Psiquiatra vê sinais de delírio em áudio de mulher que fez sexo com morador de rua
O caso da mulher que teve relações sexuais com um homem em situação de rua e repercutiu em todo o país é alvo de investigação na tentativa de desvendar se Sandra Mara Fernandes foi vítima de estupro ou não.
Em meio a isso, o psiquiatra Rafael Maksud, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), aponta que há indícios de que a mulher estivesse passando por um surto psicótico. No entanto, é importante haver uma análise profunda da paciente ou de seu histórico para que seja fechado um diagnóstico.
Segundo ele, há sinais que se mostram antes de chegar a um nível mais crítico da doença. O psiquiatra afirma que é possível notar alguns desses sinais no áudio, indicando que a mulher estivesse fora de si. Um exemplo é o “delírio místico" quando ela cita Deus, já que o marido, Eduardo, afirmou que ela não tinha o costume de "evangelizar" ninguém e que tinha começado a frequentar a igreja há poucos dias.
“Quando falamos de surto psicótico, isso não vem a se desenvolver de uma maneira tão abrupta, em aspecto de minutos ou horas. A pessoa, antes de chegar a um quadro clínico agudo, ela vai dando alguns indícios anteriores de alteração de comportamento, de pensamento. Em raras exceções, acontece de forma abrupta quando há uso de substâncias psicoativas ilegais. Quando o marido diz que ela poderia estar tendo um surto, significa que possivelmente ele já vinha percebendo alguma alteração de comportamento, de pensamento, como alguma atitude mais inadequada, inapropriada, uma fala um pouco mais confusa, desconexa. Convivendo com a pessoa diariamente, ele com certeza observaria isso.”, disse Maksud ao jornal O Globo neste sábado (19).
“Fica muito difícil, somente com o áudio, analisar questões de adoecimento psíquico.Mas quando ela diz que aceitou se relacionar com o morador de rua porque estava vendo a imagem de Deus e, em outros momentos a imagem do esposo, há um sinal de alteração na percepção, alucinações visuais, auditivas, que compõem um surto psicótico. Quando ela fala da bíblia, que sentia que aquela era uma missão dela, já é um discurso que pode-se subentender como um delirante místico, de conteúdo religioso, onde de fato, se a pessoa está nesse quadro mais agudo, pode gerar esse discurso desagregado, com ideias delirantes, e o indivíduo acaba acreditando nessa fantasia criada na mente dele”, afirmou.
Sobre o comportamento do morador de rua, o psiquiatra aponta: “Eu não sei quais eram as condições deste homem que teve relações sexuais com a mulher e seu estado de sanidade. Mas, se ele se encontra em estado de sanidade plena, é bem provável sim que possa ter acontecido de ter tirado proveito da situação, mesmo sabendo que alguma coisa ali poderia estar acontecendo de errado, que aquela moça não estava no seu estado de plenitude, falando coisa com coisa, e com comportamentos inapropriados. É normal que a gente veja pessoas com surtos psicóticos vivendo uma fantasia como se fosse pura realidade, inclusive tendo comportamentos como a hiperssexualidade em alguns casos, euforia... Depende muito, e o quadro precisa ser muito bem analisado”.
“Nesses surtos agudos, é necessária uma internação psiquiátrica para que a gente possa tirar essa pessoa do estado agudo e trazê-la para uma consciência mais plena, e trabalhar o seu retorno à vida em sociedade, claro, com suporte profissional e familiar.”, completou.
“Quando nos deparamos com uma pessoa que já está desenvolvendo um transtorno na linha das psicoses, realmente ela muitas das vezes não está no seu estado de consciência plena, não está apta a entender o que é certo ou errado nas suas tomadas de decisões. Então, ela se encontra fragilizada, vulnerável, ou seja, em risco de exposições a si e, muitas vezes, a outras pessoas também. Esta mulher, se constatado de fato um adoecimento psíquico nessa linha de psicoses, se torna vulnerável com certeza; porque ela não responde por si. E mesmo uma pessoa leiga observando, quando notar um discurso mais desagregado, desconexo, realmente vai perceber que tem alguma coisa errada.”, disse ele.
Maksud salienta, por fim, que é necessária uma análise médica profunda para traçar um diagnóstico sobre a mulher: “O que a gente pode subentender é que, com essas possíveis alterações, se essa pessoa realmente estiver adoecida psiquicamente, é algo que tem que ser muito bem investigado. Inicialmente, num contexto de internação em regime fechado, sendo feito um tratamento muito intensificado. Investigar histórico, conversar com essa pessoa, principalmente após ela ir retomando seu padrão de sanidade. É importante ouvir familiares, tentar entender todo o histórico dessa pessoa. Em 95% das vezes o diagnóstico psiquiátrico é muito baseado através de uma boa anamnese, ou seja, um histórico de vida muito bem detalhado, desde a infância, adolescência, até a vida adulta”.
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