O perigo mora lá fora

Por Raimundo Holanda

08/05/2020 21h44 — em Bastidores da Política

“Fique em casa”. Não era uma ordem, era um conselho. Conselho de mãe. Ouvi muito isso na minha adolescência. O olhar preocupado daquela mulher, suas mãos suadas segurando as minhas. E eu dividido entre esse amor incondicional  e o som frenético  das discotecas lotadas de meninas dengosas.

Nem sabia dançar, só olhava. Gostava de How Deep Is Your Love, dos Bees Gees;  de  Night Fever, que deu aquela virada com o filme “Os Embalos de Sábado a Noite". Além da música cheia de energia, a coreografia me encantava. Mas era difícil lidar com a preocupação dela e o mundo lá fora, cheio de perigos e medos.

Ela sabia a dificuldade de me relacionar com as pessoas. E dançar? Ela ria. Não, eu nunca aprendi a dançar, nem os boleros daqueles tempos distantes.  Mas a música me encantava, como agora me encanta, a música que me deixa leve, que me faz flutuar. A música verdadeira  que parece desaparecida.

Mas hoje volto a ouvir: ”Fique em casa”. Já não é mamãe preocupada com os perigos lá fora. É o governo dizendo que lá fora mora o perigo. Eu, que resisti tanto aos apelos de minha mãe - e domingo é um dia especial por ser dedicado a ela - tenho que ficar em casa.  E só posso dizer obrigado!

Alguém me fez lembrar daqueles tempos e dos conselhos daquela mulher que desapareceu depois de fomentar sonhos e esperança em mim. Aquela mulher que fez o que sou agora.

Fique em casa. Hoje, especialmente hoje. Amanhã também. E depois… O perigo mora lá fora.