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Guerra de narrativas e a ameaça de banir o Telegram do Brasil


Por Raimundo de Holanda

23/01/2022 18h04 — em
Bastidores da Política



O Tribunal Superior Eleitoral está decidido a banir o Telegram. Alega que é uma fonte de disseminação de notÍcias falsas e que seria usado nas eleições deste ano (para turbinar candidaturas de direita?). A iniciativa de banir o Telegram, se for efetivada, não estaria embasada numa ideia de intolerância que o próprio tribunal diz querer combater?

E afinal, o que é a verdade, se a própria justiça brasileira vive mudando suas próprias decisões, sob a alegação  de que, por exemplo, condenações como as ocorridas na Lava Jato deveriam ser anuladas, como foram,  porque um juiz lá na ponta, errou.

E perigoso numa democracia dar toda essa força a um tribunal que dita regras que beiram a censura ou vão mais além, sem a chancela dos demais poderes da República.

É perigoso para a liberdade de expressão permitir que um tribunal eleitoral (ou o próprio STF), decida sobre o banimento de um aplicativo no qual milhões de brasileiros interagem,  não importando a ideologia que pratiquem.

As narrativas virais nas eleições deste ano independem do Telegram. Elas vão ocorrer de qualquer maneira porque o mundo mudou, as pessoas não vão sair das bolhas em que vivem, nem abrir mão de seus preconceitos e de seus ódios. Qualquer vídeo viraliza no WhatsApp, o aplicativo que segundo o TSE,  se adequou as novas regras.

O problema é que não existe controle . O processo de  vitalização de informações verdadeiras ou falsas está além da capacidade de controle de  qualquer aplicativo. Menos ainda de um tribunal.

A questão é saber até que ponto é legitimo um tribunal banir um aplicativo de celular com base no confuso entendimento de que ele pode servir a uma rede de mentiras com capacidade de influenciar uma eleição.

O que o TSE deveria fazer era se preparar para enfrentar a maior e mais sofisticada guerra de narrativas  já em curso. Se preocupar com aplicativo de celular é o mínimo. O pior está por vir. O que não pode ser ameaçado é a solidez do processo eleitoral brasileiro.



Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.