"Pena justa". Equívocos que envolvem governo, judiciário e órgãos de controle. Uma conta para você pagar
A fatura de escolhas questionáveis pelos governos será paga por quem mais precisa de proteção.
É legítimo buscar melhores condições para presos, como deseja a Defensoria Pública, o MP, o Tribunal de Justiça e o governo do Amazonas. Afinal, a pena retira a liberdade, não os demais direitos —, mas a opção de investir energia e recursos num programa de alto custo e baixa eficácia para a segurança da população soa desconectada da urgência das ruas.
"A pena justa", como é chamado o plano protocolado no STF, "é pena". E se existe pena injusta é falha do sistema de justiça. Começa em investigações suspeitas e inquéritos mal redigidos. Mas resolver o problema é um custo que não pode ser compartilhado pelo resto da sociedade, que já paga alto para manter um judiciário pouco eficiente e órgãos de defesa do cidadão em parte desvinculados da realidade das ruas.
Governo e TJAM protocolam plano para enfrentar crise no sistema prisional do Amazonas
O Amazonas (e de resto o Brasil) enfrenta aumento da criminalidade, desigualdade crescente, baixo crescimento econômico e um sistema de segurança fragilizado. Em meio a esse cenário, comprometer orçamentos já exauridos com metas e eixos que pouco dialogam com o combate direto à violência urbana (e à sensação de impunidade), reforça a percepção de que se prioriza o sistema prisional, enquanto a vida do cidadão comum segue exposta ao crime, à precariedade e à ausência de políticas públicas efetivas.
Ao transformar a pauta prisional em prioridade nacional, sob impulso de imposições judiciais, corre-se o risco de destinar recursos escassos a políticas que, embora revestidas de boas intenções, entregam pouco resultado prático à sociedade.
O cidadão, que sente no cotidiano a ausência do estado brasileiro na prevenção e no enfrentamento da violência, percebe que, mais uma vez, a fatura de escolhas questionáveis será paga por quem mais precisa de proteção.
ASSUNTOS: Amazonas, ministério da justiça, Segurança Pública, Sistema Prisional
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.