Caso FMT x Governo do Amazonas. O juiz e o dever da contenção
- ... Esse tipo de comportamento, fora da curva, não é uma exceção.Tem se tornado regra e o mau exemplo vem das cortes superiores.
Ao rejeitar recurso da Defensoria Pública para obrigar o Estado do Amazonas a repassar R$ 9,4 milhões à Fundação Hospital Medicina Tropical, a juíza Etelvina Braga entrou direto numa questão que, como magistrada, não lhe cabia - a de que “eventual escassez de recursos está atrelada à má-gestão da FMT e não à falta de repasses”.
De fato, se ocorreu a transferência de recursos como o governo alega, então é preciso averiguar se houve desperdício e em que nível, ou se o planejamento para honrar despesas com pessoal, fornecedores e pesquisa para este ano foi subestimado pelos atuais gestores. Mas a opinião da juíza, além de desnecessária, revela, por si mesma, uma incursão do Poder Judiciário em uma área alheia à sua atividade.
O juiz decide e sua avaliação é técnica, baseada nos fatos. Opinar sobre o bom ou mau uso de recursos da sociedade cabe ao Ministério Público, aliás o foro para o qual a juíza deveria ter enviado pedido de investigação.
O problema é que esse tipo de comportamento, fora da curva, não é uma exceção.Tem se tornado regra e o mau exemplo vem das cortes superiores.
Aos magistrados cabe a obrigação de se autoimpor o “dever de reserva" ou o ‘dever de imparcialidade”, um requisito da atividade judicante, que é o mínimo que se espera de um representante do Poder Judiciário.
É fato que o Estado do Amazonas provou, ao menos consta nos autos, que repassou mais do que havia sido estimado pela própria Fundação Medicina Tropical, algo em torno de R$ 25 milhões - eram previstos R$ 45 milhões, mas a soma dos repasses foi de R$ 70 milhões - um excedente considerável.
Cabia uma decisão simples, sem juízo de valor. Os números falavam por si mesmos, mas a magistrada quis dar sua opinião. Lamentável.
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ASSUNTOS: Amazonas, FMT, justiça. ativismo judicial
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.