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UM DIA É CADELA ... OUTRO DIA É ÍNDIA

São dois casos diferentes na motivação, mas semelhantes num ponto: expressões que homens usaram para o que foi interpretado como ofensa a duas mulheres aqui do Amazonas. No primeiro caso, em setembro de 2023, um promotor de Justiça, durante sessão no Tribunal do Júri, comparou a lealdade de uma advogada a de uma cadela (elogiando o animal). E no segundo, ocorrido nos últimos dias, um cantor de pagode chamou de “índia” uma colega de confinamento, no programa BBB24, da TV Globo.

A situação do ano passado já foi resolvida (o promotor até se aposentou) e a de agora pode cair logo no esquecimento, se por acaso um dos dois for eliminado no próximo paredão. Por enquanto, a discussão é sobre o fato de o pagodeiro Rodriguinho ter chamado Isabelle Nogueira de “índia”, em tom pejorativo, e ainda ficar falando pelos cantos que não gosta do ritmo de boi-bumbá. O estrago talvez fosse menor se Isabelle, de 31 anos, não fosse a cunhã-poranga do famoso Boi Garantido (adversário do Caprichoso). 

Matéria da Folha de S. Paulo, divulgada na sexta-feira 12, registra a resposta de Isabelle. “O termo índia é meio pejorativo e o mundo está compreendendo isso agora. (o correto) é indígena ou povo originário. Índia foi quando o colonizador chegou no Brasil (sic) e quis dizer que parecíamos o povo da índia, porque ele errou o caminho. Calma! Você está aprendendo. A gente está se reeducando, em constante evolução. A partir de então, você já sabe”, lê-se num trecho, que também cita o festival de Parintins (a 369 km de Manaus) e explica o significado de cunhã-poranga. 

“Cunhã-poranga, que significa mulher bonita em tupi-guarani, é o título que se dá ao cargo de Isabelle no festival. Ou seja, a anova integrante do BBB é musa máxima no festival folclórico de sua região”, informa o jornal. Conforme todos já sabem, Isabelle ingressou no BBB24 por escolha do público, em votação nacional e disputa o prêmio principal, de R$ 3 milhões. Ao todo, são 26 participantes. Até aqui, apenas quatro amazonenses conseguiram entrar na chamada “casa mais vigiada do Brasil” e apenas Vivian Amorim foi eleita vice-campeã, no BBB17. 

A TORCIDA DE ISABELLE

Rodriguinho cismou mesmo com Isabelle, por causa do ritmo bumbá. “Ela só fala nisso, vive dançando”, disse em outro momento, irritando ainda mais os conterrâneos dela. Reações favoráveis a cunhã-poranga estão por todo lado. “Fato. Esse povo tem que aprender respeitar a cultura popular. Eu fico besta que isso só acontece com o povo do Norte, principalmente com os amazonenses. Vejo nordestino exaltando suas culturas e não vejo esse movimento contra eles. Agora falou que é daqui é essa putaria”, sapecou alguém nas redes sociais.  Também não faltam ataques diretos ao pagodeiro paulista. 

Ex-presidente  da Mangueira, compositor e músico, Ivo Meirelles divulgou um vídeo no Instagram defendendo Isabelle e declarando admiração pelo ritmo do boi-bumbá. Influenciadores do Amazonas também saíram em defesa dela. A implicância do cantor é vista até como xenofobia. “Debochar do boi Bumbá é debochar do Brasil. Isabelle que está lá, é cunhã-poranga do Boi Garantido. Portanto, ela tem que dançar boi Bumbá, a cultura dela. Se tivesse uma sambista lá, ia sambar o tempo todo”, declarou Meirelles. 

COMEÇOU PELA HOLANDA

O reality Big Brother, exibido em mais de 70 países, criado em 1999 pelo holandês John de Mol, teve a primeira edição na Holanda. Foram 106 dias de confinamento. No Brasil, onde os direitos de transmissão são da TV Globo, a primeira edição ocorreu em 2002. Prêmio principal: R$ 500 mil. Desta vez, participam 16 pessoas. Desde o início desse tipo de entretenimento, não faltam críticas, ao mesmo tempo em que participar virou o sonho de muita gente (anônimos têm chance de virar celebridades). Enquanto milhões de pessoas participam da votação final para escolher o campeão (ou campeã). 

Na coluna Bastidores da Política, do sábado 13, o diretor-geral deste portal, Raimundo de Holanda, disse que os amazonenses “vivem momento alienante”. “O Amazonas está em pé de guerra com o cantor Rodriguinho. Ele não gosta de boi bumbá, menos ainda da Isabelle, a representante amazonense no BBB Brasil. Agrada os produtores do programa, alavanca a audiência da Globo e rende comentários nas redes sociais. É muita baboseira”, escreveu Holanda. 

Tem mais: “Tanta coisa para protestar, tanta tragédia circulando do nosso lado e os amazonenses preocupados com o que Rodriguinho fala do boi bumbá...O BBB é o retrato de um país perdido, alienado, com mulheres e homens confinados lutando por um prêmio milionário. Dizem bobagens e alimentam o ócio das redes sociais. Cada palavra, cada expressão, cada suspiro é contabilizado para o público como um vírus que produz euforia e revolta. É muita falta do que fazer”. 

QUANDO ABRIL CHEGAR

O diretor-geral pode ter feito uma perfeita descrição do BBB24, mas o portal do Holanda está longe de ficar alheio a briguinhas, tretas e baboseiras do reality. Pelo contrário: tudo o que é falado ou suspirado na famosa casa, é mostrado no portal. Igualzinho pode-se ver em todo lugar. Agências estão aí mesmo para entupir as redações com um produto bem aceito e consumido pelo público. Tem jeito de escapar? Parece que não, mas a previsão é de acabar em abril, ao completar 100 dias.
Nada que impeça a mídia de prosseguir na tarefa de bem informar. A sucessão municipal em Manaus, por exemplo, é pauta obrigatória. Nomes que podem entrar na disputa estão surgindo, às claras. E apesar de muita desilusão/decepção, há sempre um desejo de mudança para melhor, em toda nova eleição.  

Mais informação, melhor escolha. É a esperança.

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