BR 319 no limbo
- Está longe de ser razoável afirmar que a nova lei ambiental sancionada hoje produzirá efeitos concretos sobre a repavimentação da BR-319.
- A estrada permanece inserida em um conflito que não é técnico nem meramente burocrático, mas político, jurídico e federativo.
- Enquanto não houver uma decisão institucional clara, sustentada e coordenada, novas leis reorganizam o discurso — mas não alteram o desfecho.
A sanção, nesta terça-feira, de uma nova lei ambiental apresentada como solução para destravar grandes obras de infraestrutura não autoriza concluir que a repavimentação da BR-319 esteja mais próxima de sair do papel. A expectativa de que o novo marco normativo, por si só, altere esse cenário ignora a realidade política e institucional que envolve a estrada.
No caso da BR-319, o problema nunca foi apenas o tempo do licenciamento ou a existência de um rito mais complexo. O impasse decorre da ausência de decisão política consistente, da fragmentação de responsabilidades entre órgãos federais, da atuação intensa dos órgãos de controle e, sobretudo, da elevada propensão à judicialização. Nenhuma dessas variáveis é removida automaticamente com a edição de uma nova lei.
Ainda que o texto legal admita tratamento diferenciado para empreendimentos estratégicos e reduza exigências procedimentais em determinados casos, isso não significa que projetos sensíveis estejam blindados contra questionamentos. Ao contrário: normas percebidas como atalhos costumam atrair mais contestações judiciais, especialmente quando envolvem políticas públicas de grande impacto regional.
O histórico recente demonstra que o debate sobre a BR-319 não se resolve no plano administrativo. Ele migra rapidamente para o Judiciário, onde prevalece uma leitura constitucional rigorosa da proteção ambiental e do dever de cautela do Estado. Nesse ambiente, flexibilizações legislativas tendem a ser testadas, contestadas e, muitas vezes, suspensas.
ASSUNTOS: Amazônia, BR 319, POLITICA AMBIENTAL
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.