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AMOM MANDEL: É CASO DE POLÍTICA OU POLÍCIA?

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Logo na primeira semana do Ano Novo, abordagem policial a um carro ocupado pelo deputado federal Amom Mandel (Cidadania), na quinta-feira 4, provocou alvoroço na mídia. O caso chegou ao conhecimento público no dia seguinte, com a informação de que o deputado teria acabado numa delegacia, depois de reclamar de abuso de autoridade e dar voz de prisão a um oficial. O episódio teria ocorrido por volta das 22h de quinta-feira, mas durante quase o dia todo de sexta-feira, as informações eram desencontradas e sem confirmação dos envolvidos. Até que Amom convidou a imprensa para uma coletiva na sede de Polícia Federal, mas cancelou logo depois. Da parte da Secretaria de Segurança, a resposta oficial veio apenas no sábado 6, durante coletiva do secretário de Segurança. 

Quanto ao deputado, optou por fazer declarações em suas redes sociais, amplamente divulgadas na sexta e no sábado. Detalhe: Amom também divulgou nota após a entrevista do secretário de Segurança, Marcus Vinícius Almeida, a quem desmentiu, por haver definido a confusão como “cortina de fumaça”. Almeida usou a expressão para se referir às denúncias de um relatório contra a cúpula da Secretaria de Segurança, entregue por Amom à Polícia Federal, por suposta ligação com organizações criminosas e tráfico de drogas. “É uma tentativa do deputado de criar uma cortina de fumaça para tirar o foco do que aconteceu. O que aconteceu foi uma abordagem padrão da Polícia Militar em que, ao final, os policiais foram desrespeitados, humilhados. Esses são os fatos”, afirmou o secretário. 

No texto da nota divulgada, Amom explica que a denúncia entregue à PF no dia 13 de dezembro, “sobre o suposto envolvimento de membros da alta cúpula da Segurança Pública do Amazonas com organizações criminosas”, entregue à imprensa local no sábado 06, “foi mantida em sigilo por questões de segurança”. Diz ainda que, nas semanas seguintes à entrega da denúncia (Amom já repetiu não ser o autor), ele “sofreu ameaças, insinuações e intimidações de diversas vertentes, além de ter sido alvo, junto com a sua companheira, de uma abordagem policial truculenta”.  Por isso, decidiu levar o caso ao público. E conclui, desmentindo o secretário: “Sendo assim, é falsa a afirmativa do secretário de Segurança Pública do Amazonas, Cel Marcos Vinicius, dita em coletiva, de que o deputado fez uma cortina de fumaça”. 

“JOGAR TUDO NO VENTILADOR”

Num dos vídeos de Amom, ele se dirige ao seu público. “Preciso do teu apoio para jogar tudo no ventilador”. No decorrer de todo esse episódio, Amom garantiu que teve arma apontada para sua cabeça e para a sua “companheira”, o que demonstra a truculência policial. Sobre esse item, o próprio secretário de Segurança justificou o uso da arma, citando o incidente com Amom. “Um veículo com insulfilm 100%. O procedimento padrão da Polícia Militar é abordar, sim, com a arma em punho, porque nós não sabemos quem está lá dentro e o policial ali pode receber um tiro e morrer. Não dá para fazer uma abordagem sem estar com arma em punho. Esse é o normal, está previsto no procedimento operacional padrão da Polícia Militar”, afirmou.

No vídeo em que pede apoio para “jogar tudo no ventilador”, Amom insiste na “coação” de policiais e repete que pediu proteção à PF (para ele, o órgão de Segurança do Amazonas não tem condições de proteger a sua vida). Disse mais:  “Se alguém acha que colocar arma na minha cabeça, ou na cabeça da minha companheira, vai me intimidar ou me fazer recuar, está muito enganado”. Em outro momento, garantiu que se algo acontecer com ele, com a família ou pessoas próximas, a PF saberá “quem são os responsáveis e os mandantes”. Um alerta? Uma certa ameaça? Ou apenas retórica para a ocasião? Certo é que na segunda-feira, o deputado mais votado do estado na eleição de 2022, volta para Brasília, onde dá expediente. Vem uma nova semana. Haverá desdobramento? (A Coluna, aqui, comenta apenas os dias de sexta-feira e sábado.)

OPERAÇÃO IMPACTO

O caso envolvendo Amom quase ofuscou o primeiro dia da Operação Impacto, um programa de combate ao crime no Amazonas, anunciado pelo governador Wilson Lima e iniciado exatamente na quinta-feira 4. Uma nova aposta do governo no combate ao crime, aliando serviço de inteligência e policiamento intenso. E aí um carro, transitando pela zona leste, “de forma suspeita, trocando de faixa e com as lanternas desligadas”, não parou quando os policiais pediram (diz a Polícia) e as manchetes foram todas para falar do assunto. Impacto mesmo aconteceu nas Redações, que não conseguiam ter resposta dos envolvidos, para confirmar ou completar informações.  Não se lia nem ao menos o famoso “segundo uma fonte...”. 

Passado esses dois dias, em que ânimos exaltados foram expostos e muitas questões deixaram de ser esclarecidas, verifica-se que o deputado Amom Mandel optou por ficar longe de jornalistas. Chegou até marcar uma coletiva, cancelada sem explicação. Preferiu o recurso da divulgação de notas e vídeos nas suas redes sociais. Muito prático para ele. Também para os repórteres, que poupam tempo: o trabalho só é reproduzir/colar. E tudo num click. Só que a função do repórter é, principalmente, perguntar. O entrevistado pode até deixar de responder alguma questão. Mas no caso do deputado, eleito com mais de 288 mil votos, é lícito pensar que ele tenha obrigação com quem o fez sair da condição de vereador de primeiro mandato para deputado federal. 

O deputado esnobou a imprensa do Amazonas, que teve de divulgar apenas a sua versão dos fatos, sem responder a nenhum questionamento. Por exemplo: de que forma pode ser traduzido o pedido de apoio para “jogar tudo no ventilador”?  

“Tudo” o quê?

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