CPI da 'Águas de Manaus' e o desastre da privatização
Não era sem tempo. A Câmara de Vereadores aprovou a instalação da CPI da “Águas de Manaus”, mas infelizmente seu alcance é limitado: visa apurar a cobrança da taxa de esgoto - supostamente indevida - falta de saneamento básico e desabastecimento. O cerne do problema é outro.
O que salta aos olhos hoje são as consequências de um processo de privatização eivado de vícios, onde o interesse privado se sobrepôs ao interesse público. Aliás, os atuais vereadores poderiam olhar com lupa os anais da própria Câmara. Vão encontrar uma investigação rigorosa, feita em duas CPIs, em 2005 e 2012, onde foram apontados erros, renúncia ao patrimônio público, conluio entre empresas e políticos, além da ideia farsesca, amplamente disseminada, de que a privatização resolveria todos os problemas de abastecimento da cidade.
Beneficiou empresas que se apropriaram de um patrimônio valiosíssimo e ainda estimularam os governos a construir adutoras em áreas não beneficiadas. Como havia uma concessão legítima, esse grupos tiveram mais um privilégio: se apropriaram de obras cujos recursos - cerca de R$ 400 milhões na época, mais de R$ 2 bilhões em valores de hoje, saíram do bolso do contribuinte, esse mesmo que paga pelo esgoto que não tem e por um serviço muito precário no fornecimento de água.
Já era evidente que o processo de privatização da Manaus Saneamento, uma subsidiária da Cosama, era uma farsa, com muitos donos e muitas mãos. Vejam só. Em 20 anos o controle da concessão foi transferido sem nenhuma interferência do poder público para o Grupo Suez, depois para o Grupo Sorvi, em seguida para a Águas do Brasil e depois para o Grupo Agea Saneamento e Participações, dono da Águas de Manaus.
Na prática, esses grupos têm a mesma raiz e o mesmo fim. Se têm boas intenções é preciso demonstrar.
Os vereadores que participarem da CPI têm o dever de ir a fundo, buscar o início da privatização e avaliar com muito critério se recursos da sociedade foram drenados para bolsos de administradores e políticos inescrupulosos.
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Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.