No mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ministros e outras autoridades participaram de uma cerimônia, em Brasília, para registrar um ano da invasão e depredação às sedes dos Três Poderes, aqui no Amazonas a Polícia confirmou que a artista circense Julieta Hernández, venezuelana, foi violentada antes de morrer. Estava desaparecida desde 23 de dezembro. Também ciclista, ela estaria voltando para a Venezuela, quando parou no município de Presidente Figueiredo, Região Metropolitana de Manaus, onde se hospedou na residência de um casal.
Ali, ela foi estuprada, enforcada, queimada e enterrada, de acordo com as investigações da Polícia, divulgadas na segunda-feira 8. O casal, que confessou o crime, está preso. Marido e mulher foram indiciados por latrocínio (roubo seguido de morte), estupro e ocultação de cadáver, de acordo com o delegado Valdinei Silva. No domingo 7, amigos e colegas da artista se reuniram no Largo de São Sebastião, Centro de Manaus, ao lado do Teatro Amazonas, para protestar contra o crime. Ao evento, chamaram de ”Julieta para Sempre”. O assassinato cruel, agora desvendado, teve grande repercussão na imprensa e entre artistas e ativistas. É mais um caso de feminicídio.
Já a cerimônia em Brasília, realizado no Salão Nobre do Congresso Nacional e chamada de “A democracia Inabalada”, lembrou o ataque de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro aos prédios dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, quando destruíram até obras de arte, em cenas de vandalismo inéditas, mostradas pela televisão. Apenas o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) não esteve presente (alegou problemas de saúde na família). Margareth Menezes, ministra da Cultura, cantou o Hino Nacional, um vídeo com imagens da depredação e recuperação dos prédios foi exibido. Nos discursos de Lula e ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e TSE (Tribunal Superior Eleitoral), declarações que se tornaram manchetes e comentários nas redes sociais, numa demonstração de que a polarização política persiste.
Para o presidente Lula, todos que tentaram o golpe “devem ser exemplarmente punidos”. “O perdão soaria como impunidade, e a impunidade como salvo-conduto para novos atentados terroristas no país”. Ele se referiu a Bolsonaro como “ex-presidente golpista”. E ao defender a regulação das redes sociais, declarou: “Ninguém confunda liberdade como permissão para atentar contra a democracia”. Presidente do TSE, Alexandre de Moraes também defendeu punição para os invasores. “O fortalecimento da democracia não permite confundirmos paz e união com impunidade, apaziguamento ou esquecimentos. Impunidade não representa paz nem união”, afirmou. Moraes também é a favor da regulamentação das redes sociais. Quanto a Bolsonaro, já afirmou que os seus seguidores não participaram da baderna em Brasília. Muito pelo contrário. “Nós temos certeza de que aquilo foi uma armadilha por parte da esquerda”, declarou recentemente.
E O CONTROLE DAS REDES SOCIAIS?
O ato de Brasília, na segunda-feira 8, não teve a participação de 15 dos 27 governadores do país. Wilson Lima, do Amazonas, por exemplo, estava em viagem para a China. Para o Planalto, informa a imprensa nacional, a ausência deles não prejudicou o propósito de defender a democracia. Não pensa assim o diretor-geral deste portal, Raimundo de Holanda, em opinião exposta na coluna Bastidores da Política, onde sustenta que o governo esqueceu o povo, ao realizar um evento fechado, que acabou esvaziado, mostrando a divisão do País.
“Fez bem o governo Lula em realizar ato de defesa da democracia, um ano depois da destruição de parte dos prédios dos Três Poderes por manifestantes que pediam intervenção militar no Brasil. Longe de uma esperada mobilização da sociedade em torno do evento, o que se viu foi o seu esvaziamento, com ausência de muitos parlamentares e autoridades, retrato fiel de uma divisão permanente no País. O erro foi fazer um evento fechado sem a presença de quem faz a democracia e a sustenta: o povo”, escreveu Holanda. É a visão do diretor-geral sobre um lado da questão.
O outro lado, ou um dos lados da questão, é lembrar que o “povo” esteve no mesmo local, em janeiro passado, não exatamente para fazer ou sustentar a democracia. Enquanto isso, os discursos de Lula e Alexandre de Moraes sobre a regulação das redes sociais devem esquentar ainda mais os debates sobre o tema. Recentemente, o suicídio de uma jovem que teve a vida pessoal exposta por uma fake news e não aguentou a pressão, suscitou acalorados debates nas redes sociais. Afinal, qual o limite da liberdade de expressão? Até que ponto regras para punição de possíveis delitos não funcionarão como censura, atingindo até a imprensa?
É significativo que o presidente da República e o presidente do TSE tenham incluído o tema em seus discursos, durante um ato que reuniu representantes dos três poderes, com transmissão ao vivo para todo o mundo. Acrescente-se o fato de 2024 ser um ano eleitoral. Mais uma pauta jornalística. Enquanto existir democracia, mesmo sem a perfeição sonhada, a imprensa cumprirá o seu papel de bem informar. A Coluna sugere que a Redação deste portal ouça representantes do Amazonas no Senado e na Câmara dos Deputados, sobre a regulação das redes sociais.
São apenas três senadores e oito deputados federais. Talvez não seja difícil conseguir contato com alguns deles.

