Após ‘esfirraço’, refugiado sírio planeja comprar food truck e fazer eventos fora do Rio
RIO - "Posso te dar um abraço?" foi uma das perguntas mais ouvidas pelo refugiado sírio Mohamed Ali Abdelmoatty Ilenavvy, de 33 anos, neste sábado, em Copacabana. Vítima de xenofobia e agressões verbais há duas semanas, ele recebeu o apoio de centenas de cariocas de vários cantos do Rio. Muitos aproveitaram para provar pela primeira vez os quitutes árabes vendidos por ele.
O evento, convocado nas redes sociais, ganhou o nome de "Esfirraço" e formou longas filas durante todo o dia na Rua Santa Clara. Entre fotos, selfies e entrevistas, Mohamed retribuiu todo o carinho, afirmando ser "a pessoa mais feliz do mundo".
- Estou muito feliz. Muito mesmo. Sou a pessoa mais feliz do mundo hoje. E estou muito orgulhoso porque vivo no Brasil, amo todo mundo e fiquei muito surpreso com o movimento. Já perdoei aquele homem (o agressor) - disse Mohamed, que não soube estimar quantos salgados vendeu neste sábado, mas afirmou que foi o dia mais lucrativo desde que chegou ao Rio, há três anos.
A estudante Letícia Azevedo saiu de Niterói para conhecê-lo e demonstrar seu apoio.
- Achei bacana o evento e resolvi vir para demonstrar que estou a favor dele. O caso mexeu muito comigo - comentou.
Para a professora de língua portuguesa Vanessa Souza, moradora de Laranjeiras, o evento serviu como uma resposta contra a intolerância:
- Estamos vivendo um movimento mundial de muita intolerância. E essa iniciativa mostra que a força das pessoas que não concordam com isso é muito grande.
Mais de 11 mil pessoas confirmaram presença no evento pelo Facebook. Desde que o caso de agressão veio à tona, Mohamed já foi homenageado na Câmara Municipal, ganhou uma licença para trabalhar das mãos do prefeito Marcelo Crivella e trocou de barraca.
Já conseguiu arrecadar R$ 4.600 para comprar um food truck, avaliado em R$ 20 mil. No próximo sábado, ele fará um evento semelhante em Campo Grande. Também negocia uma ida a São Paulo para vender seus quitutes.
Apesar de toda a corrente de solidariedade, a poucos quilômetros dali, no Arpoador, um grupo de cerca de 20 pessoas fez um protesto com ataques contra muçulmanos. Vestidos de preto e carregando cartazes com inscrições como "muçulmanos: assassinos, sequestradores, estupradores", eles caminhavam em silêncio pela orla.
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