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De mulata a passista bossa nova, só dá ela na passarela

Por Agência O Globo

04/02/2017 21h02 — em
Rio de Janeiro



RIO — Mexendo os quadris, equilibradas em saltos altíssimos e cheias de sorrisos, elas atravessam, soberanas, a Sapucaí ano após ano. Muitas rodam o mundo, antes e depois do carnaval, para fazer shows. Ganham a vida dançando. A maioria delas passistas, artistas do samba no pé, são as maiores musas da festa: as mulatas. Mas esta palavra já não anda tão bem aceita assim. Integrantes do movimento negro condenam o seu uso. Blocos começam a evitar músicas e marchinhas que utilizam o termo em suas composições. Assunto polêmico, que tem gerado debates infindáveis.

— Mulata não é cor de pele. É uma profissão — defende Nilce Fran, coordenadora da ala de passistas da Portela. — Uma mulata pode ser branca, por exemplo.

Responsável por revelar os novos talentos da azul e branco, Nilce acredita que o preconceito está mais na cabeça das pessoas.

— No meu mundo, a palavra remete à arte. Tenho muito orgulho disso. As pessoas é que entendem o termo como pejorativo. O preconceito está mais na cabeça de quem decide não usá-lo. Quem gosta, quem aprecia, entende de uma outra forma — comenta.

A palavra mulata vem do termo mula, animal híbrido e estéril, produto do cruzamento do cavalo com a jumenta ou da égua com o jumento. Na visão de estudiosos, a comparação revela o racismo escancarado de um Brasil escravocrata, que passou a designar assim pessoas descendentes de pais brancos e negros.

Autor do livro “De Onde Vêm As Palavras”, o etimologista Deonísio da Silva critica a ideia de banir o termo. Segundo ele, mulata ganhou novos sentidos com o passar dos anos, inclusive com exaltações e elogios à mulher, deixando de lado a comparação com a mula de sua gênese.

— O pessoal do politicamente correto anda exagerando muito — comenta o estudioso. — Não dá mais para julgar as coisas só pelo berço da palavra. O reino das palavras é mais complexo do que os politicamente corretos. São muito simplórias essas definições.

Foi somente na década de 1960 que a palavra realmente se popularizou. Com a ajuda do empresário Oswaldo Sargentelli, que promovia apresentações com dançarinas em casas de shows, levando as mulheres até para o exterior, uma nova profissão surgia para além das quadras e da Avenida. Nascia a mulata-show.

Primeira rainha de bateria da Mocidade, musa inspiradora de Oscar Niemeyer para a criação do sambódromo e estrela do clássico comercial das Sardinhas 88, de 1978, Adele Fátima lembra com carinho do tempo em que trabalhou com Sargentelli. Filha de um alemão com uma carioca, ela se autodefine, orgulhosa, como mulata:

— Sargentelli tinha um carinho enorme e muito zelo pela gente, embora o trabalho fosse de biquíni. Mulata era o jeito carinhoso que ele tinha de falar. Não havia preconceito.

Musa da Mangueira há sete anos, Rafaela Bastos ressalta, no entanto, que a palavra mulata vem caindo em desuso, sendo substituída por passista no meio carnavalesco.

— Sinceramente, para nós passistas, não há valor pejorativo, pois nossa estima e empoderamento são grandes. Mas, para o outro que nos vê, tem. Esse termo carrega o preconceito e reforça estereótipos que diminuem mulheres negras, passistas ou não — opina.

Para Lucia Xavier, coordenadora da ONG Criola, que há 25 anos luta pelos direitos das mulheres negras, a palavra mulata já deveria ter caído em desuso.

— Particularmente, o termo revela um processo racista bastante grave em relação às mulheres negras. É o reforço de um lugar que a gente não quer mais. Chega o carnaval, e a gente vira mulata. Vai de novo nos desumanizar — disse Lucia, que também apoia mudanças no carnaval de rua. — Outros blocos podem trazer diferentes músicas para melhorar o conteúdo do carnaval. Não vou dizer que sou contra, mas podemos mudar. É uma escolha política.

Para Cris Alves, musa do Salgueiro, tudo depende da maneira como a palavra é falada:

— Sou negra, mas podem me chamar de mulata à vontade. Sei que não estão querendo me chamar de mula. Vai depender do tom. A palavra em si não me ofende.

Evelyn Bastos, rainha de bateria da Mangueira, diz que “as palavras não devem ser presas eternas da etimologia”:

— Palavras como preta e mulata eram associadas aos racismo escancarado da escravidão, mas hoje vivemos uma outra época. Quem gosta de carnaval e é livre de preconceito deve continuar falando e cantando, sim. Já quem é preconceituoso deve se curar dessa doença.

A marchinha “O Teu Cabelo Não Nega”, de Lamartine Babo e dos Irmãos Valença, vem sendo retiradas do repertório de blocos de rua que consideram ofensiva a estrofe “O teu cabelo não nega, mulata/ Porque és mulata na cor/ Mas como a cor não pega, mulata/ Mulata, eu quero o teu amor”. Já “Tropicália”, de Caetano Veloso, que também tem versos com a palavra multada, ganhará uma performance no desfile do bloco Mulheres Rodadas, na Quarta-Feira de Cinzas.

Especialista na cobertura da folia e roteirista do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris” (2011), o jornalista Aydano André Motta é da opinião que as pessoas devem ser chamadas do que quiserem:

— No carnaval, mulata não tem a mesma conotação que tem no resto do mundo. Sou do entendimento que qualquer termo que ajude a desqualificar os negros é ruim. E mulata é um desses termos que se usa para embranquecer os negros. Respeito a diversidade e a pluralidade, inclusive de os blocos tocarem outras músicas. Acho que é democrático — defende.


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