UE enfrentará desafios na área militar e ataque das big techs em nova era Trump
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LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - "As nossas férias da história acabaram". A frase é de Alexander Stubb, presidente da Finlândia, durante um encontro de chefes de Estado da região do mar Báltico na semana passada, em Helsinki.

Tarifa da discórdia e ameaça de demissão pelo CDL
Ele fazia referência ao retorno de Donald Trump ao governo dos Estados Unidos, nesta segunda-feira (20). De fato, especialistas preveem que tempos complicados se anunciam para a União Europeia. Segundo eles, o bloco terá que líder com duas questões-chave, para além das possíveis sanções comerciais: a defesa militar e a ofensiva das big techs contra o seu território.
Nos dois casos, vale recordar o primeiro mandato de Trump e, na comparação, o segundo parece ainda mais desafiador.
"Em sua primeira presidência, Trump pressionou a UE para aumentar seus gastos com defesa", diz Folha o cientista político espanhol Francisco Rodríguez-Jiménez, coautor de um livro sobre Trump, "Breve História de uma Presidência Singular". "Agora, com a guerra [na Ucrânia], a pressão será muito maior".
Rodríguez-Jiménez lembra que os orçamentos militares dos países da UE variam em termos de porcentagem de PIB segundo a distância que os separa da Rússia. "Os maiores gastos são da Polônia e da Estônia, da ordem de 4%", diz sobre dois países cujos primeiros-ministros, Donald Tusk e Kristen Michal, respectivamente, estiveram no encontro em Helsinki.
Já a Espanha e a Irlanda, "que ficam longe, investem cerca de 1% do PIB ou até menos", afirma o cientista político, codiretor de um centro de estudos de política internacional ligado à Universidade de Salamanca.
Foi-se o tempo em que a Europa era um paraíso protegido pelo poder militar dos EUA, como escreveu em 2003 o historiador americano Robert Kagan em seu livro "Do Paraíso e Poder". Estar de volta à história, nas palavras do chefe de Estado finlandês, significa responsabilizar-se pela própria defesa. Será um desafio dada a disparidade de gastos e as idiossincrasias da política interna de cada país.
"As nações europeias abriram mão de parte de sua soberania em questões fiscais ou monetária. O ideal agora seria que fizessem o mesmo em defesa, com um orçamento unificado", afirma Rodríguez-Jiménez.
No caso das big techs, o cenário em relação ao governo anterior de Trump também se tornou mais desafiador. "O grande diferencial é a presença de Elon Musk", diz o advogado brasileiro Ricardo Campos, professor-assistente na Universidade Goethe, em Frankfurt, e especialista em legislação sobre plataformas digitais.
"Em sua primeira administração, Trump passou grande parte do tempo em guerra com as plataformas. Agora, elas o querem como aliado." O republicano alojará Musk em sua gestão, num recém-criado Departamento de Eficiência Governamental.
O presidente eleito americano recebeu outro endosso importante do mundo digital quando Mark Zuckerberg, fundador da Meta, decidiu demitir checadores do Instagram e do Facebook. "As plataformas viram aí uma janela de oportunidade", diz Ricardo Campos. "Elas querem transformar uma questão normal o fato de que empresas multinacionais se submetem ao ordenamento jurídico dos países em que atuam numa questão diplomática, de suposta defesa de empresas americanas no estrangeiro."
Para a revista britânica The Economist, os EUA sempre exerceram seu poder em nome de valores como liberdade e democracia. Trump representaria uma inflexão: o seu "America First", EUA antes de tudo, é apenas uma defesa de um país contra os outros, não de uma ideia.
O caso das big techs é ilustrativo. De um lado, a UE promulgou em agosto passado sua Lei dos Serviços Digitais, considerada por especialistas como Ricardo Campos um avanço na defesa do debate democrático baseado em evidências. De outro, o governo Trump sinaliza que irá endossar empresas americanas que consideram esse tipo de lei uma forma de censura.
A Lei dos Serviços Digitais, no entanto, segue inspirando a discussão sobre plataformas digitais mundo afora, como se vê por exemplo nos casos do Brasil e da Austrália. No contraponto com o "America First" de Trump, a Europa poderia se fortalecer como soft power?
"Isso só ocorrerá se a UE se mantiver unida", diz Rodríguez-Jiménez. "O objetivo do novo presidente americano é dividir o continente em países pró-Trump e anti-Trump. Pesquisas mostram que o mundo admira o Estado de Bem-Estar Social, a democracia e os direitos individuais. Está ao alcance da UE fazer disso uma de suas forças".

ASSUNTOS: Mundo