A farsa da política ambiental e social do governo Lula
- Enquanto o governo Lula fala em “financiar comunidades indígenas”, falta-lhe a coragem de enfrentar as condições materiais que degradam a Amazônia: a ausência de infraestrutura, a desordem fundiária, e a negligência com o pequeno produtor e o cidadão urbano amazônida, cada vez mais relegados a uma posição inferior dentro de um país cuja Constituição, embora mande que se busque a igualdade, também é relegada ao esquecimento.
O anúncio da criação de fundo voltado ao desenvolvimento de comunidades indígenas, a ser formalizado durante a COP-30, em Belém, revela muito mais do que uma medida de política ambiental — mostra a persistência de uma lógica de tutela estatal e dependência financeira internacional, travestida de solidariedade climática.
Segundo o projeto, concebido pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e operado financeiramente pelo Funbio, o fundo deve captar ao menos R$ 550 milhões em quinze anos, com aportes de bancos multilaterais e doações externas.
A narrativa é nova: fortalecer a governança indígena, financiar a bioeconomia, ampliar a autonomia das comunidades. Mas o enredo é antigo: o Estado brasileiro delega sua responsabilidade de promover desenvolvimento humano concreto à benevolência estrangeira.
A experiência mostra que recursos internacionais, sob o discurso de proteção ambiental e inclusão social, raramente se traduzem em prosperidade real.
São valores que financiam consultorias, relatórios e burocracias, mas não passam desse plano e tampouco chegam às cidades amazônicas que sofrem com abandono estrutural, ausência de saneamento, educação precária e economia asfixiada por regulações e omissões.
A novidade, e talvez o aspecto mais preocupante, é que o governo federal passa a internalizar esse discurso como política oficial, tornando-se agente captador e mediador do capital estrangeiro sob o selo da “agenda indígena”. Ou seja, a retórica da proteção — antes usada por ONGs e organismos multilaterais para justificar restrições à exploração de recursos naturais — agora se funde à retórica estatal da arrecadação, convertendo o indígena em símbolo de marketing político-financeiro.
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Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.