O Amazonas, além da capital, é formado por 61 municípios do interior, que aparecem pouco no noticiário da imprensa manauara. É discutível se a distância entre a capital e alguns desses municípios seja mais de mil quilômetros e essa realidade atrapalhe, mas é certo que os prefeitos, por exemplo, deixem de ser “invisíveis” e ocupem as manchetes apenas quando são presos. Ou se metem em qualquer tipo de escândalo e são denunciados. Neste momento, a bola da vez é Simão Peixoto (MDB), prefeito reeleito de Borba (a 151 km de Manaus), preso na terça-feira 9 e afastado do cargo por 180 dias. Peixoto é tri.
Em 2023, foi preso duas vezes. Agora, é acusado de tentar manipular testemunhas no caso de uma investigação de recursos públicos durante a pandemia da Covid-19, em 2020. Vereador de dois mandatos consecutivos, 41 anos, empresário, ensino médio incompleto (declarado ao TSE), mantém uma página no Facebook com 7,8 mil seguidores (segue apenas 7). Última postagem é de 1º de novembro de 2023, quando informou sobre a sua filiação ao MDB (partido do senador Eduardo Braga). Prisões em 2023: em março, pelos crimes de ameaça, desacato e difamação contra uma vereadora; em maio, por acusação de comandar uma organização criminosa que teria desviado quase R$ 30 milhões em lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, além de fraudes em licitação.
Ainda no currículo do polêmico Peixoto consta um murro no presidente da Assembleia Legislativa, Roberto Cidade (União Brasil). Além de uma muito comentada luta com um desafeto político de Borba, em dezembro de 2021. Ao fim, foi declarado vencedor. “O povo delirava no ginásio”, publicou um portal. Resultado: sem cobrança de ingresso para ver o “combate”, moradores doaram itens da cesta básica, num total de quatro toneladas. O evento pode ter entrado para o folclore político baré. Satirizar antigos prefeitos do interior, sabe-se, é pura diversão. Um exemplo é Odorico Paraguaçu, prefeito da fictícia Sucupira, impagável criação do dramaturgo Dias Gomes. Mas precisa continuar assim?
E OS OUTROS? ALGUNS CASOS PARA RELEMBRAR
Prefeito de Santa Isabel do Rio Negro (a 631 km de Manaus), Mariolino Siqueira de Oliveira foi preso no dia 10 de maio de 2016, junto com alguns secretários e familiares, incluindo filho e nora. Acusação: líder de uma organização criminosa que teria desviado verbas públicas no valor de R$ 10 milhões, montante transferido para contas pessoais dos seus integrantes. Mariolino teve o mandato cassado. Em janeiro de 2017, o TCE (Tribunal de Contas do Estado) determinou que ele devolvesse R$ 21,4 milhões, conforme o noticiário da época.
Outro caso de prisão aconteceu em 31 de maio de 2012, quando José Maria Muniz já não era mais prefeito de Iranduba (a 27 km de Manaus). Mas ele foi condenado pela Justiça Federal do Amazonas, por crime de responsabilidade cometido em sua administração. O processo tramitava desde 2001, ele chegou a ser condenado a oito anos e seis meses de prisão em 2008, mas recorreu da decisão em liberdade. A origem da briga judicial era um convênio para beneficiar terrenos e construir unidades sanitárias básicas destinadas a pessoas carentes, mas o então prefeito teria ficado com o dinheiro.
QUANDO SERÁ?
Nem sempre a prisão de prefeitos é por desvio de recursos públicos ou crimes de pedofilia. Em 2018, o prefeito de Humaitá (a 675 km de Manaus) Herivâneo Vieira de Oliveira, foi preso sob acusação de incentivar e participar da destruição de bens da União, durante uma operação de fiscalização a garimpo de ouro. Em 2018, o prefeito de Urucurituba, Claudenor de Castro Pontes, recebeu voz de prisão durante uma ação do Ministério Público, que investigava lavagem de dinheiro. A Coluna pinçou alguns exemplos (se procurar, a lista é longa) que demonstram a forma mais comum de o distinto público “conhecer” prefeitos e municípios aqui mesmo do Amazonas: pelo lado negativo.
Além dos habitantes de Santa Isabel do Rio Negro, quantas pessoas dos demais municípios sabiam quem era Mariolino até o momento da prisão? E do próprio município, sabiam o quê? Numa rápida comparação sobre o que é divulgado sobre Manaus e a prefeitura (seja lá quem esteja na cadeira), é fácil perceber o quanto as 61 cidades do interior e seus administradores estão, por assim dizer, fora do radar. Por que as festas folclóricas e religiosas (só para citar um exemplo) não ganham o merecido espaço na chamada grande mídia de Manaus? Junto com as comemorações de aniversário dos municípios, são eventos que reúnem multidões, proporcionam momentos de lazer e fazem a economia girar. Igualmente não se pode ignorar a importância política local.
Em mais de uma ocasião, a Coluna tem sugerido maior atenção da Redação, para incluir mais os municípios do interior nas pautas. No auge da quase tragédia provocada por incêndios de floresta, seca, calor e fumaça, não se via manifestação de prefeitos dos munícipios em “estado de emergência” ou “estado de calamidade”. Na Coluna “A bonança ainda não chegou”, publicada em 8 de outubro de 2023, repetiu-se a sugestão, inclusive lembrando que depois da seca vem a enchente, outro fenômeno da natureza que também preocupa a população ribeirinha amazonense.
Não que maior espaço para os municípios do interior opere algum milagre. Mas pode aproximar um pouco mais os conterrâneos espalhados por este “continente” de 1.571.000 km2 - de rios e floresta.
E, quem sabe, não ter apenas notícias ruins. Custa tentar?

