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Fachin e os polos que não se cruzam


Por Raimundo de Holanda

02/02/2026 19h20 — em
Bastidores da Política


  • Ao afirmar que cada ministro deve responder por suas próprias escolhas, Edson Fachin adotou um tom contencioso e consciente do momento institucional. O discurso reconhece limites; os votos, nem sempre.
  • E aqui está o ponto central: responder por escolhas não é o mesmo que prometer o fim de relações impróprias.
  • Falar em responsabilidade individual transfere o problema para o plano pessoal e evita tratá-lo como questão de governança institucional.
  • O resultado é um descompasso evidente. O Supremo pede cautela no discurso, mas continua ousado nas decisões. Defende limites na fala, mas os expande na prática. A contenção aparece no microfone; a ousadia, no voto.

 Não houve surpresa no tom nem no conteúdo da fala do presidente do Supremo Tribunal Federal. O discurso seguiu o roteiro conhecido: defesa da Constituição, do Estado de Direito, da liberdade de imprensa e da instituição. São valores fundamentais. 

A proposta de criação de um Código de Ética é necessária e bem-vinda. Ainda assim, a forma como foi apresentada revela o limite da resposta do STF ao momento atual. O Tribunal não sofre por falta de valores proclamados, mas pela dificuldade de transformar esses valores em prática institucional, especialmente quando surgem investigações sensíveis, suspeitas de conflitos de interesse e críticas ao excesso de protagonismo.

A fala do presidente ocorre em um cenário de desgaste acumulado. Hoje, decisões do Supremo já não são avaliadas apenas pelo conteúdo jurídico, mas também pelo contexto político e simbólico em que são tomadas. Isso não é fruto de má vontade externa, mas consequência de escolhas feitas ao longo do tempo, que ampliaram a exposição da Corte e reduziram sua margem de confiança automática.

Tribunais constitucionais não se legitimam apenas pelo que dizem, mas pelo modo como decidem. Quando não há coerência entre discurso e prática, cresce a percepção de que tudo fica na fala — e nada muda.
 

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ASSUNTOS: contenção judicial, Edson fachin, STF

Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.