A bolha
A BOLHA
“Temo o dia em que a tecnologia superará nossa interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas” - Atribuída a Albert Einstein
“A Internet aproxima quem está longe, mas afasta quem está perto” – Desconhecido
“A internet é uma solidão dividida e uma fantasia compartilhada” – Hideraldo Montenegro
Nos artigos anteriores, tratamos do tema da solidão de rebanho, aquela em que, mesmo no meio da multidão, a pessoa se sente solitária, sem interação, desconectada; também abordamos sobre a solidão decorrente do abandono e da indiferença. Por último, refletimos sobre a solidão voluntária, a chamada “solitude”, o “estar consigo”, buscando o autoconhecimento.
Hoje vos trago uma reflexão sobre a solidão provocada pela “bolha digital”, uma redoma que pretende ser proteção e abrigo, uma possível defesa contra o medo inconsciente do abandono e da solidão.
No artigo intitulado “Solidão e Abandono”, utilizamos a metáfora do “Porcoespinho”, de Schopenhauer, para ilustrar a tensão entre o desejo de evitar a solidão, por meio da socialização, e o medo de ser ferido pelos “espinhos” que todos carregamos em nossas diferenças. Essa metáfora busca mostrar a necessidade de encontrarmos a distância ideal para uma convivência pacífica.
Schopenhauer não conheceu a internet. Se a tivesse tido, deixaria de lado o “porco-espinho” e usaria a internet como metáfora. Afinal, ela aproxima os distantes e afasta os próximos, estabelecendo uma distância que protege a interação para que ela não machuque tanto quanto as relações presenciais.
Porém, assim como o “porco-espinho”, a verdade é que a internet também tem seus espinhos e suas “porcarias”.
Assistimos, a cada dia, à substituição do convívio social presencial pelo virtual, em plataformas como Facebook, Instagram, WhatsApp etc. Alguns explicam o fato por razões de segurança, pois sair de casa começa a ficar perigoso. Outros não conseguem mais interagir fisicamente por variados motivos, entre eles a superficialidade e frivolidade das conversas, a falta de uma relação mais significativa.
A internet aparece como uma “tábua de salvação”; porém, não raro, uma rede de pessoas que compartilham solidão e fantasias, sem superá-las.
Idosos, e também os jovens, começam a se sentir mais “seguros” na convivência virtual do que nas interações sociais presenciais, apesar de essa segurança ser falsa. Não tratarei dos riscos de fraudes, de aproveitadores e espertalhões; nem dos riscos de pedófilos; nem dos riscos de doenças físicas já comprovadas. Vou continuar no tema da solidão.
Se as pessoas idosas reclamam da falta de uma interação social mais significativa, verdadeira e intensa no convívio social, isso persiste na interação virtual, podendo até agravar-se em superficialidade, mediocridade e, por vezes, agressividade e covardia.
Pessoas acreditam que, na convivência virtual, os “espinhos dos porcos” não atingem seus corpos e que, se alguém as ferir digitalmente, resolvem a situação com simples “clic”, desconectando ou cancelando de sua lista de contatos o incômodo “amigo seguidor”.
Esconder-se atrás da internet pode proporcionar uma sensação de proteção, porém apenas por algum tempo, adiando o encontro com a realidade. É um pequeno feixe de luz na sombra da solidão, iluminando almas perdidas nas telas que, aos poucos, se deterioram na alienação, “comparável a um viciado em pleno delírio: talvez o que sente pode ser pouco, muito ou nada; ainda assim, libertar-se é extremamente difícil”, como diz Ricardo Gomes “in” site Pensador.
Na sociabilidade virtual, as pessoas não precisam fazer concessões e são, paradoxalmente, autênticas e falsas, conforme a conveniência.
Acolhidos nessa “bolha” e afastados da convivência social presencial, algumas pessoas adoecem psicologicamente, fisicamente e socialmente. Alguns, principalmente jovens, tornam-se portadores de misantropia, ou seja, uma aversão à sociabilidade física real que, em vez solucionar o dilema da necessidade do “calor social” inerente ao homem, aumenta o vazio existencial da solidão, agora numa solidão digital, que da mesma forma causa ansiedade, angústia e medo.
Esse pseudomecanismo de defesa tem causado uma nova neurose chamada nomofobia, um medo irracional de ficar sem sinal de internet, sem seu aparelho de telefonia celular ou, ainda, a infodemia, que é o pânico por excesso de informações.
Os extremos são sempre prejudiciais.
Saber usar a internet é saudável, tanto para crianças, jovens adultos e idosos. Na dose certa evita a solidão e aproxima pessoas queridas e familiares, sem os riscos da intimidade presencial. Também promove benefícios cognitivos, como melhoria da memória, atenção, retardo do envelhecimento cerebral e psicológicos, além de aumentar a autonomia com serviços online.
Em síntese, não se pode pensar na internet como uma “bolha” de proteção contra a solidão, negando, na totalidade, o convívio social presencial, pois, se assim o fizer substituirá uma solidão por outra, agravando, talvez, as crises existenciais e as possíveis neuroses.
“In medio stat virtus”!
** O autor é Procurador de Justiça do MP/AM. Bacharel em Filosofia assíduo estudante de temas teológicos.
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