para realizar determinadas tarefas; algumas doenças mais propensas, como as artroses etc. 

Porém, nem todas as pessoas que envelhecem ou estão no processo de envelhecimento, necessariamente vão experimentar todos aqueles problemas apontados pelo filósofo egípcio Ptah-Hotep. Certamente, encontraremos idosos com vigor físico e muita disposição, como o “Vô Buga” e tantos outros, assim como encontraremos, na fase de maturidade, pessoas com mais características de “coroas” do que de “caras”. 

Como sabemos, ninguém envelhece no mesmo passo nem no mesmo modo; também, cada organismo responde àqueles sintomas de forma diferente, não sendo razão para imputar como vícios e defeitos da idade, ou algo que incapacite o idoso ao exercício de uma vida socialmente normal. 

O que é anormal é a exclusão social, externa ao sujeito, que o força a ter uma percepção de envelhecimento mais rápido, com a perda do sentimento de pertencimento, fazendo-o sentir-se velho. Por isso, Saramago diz em seu poema: “Não importa a idade que tenho, mas a idade que sinto”! 

O jogo da moeda para tirar a sorte no “cara ou coroa”, não se aplica para a vida, que não se funda em sorte ou azar, mas em escolhas responsáveis, desde cedo, de modo a permitir que cada fase da vida possa ser aproveitada e degustada naquilo que elas nos oferecem. Oportunidades bem aproveitadas ou dispensadas, são a nossa sorte e nosso azar, que não devem ser confundidos com eventos exteriores, que fujam ao nosso controle e vontade, ao que se pode chamar de destino. 

Cícero ensina que envelhecer é uma “arte” que consiste em descobrirmos a alegria (jovialidade) que todas as fases da existência humana nos proporcionam, seja enquanto criança, jovem, adulto ou velho, haja vista que todas as fases possuem suas próprias virtudes. Ou seja, Cícero desenvolve a tese de que a arte de envelhecer é encontrar o prazer que todas as idades proporcionam, inclusive à velhice! 

E nesse sentido ele diz que “a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos e maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma ao seu tempo”, 

No próximo artigo veremos a velhice por “outra face da moeda”. 

"O cabelo grisalho é uma coroa de esplendor, e obtém-se mediante uma vida justa". 

Provérbio 16:31

** O autor é Procurador de Justiça do MP/AM. Bacharel em Filosofia assíduo estudante de temas teológicos. 

 

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