Compartilhe este texto

Mordida de morcego leva a peregrinação por soro antirrábico

Por Agência O Globo

12/01/2018 21h01 — em
Rio de Janeiro



Após ser mordido por um morcego no dedo indicador, numa residência no Leblon, Atila Roque, de 58 anos, teve que iniciar uma peregrinação em busca de tratamento. Na noite da última quinta-feira, 11, durante quatro horas, ele percorreu, em vão, três hospitais municipais em busca do soro antirrábico que deve ser administrado paralelamente à vacina. Essa medicação complementar é necessária quando a vítima é atacada por um animal sem origem conhecida (como ocorre em situações envolvendo cachorros de rua, por exemplo).

“INFORMAÇÃO FOI TRUNCADA”

Atila, que é ex-diretor da Anistia Internacional e atualmente dirige a Fundação Ford no Brasil, só conseguiu receber as doses ontem, após constatar que não havia material necessário nas unidades de saúde e, segundo ele, esbarrar na falta de informação dentro da rede pública.

— Essa é a tragédia da saúde. E eu sou privilegiado. Tive acesso a médico particular que me deu orientação. Pude correr em busca de assistência à noite, de carro. Ontem, sexta-feira, em vez de ir ao trabalho, fui ao posto de saúde. A informação foi truncada, não recebi informação clara. Você não está indo a qualquer hospital, mas às unidades supostamente de referência. Recebi informações contraditórias. O tempo de incubação, no caso da raiva, é de no máximo sete dias. Há uma falência grave no sistema de saúde, profissionais estão sobrecarregados. Pessoas passam por muito sofrimento — lamentou Atila.

Segundo a Secretaria municipal de Saúde, a recomendação para quem é mordido por animal é procurar um dos 36 centros municipais de saúde, clínicas da família e policlínicas que aplicam vacina antirrábica. Já o soro é administrado somente em três hospitais da rede, considerados referência no atendimento contra a raiva: Souza Aguiar, no Centro; Lourenço Jorge, na Barra, e Pedro II, em Santa Cruz. Em caso de emergência, a vítima pode ser socorrida diretamente num desses hospitais.

Como buscou atendimento à noite, quando as unidades da rede básica já estavam fechadas, Atila procurou primeiro o Hospital Municipal Rocha Maia, em Botafogo, onde não há soro. Em seguida, foi ao Souza Aguiar, e, de acordo com ele, funcionários informaram que até havia a medicação, mas primeiro deveria receber a dose da vacina. Atila decidiu ir ao Lourenço Jorge, onde a medicação estava em falta naquela noite. No local, foi orientado a voltar ao Souza Aguiar. Em vão. Após uma hora e meia de espera, soube que a quantidade de soro não era suficiente para a dose.

Ontem à tarde, depois de ser vacinado no Centro municipal de Saúde Manoel José Ferreira, no Catete, ele foi orientado a buscar o soro no Lourenço Jorge, que, àquela altura, já tinha recebido o medicamento. No caso dele, o tratamento será feito com quatro doses ministradas ao longo de 28 dias.

Apesar de o tempo de incubação da doença variar de 15 dias a até alguns meses, o infectologista Edimilson Migowski diz que o atendimento precisa ser rápido:

— Profilaxia contra a raiva a qualquer momento é melhor que em momento algum. Mas, quanto antes o paciente receber as doses, menor a chance de o vírus entrar na célula nervosa e de a pessoa desenvolver a doença. É preciso que o atendimento seja ágil. Lesão em rosto ou em extremidades é sempre grave.

NO RIO, 63 CASOS EM 2017

No ano passado, foram registrados 63 casos de mordidas de morcego na cidade. Em 2016, o número de casos foi 61 e, em 2015, houve 88 notificações. A prefeitura ainda não tem dados deste ano, pois o monitoramento é mensal. Em nota, a Secretaria municipal de Saúde informou que o soro antirrábico é fornecido pelo Ministério da Saúde e o reabastecimento dos hospitais de referência é realizado regularmente. Um novo lote chegou ontem aos hospitais. Ainda segundo o órgão, a vacina deve ser tomada preferencialmente em até 72 horas após a mordida.


Siga-nos no
O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

ASSUNTOS: Rio de Janeiro

+ Rio de Janeiro