Compartilhe este texto

Sentença de morte na Barra

Por Agência O Globo

14/06/2017 21h06 — em
Rio de Janeiro



RIO - Uma grande disputa por território, que une os interesses de policiais ligados a milícias e bicheiros, pode estar por trás da execução, na madrugada de quarta-feira, de Haylton Carlos Gomes Escafura, de 37 anos — filho do contraventor José Caruzzo Escafura, o Piruinha — e da namorada dele, a policial militar Franciene de Souza, de 27. O crime teve cenas cinematográficas. Com fuzis e pistolas, três bandidos encapuzados invadiram o Hotel Transamérica, na Barra, e se dirigiram para o apartamento onde estava o casal, no oitavo andar. A Divisão de Homicídios (DH) da Polícia Civil suspeita que o caso tem ligação com a exploração de máquinas caça-níqueis na Zona Oeste da cidade, que se tornou um dos negócios mais rentáveis da contravenção.

De acordo com investigações, Haylton, que tinha saído da prisão há aproximadamente cinco meses, tentava recuperar parte dos pontos de caça-níqueis da região. Quando foi preso, ele arrendou máquinas para outra quadrilhas, mas queria recuperá-las. A área teria sido negociada com o ex-policial Marcelo Simões Mesqueu, o Marcelo Cupim, que explorou a região enquanto Haylton cumpria pena.

— A situação (entre Haylton e Marcelo Cupim) não foi bem resolvida. Haylton retomou os negócios, mas Cupim não teria gostado. Não ficou satisfeito — afirmou um policial que participa das investigações.

O bicheiro havia sido preso em 2012 pela Polícia Federal, durante a operação Black Ops, e condenado a uma pena de 15 anos e quatro meses, parcialmente cumprida. Segundo investigações, Haylton e seus cúmplices usavam a venda de carros de luxo para lavar o dinheiro da contravenção. Na época, músicos e jogadores de futebol ficaram na mira da polícia. O bando foi acusado de contrabando, comércio ilegal de pedras preciosas, formação de quadrilha e evasão de divisas.

O filho de Piruinha assumiu os negócios do pai, segundo um relatório da operação Black Ops. De acordo com o documento, “Haylton Escafura segue os passos do pai, está à frente dos negócios e já tem ostentado esta condição frente aos demais parceiros e rivais”.

Haylton estava em liberdade condicional, mas a Justiça tinha informações de que voltara para o crime. Em 2015, acusado pela Vara de Execuções Penais de descumprir as regras do regime semiaberto, o contraventor perdeu o benefício e foi, mais uma vez, preso. Em um despacho, a VEP afirma: “Há fundados indícios de que Haylton continua reiterando em práticas criminosas relacionadas à contravenção penal”. Haylton passou a cumprir a pena novamente em regime fechado e ficou seis meses em Bangu 1, penitenciária de segurança máxima no Complexo de Gericinó.

As características da execução reforçam a suspeita de que o crime tem relação com os negócios de Haylton com máquinas caça-níqueis. Segundo a polícia, os bandidos também buscavam documentos. Três deles entraram de carro pelo estacionamento do hotel. Enquanto dois subiram oito andares de escada para não serem vistos por funcionários, um permaneceu no veículo. A dupla disparou contra a porta do quarto, que foi arrombada. Haylton e Franciene tentaram se proteger e correram para o banheiro, trancando a porta. De nada adiantou. Os bandidos dispararam mais de 20 tiros contra a porta. Atingidos pelas balas, Haylton e Franciene morreram na hora. Foram recolhidas cápsulas de vários calibres, que serão analisadas pela perícia. O Batalhão de Operações Especiais (Bope) foi acionado para fazer buscas no local, mas não localizou suspeitos.

A PM Franciene, de acordo com o Comando das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), era lotada no 23º BPM (Leblon) e trabalhava na UPP da Rocinha, na Zona Sul. Ela estava na Polícia Militar desde 2014 e deixou uma filha de 5 anos.

O delegado Fábio Cardoso, da Delegacia de Homicídios (DH), disse que há indícios de que os bandidos planejaram toda a ação.

— A ação demonstra ousadia, mas também indica que, possivelmente, os autores, antes de executarem o crime, buscaram informações no local — afirmou o delegado.

A DH já está de posse de imagens de câmeras de segurança do hotel que teriam filmado parte da invasão do estabelecimento. A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa do Transamérica, que alegou ter cedido o material à polícia. O hotel também confirmou que Haylton morava no local.

Em setembro do ano passado, um outro envolvido com exploração caça-níqueis foi assassinado. O sargento PM Marcos Falcon, presidente da Portela, e que tinha negócios na área de Piruinha, foi morto com tiros de fuzil em Campinho.


Siga-nos no
O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

ASSUNTOS: Rio de Janeiro

+ Rio de Janeiro