A política como profissão
Uma breve conversa com crianças (no bairro onde moro) sobre o que gostariam de ser, ou a profissão desejada, a resposta não surpreendeu: ‘político’. Uma única criança, o Alberto, respondeu diferente: “conselheiro do Tribunal de Contas”. Todos querendo uma vida fácil, o que é compreensível.
O País é pobre e os políticos fazem parte de uma classe privilegiada: definem os próprios salários, o tempo de trabalho, o número de pessoas (ou assessores) que deverão servi-los e detêm inúmeros privilégios.
A escolha das crianças, se baseada na percepção de que a política, como entendemos, é uma ciência aplicada e que o político tem a função de administrar, gerir ou legislar, revelaria que um novo tempo se aproxima, que em 20 ou 30 anos o eleitor será melhor representado.
Mas não é isso. De tanto ouvirem falar que os políticos vivem criando oportunidades para eles mesmos, como “auxílio saúde”, “cartão corporativo”, “auxílio transporte”, “auxílio moradia”, ninguém mais quer ser médico, advogado ou professor.
Se parece fácil a vida do político - e de fato é - o difícil é ter a necessária retaguarda financeira para disputar uma eleição. A dificuldade está aí.
Embora seja facultado a qualquer brasileiro com 18 anos disputar uma vaga de vereador ou deputado, o processo de triagem feito pelo eleitor é degradante: os escolhidos são os que praticam a santa regra franciscana: “é dando que se recebe”.
Como o leitor, por pura necessidade, se deixou corromper, os eleitos geralmente são os que deram mais, ofereceram mais, venderam facilidades.
As crianças que ouvi são pobres, talvez nunca tenham a oportunidade de, no futuro, disputar uma eleição. Mas se o Albertinho tiver amigos influentes, poderá, sim, chegar ao TCE…
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.