Solidão e abandono
SOLIDÃO E ABANDONO
Da série “envelhecência”
“Não é bom que o homem esteja só” (Gn2,18)
“A solidão é fera, a solidão devora” (Alceu Valença)
“Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é Deus”. (Aristóteles)
Solidão é uma palavra polissêmica, com vários sentidos, como isolamento, esquecimento, desamparo, abandono etc.
Ninguém, em sã consciência, deseja viver sozinho. Aristóteles afirmava que quem encontra prazer na solidão ou é animal selvagem ou é o próprio Deus, querendo demonstrar a natureza gregária do ser humano e que ninguém consegue viver sozinho.
Em Gênesis 2,20, percebe-se que Adão, criado antes da Eva, sentiu necessidade de ter alguém com quem compartilhar suas experiências. Deus afirmou: “Não é bom que o homem esteja só” e, em seguida, criou sua companheira Eva. Como aponta Leandro Karnal, este foi o único recall feito na criação. Observe que Deus aguardou a sensação de solidão de Adão para criar Eva, incorporando essa necessidade à natureza humana.
Desde remotas épocas, o tema da solidão permanece presente, com nuances de ambiguidade, pois ora o pensamento filosófico e teológico defende o sentido gregário — sociabilidade, comunhão e partilha —, ora sustenta a necessidade de pleno recolhimento e afastamento social.
A solidão faz bem em certas ocasiões; é como viajar a passeio, e depois retornar para casa. Por isso, “visitar” a solidão pode ser interessante, mas conviver com ela é tenebroso. Estar na companhia de pessoas é agradável, mas, em certos momentos, companhia ou determinadas pessoas nos desagradam, valendo o ditado: “antes só do que mal acompanhado”. Isso mostra que a solidão não é um tema tranquilo, seja na filosofia, na teologia ou na psicologia.
Se desejas ir rápido, vá sozinho; se esperas percorrer distâncias maiores, vá acompanhado. Essa frase explica claramente como estar sozinho ou acompanhado pode trazer consequências diferentes, dependendo do seu escopo. O cerne da questão é estar sozinho por vontade e decisão, ou por consequência do abandono (solidão involuntária).
Esta sempre foi a grande questão: sozinho ou acompanhado.
A verdade é que viver na companhia de outros — ou, mais precisamente, o ato de “relacionar-se”, não é algo simples; reunir diferentes “eus” para conviver, de modo que o “nós” preserve a individualidade e a singularidade do ser, é algo que pode se tornar complicado.
Reuniões de família nem sempre terminam bem, pois podem acontecer de emergir problemas mal resolvidos entre os familiares.
Uma viagem longa na companhia de alguém com quem você nunca conviveu na intimidade, pode revelar uma face desagradável na relação, seja por “conflitos de interesses” na viagem, seja por hábitos que se mostram inconvenientes e inoportunos, exigindo paciência e respeito para preservar a amizade.
Esse é um dilema humano que precisa ser conciliado: estar junto, evitando a solidão, e, por outro lado, buscar companhia, assegurando-se que não sairão feridos na relação, por conta da intimidade que traz à tona os defeitos de cada um.
Existe uma metáfora de Arthur Schopenhauer, intitulada “dilema do porco-espinho”, que caracteriza bem a complexidade das relações humanas.
A metáfora narra um grupo de porcos-espinhos que, para aquecer-se no inverno, aproximam-se uns dos outros, mas logo se ferem por causa de seus espinhos, forçando-os a afastar-se. Tentam novamente aquecer-se mutuamente, mas afastam-se por sentirem dores decorrentes das picadas.
Assim, ficam presos entre o frio e o incômodo das interações espinhosas, aprendendo, com isso, a encontrar uma distância ideal para conviver.
Percebe-se que o filósofo tenta ilustrar a tensão inerente às relações humanas, nas quais está presente a necessidade de afeto – “calor humano” –, porém, quase inevitável, a tendência a ferimentos recíprocos.
A “metáfora do porco-espinho” sugere que não se pode alcançar uma intimidade perfeita sem certo sofrimento, mas que é possível encontrar uma distância respeitosa, que satisfaça a necessidade do convívio social sem a dor do conflito constante. É preciso encontrar esse equilíbrio entre a solidão do isolamento e a possibilidade de sofrimento causada pela intimidade.
Na filosofia, a solidão é frequentemente vista como uma condição inerente à existência humana, chamada “solidão ontológica”, semelhante à experimentada por Adão no Paraíso — é também um espaço necessário para o pensamento, a transcendência, o autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal, o que Paul Tillich chama Solitude, tema que abordarei no próximo artigo.
Nessa linha de quase ambiguidade, nascem pensamentos como de Luc de Clapiers, marquês de Vauvenargues, 1747: “A solidão está para o espírito como a dieta para o corpo: embora necessária, é mortal quando demasiado prolongada,”; ou de Josh Billings, séc. XIX: “Solidão: um lugar bom de visitar uma vez ou outra, mas ruim de adotar como morada.”
No campo da psicologia, a solidão caracteriza-se como uma desconexão social que provoca uma ausência afetiva do outro, o “sentir falta de alguém”, acompanhada de sensação de desamparo ou abandono, mesmo estando fisicamente cercado por pessoas. Isso gera sensação de vazio, ansiedade, desespero e fobia, o que Freud chamou de “neurose de angústia” e que a psiquiatria atual denomina “transtornos de ansiedade e de pânico”.
Observe o desespero de uma verdadeira alma solitária nos versos de Florbela Espanca:
“Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada Pavorosa! Não sei onde era dantes. Meu solar, meus palácios, meus mirantes! Não sei de nada, Deus, não sei de nada!”… “Ó pavoroso mal de ser sozinha! Ó pavoroso e atroz mal de trazer Tantas almas a rir dentro da minha” (Loucura)
Em muitas ocasiões, as pessoas idosas sentem falta de uma conexão profunda, de uma relação verdadeira, emocional e afetiva e, não raro, sentem-se invisíveis, completamente ignoradas. Isso é também solidão. Desse modo, não basta estar fisicamente na companhia de outras pessoas; é necessário interagir e de forma significativa.
É muito comum as pessoas ao redor de um idoso não se interessarem por seus assuntos ou os tratarem de forma muito superficial; ou quando sequer lhe dirigirem o olhar ou a palavra, como se de fato fosse invisível.
Trata-se da denominada solidão de rebanho, que acontece quando, mesmo na multidão, a pessoa se sente isolada, num ambiente estranho, sem a sensação de pertencimento. No meio da multidão as relações são sempre superficiais e quase sempre impessoais e indiferentes.
Em relação às pessoas idosas, essa indiferença é visível, chegando a ser classificada como abandono afetivo, tão prejudicial quanto o abandono físico, expressando falta de interesse, de preocupação com o outro e estando próxima da rejeição; é também uma forma de negligência.
Costuma acontecer de forma latente e dissimulada, por exemplo, quando idoso é deixado “de lado” em reuniões sociais, como aniversários de familiares, sozinho e quieto numa mesa, num canto isolado de uma sala repleta de vozes e de vida. Pode parecer que está feliz por estar no meio de muitas pessoas alegres e festivas, porém, não raro, está solitário na multidão, desconectado do que se passa ao seu redor.
Nesses casos, a solidão cria no indivíduo a sensação de ser indesejado, rejeitado, negligenciado, deixado para trás, esquecido pelas pessoas queridas. É, em síntese, a sensação de falta de companhia, amizades, laços sociais significativos, desprezo e abandono.
Em outras ocasiões a solidão do idoso decorre do esquecimento, isolamento e abandono por parte de parentes e amigos. É o estar sozinho mesmo, literalmente.
Alceu Valença, em sua música Solidão, diz que ela “é amiga das horas, prima irmã do tempo, e faz nossos relógios caminharem lentos, causando um descompasso no meu coração”, mostrando como a solidão se conecta com o tempo, que parece desacelerar, num descompasso emocional. Quando estamos sozinhos, o tempo parece que não passa. Isso pode ser bom ou ruim, dependendo do momento existencial.
Esse sentimento de abandono, provocado pela solidão, fere e dói muito mais do que qualquer artrose, osteofitose, osteoartrite, tendinite, bursite, gota ou varizes. Ou seja, a solidão do idoso machuca mais que qualquer doença física, pois atinge a alma, causando tristeza profunda, depressão, ansiedade, medo e mágoa, podendo resultar em somatização e, consequentemente, em efeitos também corporais.
Mario Quintana fala da indiferença como pior que o abandono, dizendo:
“O que mata um jardim não é mesmo alguma ausência nem o abandono… O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem por eles passa indiferente” (Jardim interior)
Andando de mãos dadas com a indiferença está a ingratidão, que é uma injustiça moral por não manifestar, como deveria, o natural reconhecimento e o valor pelos bens recebidos. Há milhares de exemplos de casos de ingratidão com idosos, em situações concretas, que certamente você, leitor, deve conhecer.
Algumas situações alcançam o patamar da maldade, por exemplo, quando parentes se apropriam do dinheiro da aposentadoria ou pensão de idosos, sobretudo pelos chamados empréstimos consignados.
A Bíblia registra vários episódios significativos de solidão. Destaco o principal: a experiência de Jesus Cristo às vésperas de sua morte.
O próprio Cristo sentiu o peso de estar só ao rezar no Monte das Oliveiras, mesmo estando a poucos metros de seus três apóstolos mais significativos: Pedro, Tiago e João.
Pediu a eles algo simples: rezem comigo! E os três dormiram, deixando-o sozinho. Na ocasião, Jesus se viu abandonado, ainda que por alguns instantes, e pediu a Deus que o afastasse daquele cálice de sofrimento. Era momento de extrema solidão. A solidão, somada ao peso (estresse) de carregar os pecados do mundo, fez Jesus suar sangue (hematidrose).
Evidentemente, Cristo Jesus, Filho de Deus e Deus, encontrou rapidamente a companhia perfeita: “Estou como o pelicano do deserto, como pássaro solitário no telhado. E me deixareis sozinho: mas não estou só, porque o Pai está comigo.” (Salmo 102,7-8; João 16,32).
Com efeito, a maior dor a ser enfrentada pelos idosos é, acertadamente, a decorrente da solidão, do abandono afetivo, da indiferença e da ingratidão.
A sua pior escuridão está na solidão e na ingratidão; e sua pior doença é a indiferença. Pensemos nisso!
** O autor é Procurador de Justiça do MP/AM. Bacharel em Filosofia assíduo estudante de temas teológicos.
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